Energia é um tema inerente ao data center. São como dois companheiros inseparáveis. Nessa relação a sustentabilidade atua como conselheira, cuidando para que a relação seja perfeita, eficiente e perceptível. É nessa tríade que a energia se reinventa, adaptando-se às exigências da sustentabilidade, tornando-se renovável.

Para guiar esta relação sempre por bom caminho surgem os compromissos ESG, as regulamentações e a sociedade, todos impulsando o uso de energia renovável nos data centers.

Nesta entrevista realizada pela DCD, Guilherme Corrêa, CEO da Sistenge Engenharia nos oferece suas perspectivas em relação à energia renovável, prevendo um salto nos próximos cinco anos com mais investimentos em soluções solar, eólica, hidrogênio verde e sistemas de armazenamento BESS.

Corrêa faz uma análise sobre os desafios do setor na migração sustentável, desafios técnicos e tecnológicos da migração, assim como o papel da regulamentação e a posição da Sistenge Engenharia em todo esse processo.

1.Como você vê a evolução do mercado com respeito a adoção de energias renováveis nos data centers? E, como crê que serão os próximos cinco anos?

O uso de energias renováveis nos data centers estão avançando de forma expressiva e bem consistente nos últimos anos, sendo impulsionada pelos compromissos que as empresas estão assumindo com sustentabilidade, por pressão os órgãos reguladores, e pela própria sociedade. As empresas estão buscando alternativas mais limpas, como energia solar, eólica e até soluções inovadoras como hidrogênio verde.

Nos próximos cinco anos, acredito que teremos um salto ainda maior nessa direção, com o aumento da capacidade de geração renovável, avanços em armazenamento de energia como os sistemas BESS, por exemplo. BESS é a sigla em inglês para Battery Energy Storage System, Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias, que armazena energia de fontes renováveis ou da rede elétrica, e a disponibiliza quando necessário.

Também vejo as grandes corporações e big techs optando por fornecedores com metas de ESG claras e rastreáveis. Acredito que a sustentabilidade vai deixar de ser diferencial para virar obrigação, e isso vai acelerar ainda mais essa transição.

2. Quais são os principais desafios enfrentados na adoção ou migração para um modelo de mais sustentável nos data centers?

Penso que os principais desafios para tornar os data centers mais sustentáveis estão tanto no campo técnico, quanto no estratégico. Um dos maiores é a modernização da infraestrutura existente, já que muitos data centers ainda operam com equipamentos antigos, que não foram projetados com foco em eficiência energética. A substituição por soluções mais eficientes pode ser complexa, cara e demandar planejamento de longo prazo.

Outro ponto é o acesso a fontes renováveis de energia em larga escala e de forma confiável. Dependendo da localização, isso ainda não é uma missão simples. Além disso, também vejo desafios ligados a cultura organizacional das empresas, já que a sustentabilidade precisa ser prioridade desde o board até as operações, mas muitas vezes, ela é vista como custo. E por último, mas tão importante quanto, é medir o impacto real das ações. Não adianta adotar medidas pontuais sem rastreabilidade ou metas claras.

Mas vejo o mercado amadurecendo, e o próprio avanço tecnológico tem ajudado a superar muitos desses obstáculos.

3. Como a Sistenge colabora com seus clientes na implantação de soluções de energia renovável? E de que forma é possível equilibrar alta disponibilidade com o uso de fontes intermitentes?

A Sistenge trabalha bem próxima aos clientes, entendendo a fundo as necessidades específicas de cada ambiente para propor soluções que aliam sustentabilidade, eficiência e continuidade operacional.

Nosso papel vai além da entrega técnica e buscamos ser parceiros estratégicos para ofertar modelos mais sustentáveis. Colaboramos desde o planejamento até a implementação, avaliando possibilidades como a integração de sistemas fotovoltaicos, contratação de energia de fontes limpas via mercado livre e uso de tecnologias de backup inteligentes, como BESS.

A ideia é sempre garantir que a operação esteja disponível e seja resiliente.

Sobre o equilíbrio entre disponibilidade e fontes intermitentes, acredito que o segredo está na arquitetura do sistema, onde combinamos o uso de renováveis com baterias, bancos de energia e fontes complementares, além de sistemas de monitoramento e automação para garantirem a performance.

Dá para ser sustentável sem abrir mão da confiabilidade.

4. Como a Sistenge avalia a viabilidade técnica e econômica da adoção de fontes renováveis nos projetos de missão crítica, e quais tecnologias são mais eficazes para otimizar o consumo energético nos data centers?

