Durante muitos anos, a sustentabilidade dos data centers foi medida principalmente pela eficiência energética. Indicadores como consumo de energia, PUE e uso de fontes renováveis passaram a orientar investimentos e decisões de engenharia em todo o setor. Esses fatores continuam sendo essenciais, mas já não representam o principal desafio da próxima década. A nova fronteira da sustentabilidade em data centers está no carbono incorporado que é emitido antes mesmo dos primeiros equipamentos serem ligados.

À medida que a inteligência artificial, a computação em nuvem e a digitalização da economia impulsionam uma nova onda de investimentos em infraestrutura digital, cresce também a importância do chamado carbono incorporado (embodied carbon), que corresponde às emissões geradas ao longo da produção, do transporte e da instalação dos materiais empregados na construção dessas infraestruturas.

Enquanto o carbono operacional pode ser reduzido ao longo da vida útil do empreendimento por meio de eficiência energética e do uso de fontes renováveis, o carbono incorporado é emitido antes da entrada em operação do data center. Uma vez lançado na atmosfera, ele passa a fazer parte da pegada ambiental daquele ativo durante todo o seu ciclo de vida.

Essa mudança de perspectiva também transforma o papel da engenharia. Se, durante muito tempo, a redução das emissões esteve concentrada na operação, agora ela começa nas decisões tomadas ainda na fase de concepção do empreendimento.

As escolhas feitas durante o projeto influenciam custos, desempenho e a pegada de carbono da infraestrutura. Entre os pontos a serem considerados estão materiais, topologias, estratégias de redundância, fundações, sistemas de climatização e especificações de equipamentos.

Cada tonelada de carbono evitada ainda na fase de projeto é uma emissão que deixa de existir ao longo de todo o ciclo de vida da infraestrutura, o que faz a competitividade dos novos data centers ser definida pela qualidade das decisões tomadas durante a fase de desenvolvimento do projeto.

Essa transformação já pode ser observada entre os principais operadores globais e empresas de tecnologia, que vêm ampliando ações para reduzir esse carbono incorporado. Mais do que responder às exigências regulatórias, essas iniciativas visam à competitividade do empreendimento ao longo de todo o seu ciclo de vida.

Talvez a maior oportunidade esteja em uma estratégia ainda mais eficiente. Projetos mais enxutos, modelagem digital, engenharia integrada e ferramentas avançadas de simulação permitem reduzir significativamente o volume de concreto e aço sem comprometer segurança, disponibilidade ou desempenho. Existe uma máxima bastante conhecida na engenharia que resume bem essa lógica: a tonelada de concreto mais sustentável é aquela que nunca precisou ser utilizada.

O mesmo raciocínio vale para a resiliência operacional. Durante muitos anos, disponibilidade foi praticamente sinônimo de adicionar mais infraestrutura. Hoje, o setor evolui para modelos mais inteligentes, que utilizam equipamentos mais eficientes, UPS modulares, expansão conforme a demanda e soluções de liquid cooling capazes de oferecer o mesmo nível de confiabilidade com menor consumo de materiais e energia.

Ao mesmo tempo, fatores econômicos e regulatórios tendem a acelerar essa transformação. Embora os data centers ainda não estejam diretamente inseridos no Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), os efeitos da precificação do carbono já começam a aparecer ao longo da cadeia produtiva. Em outras palavras, mesmo sem uma regulação direta, o carbono já começa a influenciar o custo dos novos empreendimentos.

O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para acelerar essa transformação. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o país já parte de uma posição privilegiada na redução das emissões operacionais quando comparado a diversos mercados internacionais. Isso desloca naturalmente o foco para aquilo que ainda pode ser otimizado: o carbono incorporado e a eficiência das decisões de projeto. Em outras palavras, o diferencial competitivo brasileiro deixa de estar apenas na energia limpa e passa a depender também da capacidade de projetar infraestruturas com menor carbono incorporado.

Naturalmente, ainda existem desafios importantes. O setor precisa avançar na padronização das metodologias para medir o carbono incorporado e tornar os projetos comparáveis. Sem métricas comparáveis, torna-se mais difícil reconhecer quais soluções efetivamente entregam menor impacto ambiental. Apesar disso, a direção parece inevitável. O carbono incorporado tende a se tornar um dos principais indicadores da infraestrutura digital do futuro, influenciando investimentos, escolhas de materiais e estratégias de engenharia.

A infraestrutura digital continuará crescendo para atender às demandas da inteligência artificial e da economia conectada. A questão, portanto, não é se construiremos mais data centers, mas como eles serão concebidos. Se, durante anos, o setor concentrou seus esforços em tornar a operação mais eficiente, a próxima etapa será projetar empreendimentos que já nasçam mais eficientes do ponto de vista ambiental.