A iniciativa SoberanIA, projeto voltado ao desenvolvimento da inteligência artificial brasileira, anunciou, no dia 9 de dezembro, uma nova etapa na busca da autonomia tecnológica do país. O projeto inicia agora a implantação de uma infraestrutura física considerada a mais moderna e segura da América Latina, com a inauguração da primeira Fábrica de IA Distribuída da região.
A iniciativa reúne o Governo do Piauí, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a estatal Telebras e as empresas Modular Data Centers e Scala Data Centers em uma aliança estratégica. O projeto busca integrar esforços dos setores público e privado para a criação de uma nuvem soberana, destinada a garantir que governos, instituições de pesquisa e empresas tenham acesso a modelos e bases de dados nacionais. Os investimentos previstos ultrapassam 100 bilhões de reais, o que configura uma das maiores iniciativas de infraestrutura digital já anunciadas no país.
Em uma entrevista exclusiva para a DCD, Alinie Mendes, CEO da Modular Data Centers, detalhou os objetivos, desafios e impactos do projeto SoberanIA como iniciativa que busca garantir ao Brasil controle sobre sua infraestrutura digital crítica e sobre o desenvolvimento de inteligência artificial.
O projeto foi concebido com a missão de garantir que os dados estratégicos do Brasil sejam armazenados e processados no território nacional, fortalecendo a segurança e a autonomia digital do país. A definição de onde os dados residem, como são processados e quem controla essa infraestrutura tornou-se uma decisão estratégica. Dados, algoritmos e capacidade computacional passaram a ter o mesmo peso de ativos críticos como energia e telecomunicações. Durante a entrevista, Alinie Mendes ressaltou que a soberania digital é um fator essencial para reduzir a dependência de estruturas externas e consolidar a capacidade tecnológica brasileira. Segundo ela, a iniciativa representa um marco na construção de uma infraestrutura própria e robusta, capaz de sustentar o desenvolvimento nacional. “Esse projeto estrutura a base para que o Brasil concentre e utilize seus dados de forma estratégica, garantindo que o desenvolvimento seja feito para os brasileiros”, afirmou.
Um projeto da magnitude do SoberanIA envolve a instalação de infraestrutura no Brasil, a produção nacional de componentes críticos e a adoção de uma governança clara sobre operação e segurança. Mendes destaca que a Modular produz componentes padronizados e auditáveis, com rastreabilidade completa em toda a cadeia produtiva — característica que, segundo a empresa, apenas uma indústria nacional é capaz de assegurar.
A Modular Data Centers assumiu a responsabilidade pela infraestrutura física de armazenamento do projeto, com a construção de data centers modulares e industrializados. A atuação da empresa abrange todas as etapas, desde o desenho das soluções até a execução e replicação em diferentes regiões do país, garantindo agilidade na expansão da capacidade tecnológica nacional. Segundo a CEO, o diferencial da companhia está na capacidade de replicar rapidamente projetos de alta complexidade, assegurando padrões elevados de segurança e eficiência em cada unidade instalada.
O estado do Piauí foi selecionado como ponto de partida para a implantação da chamada “fábrica distribuída de inteligência artificial”, iniciativa que já conta com sistemas em operação em infraestrutura local. A Modular Data Centers passa a integrar o projeto, assumindo a responsabilidade de ampliar e replicar o modelo em escala nacional, utilizando sua expertise em soluções modulares e industrializadas para acelerar a expansão. De acordo com Alinie Mendes, o objetivo é transformar a experiência inicial desenvolvida no Piauí em uma referência capaz de ser replicada em diferentes regiões do país. “O embrião criado no Piauí será multiplicado em escala nacional por meio da modularização”, disse a executiva.
O projeto SoberanIA conta com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que deverá financiar parte relevante dos recursos necessários à sua implementação. A Modular Data Centers, que já possui histórico de colaboração com o banco em diversas iniciativas, está estruturando uma parceria específica para este empreendimento. A meta é assegurar a viabilidade financeira e tecnológica da proposta, permitindo sua expansão em escala nacional e consolidando a infraestrutura necessária ao desenvolvimento digital do país.
