O campus de data centers da Equinix fica em Santana de Parnaíba, cidade que integra a Grande São Paulo. Fica em uma região cercada por áreas verdes, e a tranquilidade do local contrasta com a intensa atividade no terreno da empresa. No canteiro ao lado do recém-inaugurado SP6, em abril de 2026, trabalhadores já tocavam as fundações do SP7, previsto para entrar em funcionamento no segundo semestre desse ano. Ao fundo, há espaço demarcado para mais dois data centers: o SP8 e o SP9. A DCD foi ao local para conhecer um dos maiores campus de data centers da América Latina e entender um pouco sobre o funcionamento de um data center voltado especificamente para IA.
Após uma rápida viagem de São Paulo a Santana de Parnaíba (ao contrário da volta, com o tradicional e conhecido trânsito na chegada à capital paulista pela Rodovia Castelo Branco), cheguei às instalações do SP6 para uma conversa com Victor Arnaud, presidente da Equinix Brasil, e para um tour pelo data center. Além de Victor, estiveram presentes Celso Eto, Senior Manager for Data Center Facility Operations, e Marcelo Titonelli, Manager of Operations do campus, profissionais que conhecem profundamente os meandros das operações do SP6 e responsáveis por guiar a reportagem durante a visita.
Com investimento de 114 milhões de dólares (cerca de 570 milhões de reais), o SP6 está em um terreno de 150.000 m², que a empresa considera uma plataforma de longo prazo. Na entrevista, Victor Arnaud afirmou: "Não estou falando de anúncio; existem vários por aí. Estou falando de investimento real e tangível, em que você entra no prédio e vê o cliente já em instalação."
Um campus pensado para escalar e quatro projetos simultâneos
A Equinix não chega ao SP6 como novidade: a empresa opera no Brasil há mais de duas décadas e hoje possui nove data centers no país, seis em São Paulo e três no Rio de Janeiro. No de Santana de Parnaíba, a empresa constrói no Brasil com a mesma lógica modular que aplica em seus grandes mercados globais: um terreno adquirido para abrigar múltiplas fases, com infraestrutura compartilhada de energia, conectividade e sistemas de suporte entre os prédios.
"A gente nunca teve quatro projetos de expansão em andamento ao mesmo tempo", disse Arnaud. Além do SP6 inaugurado e do SP7 em construção, a Equinix está expandindo o SP4, em Tamboré, e inaugurando a segunda fase do RJ3, no Rio de Janeiro. O ritmo de investimento no Brasil nos últimos 12 meses supera em 50% a média histórica anual da empresa no país, que, ao longo da última década, já era da ordem de 1 bilhão de reais por ano.
Arnaud ressaltou que o crescimento independe de eventuais avanços regulatórios, como o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData), ainda sem aprovação definitiva no Congresso. Segundo estimativas do Ministério da Fazenda citadas, 60% dos workloads de cloud pública das empresas brasileiras rodam em servidores fora do país devido aos custos tributários. Uma redução poderia inverter essa equação, mas, para o executivo, o ReData é uma peça importante, embora não seja suficiente. "Não existe uma discussão binária do tipo: se o ReData não passar, o mercado para. Isso não existe", afirmou.
A conversa com Arnaud foi além dos números de capacidade e de eficiência. Um dos temas da entrevista foi a soberania digital, assunto que ganhou urgência com a corrida global pela infraestrutura de IA e se tornou um dos temas mais importantes do setor. O executivo usou como referência o conceito do "AI Cake", do CEO da Nvidia, Jensen Huang: uma visão em camadas que vai de energia e chips a modelos e aplicações.
Segundo Arnaud, países que não participam ativamente de cada uma dessas camadas correm o risco de se tornarem exportadores de recursos naturais na nova economia digital. O ReData é uma peça importante, mas insuficiente. "O ReData resolve uma das oportunidades de melhoria. Mas não é aquela história: se o regime for aprovado, o Brasil vira um grande polo de inteligência artificial. Calma. Não é só isso", afirmou.
