Recursos como espaço físico, água e energia elétrica são cada vez mais escassos no continente europeu, inversamente proporcional à demanda por processamento de dados, devido à crescente uso da Computação em Nuvem e da internet.
Os data centers já representam quase 2% da emissão global de CO2. Neste cenário há pouco mais de 10 anos surgiu uma iniciativa voluntária: o "EU Code of Conduct on Data Centre Energy Efficiency" (Código de Conduta Europeu para Eficiência Energética de Data Center), para agrupar e difundir boas práticas imperativas para operações mais sustentáveis.
Em janeiro de 2019 foi publicada a revisão 10.1.0 do Código de Conduta Europeu, reunindo mais de 150 recomendações de melhores práticas para que operadores possam identificar e implementar medidas de melhoria de eficiência em seus data centers. O Código é organizado e revisado por um grupo de experts composto por operadores, fabricantes de equipamentos, consultores, acadêmicos, profissionais e agentes reguladores.
O acesso ao documento é gratuito
Para o sucesso de qualquer empresa no seu cumprimento, é fundamental a formação de um comitê composto por representantes de diversas áreas, garantindo assim a análise holística de recomendações a se seguir e o perfeito entendimento dos impactos de suas decisões.
As recomendações presentes no Código não se limitam a infraestrutura ou a novos equipamentos. Envolvem a documentação técnica que deve estar disponível em todo o site, auditorias, gestão e processos, e a necessidade de treinamento e desenvolvimento da equipe.
Uma equipe devidamente treinada e qualificada é essencial para a operação eficiente do data center
Para empresas de Colocation, o guia sugere até mesmo em repensar os modelos de tarifação e contratos em vigor para seus clientes, de modo a implementar novas modalidades que incentivem os seus inquilinos a adotar dentro do seu espaço locado boas práticas no uso eficiente de energia.
O tratado sugere que as empresas adequem seus processos ou os implementem conforme as seguintes normas: ISO14.001 (Sistemas de Gestão Ambiental), ISO14.040 (Análise do Ciclo de Vida do Produto - princípios e estrutura) e ISO14.044 (continuação da avaliação com os requisitos e as orientações), ISO50.001 (Sistema de Gerenciamento de Energia), ISO55.000 (Gestão de Ativos). Tais padronizações demonstram que o ambiente com excelente infraestrutura, mas sem uma boa gestão de seus processos, não conseguirá se sustentar como data center eficiente.
Um tema abordado, mas de difícil tratativa, é o gerenciamento de dados. Estima-se que uma parcela significativa dos dados armazenados é desnecessária, ou duplicada, ou ainda não demanda rápido acesso. Uma política de gerenciamento de dados pode ser desenvolvida para se decidir quais dados devem ser preservados, por qual período, e o nível de proteção. Essa política deverá também determinar diversos níveis de armazenamento conforme o grau de proteção e de retenção necessário.
Um bom desenvolvimento e implementação do monitoramento energético e sua divulgação é a chave do sucesso na eficiência operacional. A capacidade de medir o consumo energético e fatores de uso é pré-requisito para se identificar e justificar os investimentos necessários. Medições da energia consumida em diversos níveis (desde o consumo predial até a carga de TI) são requisitos para o Código de Conduta. Os dados ambientais de temperatura e umidade também devem ser coletados e armazenados. É esperado também a medição do nível de uso de equipamentos de TI, incluindo-se servidores, equipamentos de redes e storages.
Vale também citar a EN50600, série europeia de padronizações, publicada em 2016 pelo CENELEC (European Committee for Electrotechnical Standardization – Comitê Europeu para Padronizações Eletrotécnicas). A série é estruturada em 4 sessões, sendo a 1ª sobre conceitos gerais, a 2ª para a infraestrutura, por sua vez dividida em 5 subgrupos (1 – construção predial, 2 – distribuição de energia, 3 – controle ambiental, 4 – infraestrutura de cabeamento de telecomunicações, e 5 – sistemas de segurança), a 3ª para o gerenciamento da operação, e a 4ª para os índices de eficiência, incluindo as métricas de consumo de energia elétrica (proveniente de reservas fósseis e renováveis). A distribuição do EN50600 ainda não é gratuita como o Código de Conduta Europeu.
No Brasil, os grandes centros urbanos não estão longe da realidade europeia em quesitos de espaço e recursos, bem como da necessidade crescente por processamento de dados. Por que então não começar a seguir estes passos e modernizar nosso parque de data centers? Isso não significa abandonar sites antigos e reconstruir tudo do zero, mas aprender boas práticas já difundidas lá fora e implementar nos nossos ambientes. São recomendações referentes a processos e outros temas que não requerem grandes investimentos.
*Rodrigo Cianfroni é consultor de infraestrutura de missão crítica no Banco Votorantim pela CFS Engenharia.
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