Agricultura Digital pode ser definida como um conjunto de tecnologias que auxiliam o produtor nas atividades rurais. Podendo ser softwares ou equipamentos que coletam e analisam dados sobre a lavoura. Novas tecnologias essas, que permitem que ao produtor rural controlar mais facilmente sua propriedade e produção, sabendo exatamente o que está acontecendo na lavoura, se há risco de pragas, se precisará antecipar a colheita, entre tantas outras possibilidades que trazem muito mais qualidade à produção.
De acordo com a TerraMagna, AgTech que faz o monitoramento de lavouras por meio de satélites, investir em tecnologia é a saída para aumentar a produção brasileira. "Vale notar que isso já foi demonstrado pela Embrapa, cujo brilhante trabalho contribuiu para aumentar a produção de grãos brasileira em mais de 600% entre o 1975 e 2017, enquanto a área plantada neste mesmo período apenas dobrou", destaca o diretor de tecnologia da TerraMagna, Bernardo Fabiani. Em entrevista ele fala sobre os benefícios da Agricultura Digital.
DatacenterDynamics: Quais são os impactos positivos da chegada da tecnologia no universo agro?
Bernardo Fabiani: Como em quase todas as áreas, o avanço da tecnologia pode proporcionar muitos ganhos. Os processos nas fazendas podem ser melhorados e as empresas aumentam as possibilidades de serviços a serem prestados para toda a cadeia agrícola.
Já temos alguns exemplos nesse sentido. A automatização das tarefas, por exemplo, acelera em muito tempo os processos no campo, irrigação, colheita, manipulação de defensivos agrícolas, entre outros exemplos, já são feitos por maquinários, e isso também evita desperdícios para o produtor.
Além de melhorias feitas nos processos produtivos dentro da porteira de fazendas, soluções para fora da porteira, que atendem toda a cadeia de valor do Agronegócio já surgiram. Elas envolvem a melhoria da consciência situacional da cadeia, transparência e otimização de fluxos de trabalho.
Também para fora da porteira já começamos a ver oportunidades: empresas de logística investem em traceability ao longo de toda a cadeia, seguradoras estão tornando ratings de lavouras mais personalizadas às peculiaridades de seus produtores e suas fazendas e financiadores do Agronegócio aumentam suas carteiras de crédito por originação inteligente, têm ratings melhores na concessão de crédito e possuem menor inadimplência.
DCD: Em termos de agricultura e tecnologia, o que iremos ver nos próximos anos por aqui?
B. F.: Observaremos uma consolidação das empresas de tecnologia no Agronegócio com base no problema que resolvem; um senso recente da Embrapa mostrou que o Brasil possui cerca de 338 agtechs. Esse é um cenário característico de um tiro de largada no mercado, muitos pequenos players que irão se aglutinar à medida que empresas são adquiridas ou saem do negócio.
Nos próximos dois anos, grande parte dos ganhos com tecnologia para o Agronegócio virá de fora da porteira, devido à concentração de players, tecnificação pelo menos média e grandes ineficiências e número de passos na cadeia.
Espero ver o grande ganho para dentro da porteira com o aumento da disponibilização de tecnologias de conectividade no campo, que permitirá a colocação de sensores proximais e atuadores em campo que, derradeiramente, levará à one-man farm. Vale notar que a dependência de infraestrutura e investimento pesado em hardware atrelados à pulverização do mercado, essas serão tecnologias de adoção mais lenta e cujo amadurecimento deverá tracionar a partir de 2021.
DCD: Existe algum projeto na agricultura que vem investindo em conexão de todas as coisas?
B. F.: Em relação ao uso de Internet das Coisas, já é possível de encontrar sistemas sendo testados para serem utilizados no campo e na agricultura. É possível, por exemplo, receber avisos de pragas antes que elas comecem ou ter sistemas de irrigação que molham a terra apenas onde ela está seca. Mas, as pesquisas são recentes e estamos só no começo do uso de IoT no campo.
Alternativamente, hoje, dado que a colocação de sensores proximais no campo é cara, de baixa mantenabilidade e difícil conexão, o que leva à adesão por sensores remotos que oferecem informações menos granulares, mas menos caras e, para diversas aplicações, suficientes.
Vale notar que, recentemente, com o plano Nacional de Internet das Coisas, a agricultura foi elencada como uma das quatro áreas prioritárias para receber incentivos nessa área.
DCD: De quem é a função de polarizar o uso da tecnologia: do governo ou da iniciativa privada?
B. F.: São de ambas. Essa é uma área que tem muito e crescer e avançar. O incentivo do governo pode aumentar o acesso dos produtores rurais, por exemplos, às novas tecnologias. E o incentivo da iniciativa privada pode promover muitas novas possibilidades.
DCD: Com a propagação da Internet das Coisas no campo, quais serão os ganhos para o Brasil?
B. F.: O Brasil tem muito chão. A propagação da Internet das Coisas no campo permitirá ter consciência situacional de todo um território imenso e esparsamente populado com qualidade, baixo custo, baixo atraso e alta frequência, um quarteto que é francamente impossível com as soluções de hoje, visto que as soluções sofrem em pelo menos uma das quatro características.
Através das informações coletadas por essa plataforma, melhores decisões poderão ser tomadas por todos os elementos da cadeia de valor do Agronegócio, reduzindo ineficiências, permitindo a emergência de padrões antes ignorados e, derradeiramente, aumentando a produção de todo nosso agro.
DCD: Quais são as saídas viáveis para contornar a falta de conectividade no campo?
B. F.: O uso de sensores remotos, tais como satélites, oferecem vantagens substanciais aos sensores proximais devido à alta disponibilidade, baixo custo e escalabilidade, servindo como excelentes substitutos para regiões com baixa conectividade ou demasiadamente remotas para instalação.
Apesar de ser possível contornar a falta de conectividade do ponto de vista sensorial, a questão de atuação - a ação selecionada com base no insight regredido por meio da interpretação dos dados dos sensores, remotos ou não - permanece problemática. Hoje, atuar nessas condições geralmente envolve um processo semi-automatizado human-in-the-loop, dado que a informação tem que ser levada em mídia física ao local do atuador, ao invés de simplesmente transmitida.
Uma alternativa já sob desenvolvimento e em caráter semi-operacional é a conexão mesh entre diferentes máquinas e sensores. Nesse cenário, cada um dos elementos de IoT da fazenda cumpre, além de sua função principal, a de nó de uma rede distribuída. Na prática, essa é uma opção que "cria" a sua própria rede de distribuição de conectividade e será um possível passo intermediário enquanto a cobertura de celular não chegar a todo campo.
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