Para Arnaud, regulação de IA, proteção de dados e compatibilidade com marcos internacionais são igualmente necessários para atrair ao Brasil operações de treinamento e inferência de modelos. O Brasil já possui atributos raros: matriz energética majoritariamente renovável, conectividade internacional robusta e um ecossistema de negócios maduro. A questão é saber usá-los.
Quando a conversa se voltou para a adoção corporativa de inteligência artificial, Arnaud apresentou um modelo com oito níveis de maturidade, das organizações que não usam nada até às que nasceram inteiramente orientadas por IA. O diagnóstico é que o mercado brasileiro está avançando, mas de forma heterogênea. "Ainda tem hype, sim. Tem muita gente que ainda não sabe por que vai usar. Mas eu já vejo casos muito mais concretos de utilização real e de ganhos. O cara viabilizou isso, reduziu esse custo e aumentou a receita aqui", disse. O executivo identificou um padrão recorrente: a tendência de adotar uma tecnologia nova e de tentar encaixá-la em processos antigos. O resultado são ganhos incrementais e muita frustração.
Por dentro do SP6
Marcelo Titonelli ingressou na Equinix como engenheiro. Hoje gerencia as operações do campus. Celso Eto, responsável pelas instalações de facility, acumula décadas de experiência no setor de missão crítica. Os dois conduziram a visita com a desenvoltura de quem conhece cada parafuso do prédio e, ao longo do percurso, foram revelando decisões de projeto que refletem anos de aprendizado operacional.
O SP6 conta com 12 salas de servidores no total, das quais quatro já estão em plena operação na inauguração. Cada sala tem uma área útil de 750 m². A área de recepção e triagem de equipamentos foi projetada para receber cargas de até quatro toneladas por meio de um elevador dedicado, capaz de manobrar racks diretamente da doca aos andares. Uma particularidade: o campus mantém estoque permanente de ferramentas, carrinhos com rodas e cadeiras de apoio disponíveis para os clientes.
Eto explicou que esses itens não nasceram de uma decisão corporativa de cima para baixo, mas sim do feedback dos usuários. A Equinix coleta avaliações de todos os visitantes e técnicos que passam pelo site, abrangendo desde a limpeza e o acesso ao Wi‑Fi até a qualidade técnica dos serviços prestados. Com base nessas pesquisas, o time de operações implementa melhorias contínuas. As cadeiras chegaram à área de PDUs depois que um cliente passou 14 horas realizando uma migração de dados sentado no chão. "A gente tá aqui no dia a dia, mas nada melhor do que receber o feedback do usuário", disse Eto.
Titonelli completou: a empresa também padronizou os kits de ferramentas disponíveis no local, porque os clientes chegavam ao data center e percebiam que haviam esquecido um parafuso ou uma chave específica e precisavam sair do campus para comprar. Hoje, o material pode ser retirado diretamente na recepção. "Esqueci o parafuso, esqueci a ferramenta: isso virou rotina até a gente resolver", lembrou.
Solução de resfriamento
O sistema de climatização do SP6 é um dos aspectos mais inovadores da instalação e, ao mesmo tempo, um dos menos óbvios aos visitantes não especializados. Em vez de torres de resfriamento evaporativo, comuns em data centers de grande porte e responsáveis por consumos expressivos de água, o SP6 opera com um sistema de expansão indireta posicionado nas traseiras dos racks, aproveitando a física do corredor quente.
Eto explicou a lógica com uma analogia: "É como um radiador de carro. A água circula, tem ventiladores, troca calor com água gelada e retorna como ar." O ar quente produzido pelos servidores sobe naturalmente e é capturado pelas unidades condicionadoras; o ar frio resultante desce por convecção e entra pela frente dos racks. O resultado: menos energia para ventilação forçada, nenhum consumo evaporativo de água.
O campus, mesmo estando em um lugar mais afastado e cercado por muitas árvores, não sofre muito com quedas de energia e oscilações. Mas a estabilidade não vem apenas da localização; vem da subestação própria, que opera em 88.000 V (88 kV) em alta tensão e converte internamente. "É muito mais estável do que você estar numa rede de baixa tensão com várias correntes penduradas", disse.
