Olhando para o cenário atual da automação, os principais desafios vão desde a natureza legada e altamente disponível dos sistemas de automação até a convergência IT/OT, aumento da superfície de ataque e limitações de governança e resposta a incidentes.

Em infraestruturas críticas, como data centers, esses fatores se somam ao impacto potencial físico e à necessidade de continuidade operacional, o que torna muito mais difícil aplicar práticas “clássicas” de segurança.

Tecnologias legadas e restrições operacionais

Grande parte dos ICS/SCADA/OT foi projetada décadas atrás, priorizando disponibilidade e segurança física, sem requisitos de cibersegurança, muitas vezes rodando em sistemas operacionais descontinuados e com protocolos proprietários sem criptografia. Isso cria grande dificuldade para aplicar hardening, segmentação profunda, autenticação forte e, principalmente, para realizar patching sem interromper a produção, o que mantém vulnerabilidades expostas por longos períodos.

Não é incomum encontrarmos sistemas SCADA rodando em máquinas com sistema operacional Windows XP ou Windows 7, apenas para citar um exemplo.

Além disso, muitos equipamentos de campo (PLCs, RTUs, roteadores OT/IoT) não suportam facilmente atualizações ou agentes de segurança, e janelas de manutenção são raras em ambientes 24x7, o que força o uso de controles compensatórios (segmentação, whitelisting, IDS passivo) em vez de correções diretas.

Recentemente, alguns fabricantes vêm oferecendo soluções com suporte a protocolos seguros, como o OSDP (Open Supervised Device Protocol) para leitores de RFiD e o BACnet/SC (BACnet Secure Connect), uma extensão segura do protocolo BACnet padrão, projetada para automação predial (BMS), que adiciona criptografia TLS, autenticação por certificados e comunicação orientada a conexão em redes IP, atendendo a demandas crescentes de cibersegurança em infraestruturas críticas. Desenvolvido pela ASHRAE, ele opera sobre WebSockets e TLS 1.2+, protegendo contra interceptação, manipulação e acesso não autorizado em sistemas como HVAC, iluminação e controle de acesso.

Convergência IT/OT e aumento da superfície

A digitalização (Indústria 4.0, IIoT, edge, BMS integrados ao ERP e à nuvem) conectou ambientes antes isolados, permitindo que um ataque pela rede corporativa ou por VPN chegasse à camada de controle. A convergência IT/OT cria caminhos de pivot entre redes administrativas e de automação, muitas vezes com firewalls mal configurados, DMZ insuficiente e segmentação lógica aquém do recomendado por modelos como Purdue e IEC 62443.

O Modelo Purdue é uma referência arquitetural de rede para sistemas de automação industrial (ICS/OT), dividindo a operação em níveis hierárquicos de 0 a 5, que orienta a segmentação, os fluxos de dados e os controles de segurança para mitigar riscos de convergência IT/OT. Ele complementa normas, como a IEC 62443, ao definir zonas lógicas claras, limitando a propagação de ameaças entre as camadas de campo, controle e empresarial.

Esclarecendo, o IEC 62443 é uma série de normas internacionais desenvolvida pela IEC e pela ISA para cibersegurança em sistemas de automação e controle industrial (IACS/ICS/OT), abrangendo desde conceitos fundamentais até requisitos técnicos, processos de gestão e certificação de produtos. Ela estrutura a proteção em zonas e condutos, os níveis de segurança (SL 0-4) e os requisitos fundacionais, facilitando a defesa em camadas contra ameaças em infraestruturas críticas, como BMS (predial) e ICS (industrial).

Ao mesmo tempo, a explosão de dispositivos IoT/OT expostos ou semi-expostos (sensores inteligentes, gateways, roteadores com firmware antigo) amplia drasticamente a superfície de ataque, incluindo muitos ativos sem inventário adequado ou visibilidade do tráfego.

Gestão de vulnerabilidades, visibilidade e monitoramento

A dificuldade de identificar todos os ativos OT, mapear versões de firmware e firmware inseguro e correlacioná-los às bases de vulnerabilidades torna a gestão de risco fragmentada. Ferramentas tradicionais de varredura de vulnerabilidades podem causar indisponibilidade em ICS, o que força o uso de técnicas de monitoramento passivo e reduz a profundidade das avaliações.

Em muitos ambientes, há logging insuficiente, monitoramento pouco granular de protocolos industriais e ausência de SOC com capacidade específica para OT, o que dificulta a detecção precoce de anomalias e a resposta coordenada antes que um incidente impacte a operação física.

Ferramentas específicas para OT (passivas, como Nozomi e Claroty) detectam sem escaneamento ativo, enquanto mitigações, como microsegmentação, limitam a extensão potencial de dano ou o impacto de um incidente de segurança até que patches viáveis em janelas de manutenção.

Ameaças avançadas, cadeia de suprimentos e ransomware

Os atacantes passaram a mirar explicitamente OT e infraestruturas críticas, combinando TTPs avançadas (APT) com a exploração de fornecedores, integradores, software de engenharia e atualizações comprometidas, ampliando o risco à supply chain.

Por exemplo, ransomware e malware destrutivo que atingem estações de engenharia, servidores de historização ou HMI podem paralisar processos inteiros, com consequências significativas em segurança física, ambientais e econômicas.

Além disso, ataques a roteadores OT/IoT e gateways de acesso remoto com software desatualizado também se tornaram vetores silenciosos de intrusão em redes de automação, inclusive no contexto brasileiro, onde a adoção de IoT industrial avança sem a mesma maturidade na gestão de patches.

Como referência de boas práticas para evitar problemas na cadeia de suprimentos, é aconselhável adotar pelo menos as seguintes práticas:

  • Seleção e qualificação de fornecedores
  • Controles em contratos e integração
  • Monitoramento contínuo da cadeia de suprimentos
  • Auditoria de certificações e conformidade dos fornecedores
  • Análise de processos e documentação
  • Testes independentes em ambientes seguros.

Muitas organizações ainda tratam OT como um domínio separado de TI, com pouca integração entre times, ausência de governança unificada de risco e falta de papéis claros para decisões de segurança em automação. A adoção de frameworks como IEC 62443 e a integração com práticas ISO 27001 avançam, mas frequentemente esbarram na falta de orçamento, escassez de especialistas em segurança de OT e dificuldade de traduzir requisitos normativos em retrofits viáveis em plantas existentes.

Isso resulta em políticas de acesso remoto frágeis, gestão de contas compartilhadas em engenharias, ausência de testes de resposta a incidentes em cenários que envolvem parada de produção e pouca maturidade em simulações de ataque/defesa específicas para ICS de setores como energia, água e transporte.

Sendo assim, a integração dos ambientes de OT e IT, em que ambos já migram para plataformas em nuvem, requer abordagens mais amplas, como um Sistema de Gestão da Segurança da Informação, desenhado para atender às demandas específicas dos requisitos de negócio da automação, muitas vezes integrados por meio de um PSIM – Physical Security Information Management – que compartilha dados com outros sistemas.

O IB Group atua exatamente nesse ponto de interseção entre segurança eletrônica e cibernética, estruturando arquiteturas que consideram a disponibilidade operacional, segmentação adequada segundo modelos como o de Purdue, aderência a normas como IEC 62443 e ISO 27001 e integração de dados por meio de plataformas como PSIM.

Nossa expertise permite apoiar data centers na construção de uma estratégia de segurança que vai além do compliance, conectando o perímetro físico, os sistemas de automação, os ambientes OT e a infraestrutura digital em um modelo coerente de governança e proteção.

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