Um dos pilares do projeto da Modular é a operação com 100% de energia renovável. A empresa já adota soluções voltadas à eficiência, como sistemas de resfriamento em circuito fechado com água, que evitam desperdícios, além da avaliação de tecnologias de liquid cooling e do desenvolvimento de projetos de alta densidade com menor consumo energético. “É possível desenvolver data centers sustentáveis e de alta capacidade. Nasceu como uma missão nossa”, afirmou Alinie Mendes.
No campo da sustentabilidade, a Modular também destaca práticas de economia circular e uso racional da água. Segundo Mendes, o consumo hídrico nos data centers é mínimo graças ao circuito fechado de resfriamento. A empresa aplica ainda processos de manufatura industrializada que permitem maior controle sobre energia, água e mão de obra, reduzindo impactos ambientais. “O ciclo produtivo industrializado nos permite controlar energia, água e mão de obra de forma muito mais eficiente”, explicou.
Para a executiva, o nível de capacidade de um trabalho como o SoberanIA projeta o Brasil a um novo patamar geoeconômico. O país deixa de atuar apenas como consumidor de infraestrutura digital e passa a se consolidar como produtor e exportador de tecnologia crítica. A mudança tem impacto direto na geração de empregos qualificados, na atração de investimentos e na redução de dependências estratégicas, fortalecendo a posição brasileira no cenário internacional de inovação e infraestrutura digital.
A Modular já reúne mais de 1.000 colaboradores e projeta impacto significativo na geração de empregos diretos e indiretos. A companhia também investe em programas internos de capacitação técnica, voltados a atender à crescente demanda por profissionais especializados em ambientes de missão crítica. “A mão de obra é um desafio, mas também uma oportunidade de formar profissionais altamente qualificados”, afirmou.
De acordo com Mendes, o Brasil ocupa posição de destaque em relação a países como Chile, México e Colômbia no desenvolvimento de seu ecossistema digital. O SoberanIA foi concebido originalmente em língua portuguesa, enquanto a maioria das plataformas globais é estruturada em inglês. Essa característica, segundo ela, coloca o Brasil em uma posição única para criar soluções adaptadas às necessidades e especificidades da realidade nacional.
A publicação da Medida Provisória que criou o ReData gerou muita movimentação no setor de data centers, e a Modular não é diferente. Mendes destacou a relevância da medida, que, segundo ela, deverá impulsionar significativamente a indústria de data centers no Brasil. “O ReData é um divisor de águas. Estamos fazendo o trabalho de base para que, assim que os instrumentos regulatórios estejam disponíveis, possamos abastecer a infraestrutura necessária”, afirmou.
A executiva acrescentou que o país está no caminho para deixar de ser apenas consumidor de tecnologia e avançar rumo a se tornar produtor e exportador de soluções digitais, consolidando uma posição estratégica no cenário internacional.
O futuro digital do Brasil, segundo ela, precisa ser construído de forma soberana, segura e estratégica. Nesse contexto, a Modular se apresenta como exemplo de indústria nacional comprometida com tecnologia própria e com o desenvolvimento sustentável do país. A executiva destaca que o Brasil reúne condições para avançar nesse cenário: possui tecnologia, base industrial consolidada, profissionais qualificados e visão estratégica voltada à inovação.
Alinie Mendes frisou o papel da Modular como indústria nacional comprometida com tecnologia e sustentabilidade. A executiva ressaltou que a empresa está preparada para ampliar a distribuição de infraestrutura crítica em todo o território brasileiro, com foco em inovação, geração de empregos e práticas sustentáveis.
Segundo Mendes, o projeto SoberanIA representa um marco importante para o setor. Ela afirmou que a iniciativa é um passo significativo para posicionar o Brasil em um novo patamar de liderança tecnológica, reforçando a capacidade do país de desenvolver soluções próprias e competitivas no cenário global.
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