O sistema foi desenvolvido em parceria da equipe de engenharia da Equinix e o fornecedor, já que não havia produto no mercado quando foi concebido. Hoje, outros clientes do mesmo fornecedor já adotam a solução. Titonelli destacou que em dias como o da visita, coincidentemente, a tarde mais fria da cidade de São Paulo para o mês de junho em 30 anos (e levando em consideração que a região do data center já é mais fria do que a capital), o data center simplesmente desliga as máquinas de ar-condicionado e usa a temperatura externa: "É o tipo de dia que a gente desliga as máquinas de ar e usa temperatura de fora". O free cooling entra em ação quando a temperatura externa está abaixo de 15°C, o que é frequente em Santana de Parnaíba, que, por sua altitude e cobertura vegetal densa, chega a 6°C nas noites de inverno.
O set point de entrega de ar na face dos servidores é de 25 °C. Com a temperatura externa de 15 °C ou menos, as bombas recirculam água fria sem acionar os compressores. O índice WUE (Water Usage Effectiveness) do SP6 no processo de resfriamento é zero; apenas o uso humano é considerado. Globalmente, a Equinix registrou um WUE médio de 0,95 em 2024.
Arnaud foi mais incisivo ao comparar com o que o mercado entrega hoje: "Tem gente construindo no Brasil data centers com PUE de 1,5. Isso não devia ser admissível. A gente deveria ser muito mais rigoroso com esses limites". O PUE médio global da Equinix em seus 281 data centers está abaixo de 1,4, com metas anuais de melhoria contínua.
Liquid cooling, alta densidade e a infraestrutura pronta para IA
Do ponto de vista técnico, o SP6 foi projetado para suportar cargas de energia muito superiores às dos data centers de geração anterior. A unidade oferece suporte nativo a liquid cooling, o sistema de refrigeração por fluido que se torna indispensável à medida que as GPUs de última geração chegam a racks com densidades entre 200 kW e 500 kW, sem renunciar à compatibilidade com air cooling convencional.
"A gente tem uma estrutura modularizada. Se o cliente quiser trazer liquid cooling, consegue. Se ele quiser fazer air cooling no padrão atual, também consegue. E o mais importante é que a gente faz com que isso conviva, explicou Arnaud durante a entrevista.
Internamente, o SP6 está 100% preparado para fibra óptica. Os cabos metálicos de cobre foram praticamente eliminados da infraestrutura ativa: clientes com interfaces de cobre precisam usar adaptadores para converter para fibra. A decisão reflete a demanda atual por largura de banda e elimina o gargalo de 1 Gbps imposto pelos cabos metálicos. Durante o tour, Eto mostrou as bandejas de cabos de fibra que percorrem as salas e reforçou: "Como é preparado para IA, a troca de tráfego não tem as limitações do cabo metálico".
O campus conta ainda com fibra dedicada para o SP4, o maior e mais consolidado data center da Equinix em São Paulo, localizado em Barueri, também na Grande São Paulo, vizinha a Santana de Parnaíba, com latência equivalente à de uma conexão interna. Clientes do SP6 podem operar como se estivessem no ambiente do SP4, com acesso ao ecossistema de provedores e às mais de 500 mil interconexões da rede global da empresa.
Energia, resiliência e o papel da subestação em 88 kV
A lógica de resiliência energética do SP6 foi desenhada por prédio, não por campus. Cada edifício tem seus geradores de emergência dimensionados de forma independente dos demais. Isso significa que uma falha ou manutenção no sistema de um prédio não afeta os vizinhos. "Eu não dependo nem atrapalho o funcionamento daquele prédio", explicou Eto, descrevendo a filosofia de isolamento da infraestrutura. A prioridade, na lógica de transferência de energia, é sempre retornar à concessionária quando a rede estiver estável. Os geradores entram em operação apenas diante de falha ou oscilação confirmada, não como proteção preventiva permanente. A alimentação em alta tensão, via subestação própria de 88 kV, já resolve boa parte das oscilações antes mesmo de chegarem aos equipamentos.
