O relatório AI Index Report 2026, publicado em abril, coloca a América Latina em uma posição ambivalente no que diz respeito ao desenvolvimento global da inteligência artificial. Embora a região mostre sinais de dinamismo em termos de investimento e adoção, persistem barreiras estruturais que poderão limitar sua capacidade de aproveitar plenamente os benefícios econômicos dessa tecnologia.

Entre elas, destaca-se especialmente o peso da economia informal, um fator diferenciador em relação a outras regiões e que condiciona tanto a digitalização quanto a adoção de soluções baseadas em IA.

A informalidade como freio à adoção

Um dos principais pontos de alerta do relatório é a elevada taxa de emprego informal na América Latina, que ultrapassa 50% da força de trabalho e chega a dois terços em países como a Bolívia e o Peru.

Esse contexto limita a penetração tecnológica, uma vez que as empresas informais tendem a investir menos em digitalização e infraestruturas. Como resultado, uma parte significativa da rede econômica fica à margem dos avanços em inteligência artificial, o que poderá se traduzir em uma crescente disparidade de produtividade e competitividade.

Reativação do ecossistema de startups

Apesar desses desafios, o ecossistema tecnológico da região mostra sinais de recuperação. Após vários anos de ajustes, o investimento em capital de risco recuperou em 2026, com as startups latino-americanas angariando mais de 1,03 bilhão de dólares (5,1 bilhões de reais) no primeiro trimestre, o que representa um crescimento anual de 12%.

Grande parte desse capital concentra-se em soluções de inteligência artificial aplicadas a setores como o fintech e o comércio eletrônico, áreas nas quais a região já conta com uma base digital mais consolidada e um mercado em expansão.

Entre a curiosidade e a desconfiança

O relatório identifica também um paradoxo na adoção da IA na América Latina: existe um elevado nível de interesse e curiosidade pela tecnologia, mas isso nem sempre se traduz numa implementação efetiva.

A desconfiança na gestão de dados e nos sistemas automatizados continua a ser um fator limitante. Nesse sentido, 2026 surge como um ano crucial para avaliar se as empresas são capazes de transformar esse interesse em aplicações reais que gerem valor tangível.

Impacto na produtividade: avanços desiguais

Nos setores mais formalizados, os resultados já são visíveis. O uso da inteligência artificial permitiu aumentos de produtividade de até 26% no desenvolvimento de software e de 15% nos serviços de atendimento ao cliente.

No entanto, estes benefícios não se distribuem de forma homogênea. A coexistência de economias altamente digitalizadas com amplos segmentos informais gera um cenário desigual, em que o impacto da IA depende, em grande medida, do grau de formalização e do acesso à infraestrutura tecnológica.

Um ponto de mudança para a região

A América Latina encontra-se, assim, em um momento decisivo. A combinação de crescimento do investimento, interesse empresarial e avanços na produtividade contrasta com profundos desafios estruturais que poderão travar seu desenvolvimento.

O desafio para os próximos anos será reduzir essa brecha, impulsionando a formalização, a digitalização e o acesso a infraestruturas que ampliem os benefícios da inteligência artificial em toda a rede econômica. Só assim a região poderá consolidar sua posição no novo mapa global da IA.

*Texto traduzido e editado ao português por Bruno Faria