Em termos de energia renovável, a Equinix atingiu 100% de cobertura com fontes limpas em suas operações no Brasil. Globalmente, o índice é de 96%, com meta de 100% até 2030. A estratégia local inclui parceria de autoprodução com a Auren Energia, que viabiliza fornecimento de longo prazo. "A gente procura fazer o mais organizado possível", disse Eto, ao explicar que a padronização também se aplica aos sistemas de energia. Quem visita um site da Equinix no México ou na Europa encontra a mesma lógica.
Por trás da sofisticação tecnológica do SP6, há um desafio operacional importante: a formação de profissionais especializados na operação de data centers de missão crítica. No campus de Santana de Parnaíba, mais de 60% da equipe técnica veio de outras unidades da Equinix, transferida propositalmente para trazer experiência prévia. Titonelli, que começou como engenheiro na empresa (o presidente Victor Arnaud começou como estagiário), e Eto, com décadas no setor, representam exatamente esse modelo: carreiras construídas dentro da própria operação.
Para ampliar o pipeline de talentos, a Equinix criou, por meio de sua fundação filantrópica, uma coalizão com Vertiv, ODATA e CCO para treinar 50 técnicos de data center no Brasil, em parceria com a ONG Generation. O programa não exige compromisso de trabalhar na Equinix; o objetivo é elevar a empregabilidade geral do setor. A iniciativa já está sendo replicada em outros países da América Latina. "A gente tem programas de transição de carreira para ex-atletas olímpicos, ex-militares e para quem vem da indústria pesada. Porque a pessoa que trabalhou com transformadores e geradores já tem o tato para lidar com equipamentos de missão crítica", explicou Arnaud.
Sustentabilidade, logística reversa e impacto local
A preocupação ambiental do SP6 começa antes da primeira linha de código rodar em seus servidores. Durante a construção, toda a terra removida foi reaproveitada internamente, sem exportação de resíduos para fora do terreno. O campus foi projetado para que as áreas de docas e de manobra de caminhões fiquem voltadas para o interior do conjunto, minimizando o impacto no entorno. Titonelli mostrou, durante o tour, um reservatório de captação de água da chuva: o líquido é tratado e bombeado para os banheiros, reduzindo a dependência da rede concessionária em períodos chuvosos. "Às vezes, o pessoal olha a caixa d'água e acha que é para o ar-condicionado. Não. É água reservada para incêndio e reuso nos banheiros", explicou.
No campo social, a Equinix mantém um programa de logística reversa de materiais com a distribuidora de cabos e insumos, que recolhe materiais descartados, realiza a reciclagem adequada e emite "cheques verdes", um valor monetário revertido em ações sociais. Com esses recursos, a empresa compra cestas de alimentos e computadores doados a entidades carentes próximas ao campus, em parceria com a fundação corporativa e o programa ECOS.
América Latina: crescimento em todos os mercados
A expansão da Equinix não se limita ao Brasil. A empresa recém-inaugurou o segundo data center em Monterrey, no México, expandiu as operações no Chile e segue crescendo na Colômbia, onde o BG2 é descrito internamente como o data center mais moderno do país. Em todos esses mercados, o modelo segue o mesmo padrão: entrada por aquisição, seguida de crescimento orgânico. No Brasil, Arnaud não descarta que a empresa possa, eventualmente, expandir para além do eixo Rio-São Paulo, seja por aquisição ou por construção própria. Por ora, a estratégia permanece concentrada nas duas principais metrópoles, que funcionam como grandes hubs de interconexão de tráfego da América Latina.
A visão de longo prazo de Arnaud aponta para uma arquitetura distribuída: grandes data centers nos centros urbanos, unidades menores em cidades médias, capacidade computacional nas torres de celular, nos satélites e nos próprios dispositivos dos usuários. "Onde houver energia, haverá capacidade computacional", resumiu.
O tour finalizou na mesma sala onde fiz a entrevista com Arnaud. Pela janela, é possível avistar o espaço vazio reservado ao aumento do campus e as obras já adiantadas do SP7. Como estará daqui a um ano?
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