Na Sistenge, a avaliação da viabilidade técnica e econômica para a adoção de fontes renováveis nos projetos de missão crítica é feita de forma criteriosa e baseada em uma análise detalhada das necessidades específicas de cada cliente.

Consideramos fatores como a capacidade de geração de energia renovável local, a demanda energética do data center, o custo total de implementação e os impactos a longo prazo.

Essa avaliação envolve simulação de cargas e previsão de consumo, para garantir que a solução seja viável em relação a custos e tecnicamente.

Quando falamos de otimização do consumo energético, usamos diversas tecnologias de ponta. O uso de sistemas de gestão e monitoramento de energia EMS (Energy Management System) é fundamental porque ele permite um controle e monitoramento contínuo do consumo, identificando pontos de ineficiência. Além disso, tecnologias como a virtualização de servidores, que permite consolidar cargas e reduzir a quantidade de hardware necessário, e o uso de sistemas de resfriamento mais eficientes como free cooling e sistemas de ar-condicionado de precisão, são algumas das soluções que implementamos para maximizar a eficiência energética e reduzir custos operacionais.

5. Diante do crescente rigor das políticas de sustentabilidade ao redor do mundo, como você avalia o impacto dessas regulamentações no setor? Você acredita que essas normas aceleram a adoção de energia limpa nos data centers?

As políticas de sustentabilidade estão ganhando força de forma acelerada no mundo todo, e seu impacto no setor de data centers é significativo. Essas regulamentações não apenas exigem que as empresas mostrem suas práticas e impactos ambientais, mas também criam incentivos para que elas procurem soluções mais verdes e eficientes, forçando as empresas a repensarem seus modelos operacionais e a adotarem práticas mais sustentáveis.

Penso que as regulamentações aceleram essa virada de chave para energia limpa nos data centers. A pressão para reduzir as emissões de carbono e cumprir com metas globais de redução tem levado muitas empresas a investir mais fortemente em fontes de energia renovável, como solar, eólica e hidrogênio verde.

Também vejo que as normas têm um efeito positivo na inovação, estimulando o desenvolvimento de novas tecnologias que tornam o uso de energia renovável mais acessível e eficaz. Mas acredito que seja importante ressaltar que a adoção de energias renováveis não é um processo simples, para ambientes de missão crítica, que operam com alta disponibilidade, mas, com o apoio das regulamentações, o setor está cada vez mais alinhado com a necessidade de um futuro mais sustentável, e as empresas que lideram essa transição têm uma vantagem competitiva.

6. Qual a sua análise sobre o futuro dos data centers em termos de autossuficiência energética e integração com fontes renováveis?

O futuro dos data centers em termos de autossuficiência energética e integração com fontes renováveis me parece bem promissor, mas exige planejamento e um forte compromisso com a inovação.

A tendência é que, nos próximos anos, vejamos um movimento crescente para que os data centers se tornem cada vez mais autossuficientes, utilizando fontes renováveis como principal fonte de energia.

Isso não só ajudará a reduzir a pegada de carbono, mas também a aumentar a resiliência e a independência energética das operações, melhorando o PUE.

A integração com fontes renováveis como solar, eólica e até geotérmica está se tornando cada vez mais viável com os avanços nas tecnologias de armazenamento de energia, como baterias de longa duração. Isso permite que os data centers não dependam totalmente da rede elétrica convencional, nem de um modelo só de geração, especialmente durante períodos de baixa geração de energia renovável, como em dias nublados ou sem vento.

Além disso, a evolução dos sistemas de gerenciamento de energia e a implementação de soluções como microgrids e otimização de cargas vão tornar mais eficiente a utilização de fontes intermitentes, garantindo alta disponibilidade sem comprometer a sustentabilidade. Acredito que em cinco a dez anos, muitos data centers poderão operar de forma quase completamente autossuficiente, com a sustentabilidade e continuidade operacional de cada vez mais integradas.

Microgrid ou microrrede são redes elétricas locais, menores que a rede elétrica principal, que podem gerar, armazenar e distribuir energia de forma independente, ou em paralelo com a rede elétrica principal.

Elas são projetadas para serem autossuficientes, utilizando fontes de energia renováveis, como solar ou eólica, além de sistemas de armazenamento, como baterias, por exemplo.

O objetivo de uma microgrid é garantir a continuidade do fornecimento de energia, mesmo que a rede elétrica principal falhe, e otimizar o uso de fontes renováveis, minimizando a dependência da energia convencional. As microgrids podem ser usadas também para balancear a oferta e a demanda de energia, gerenciando de forma mais eficiente o consumo, especialmente quando se trabalha com fontes intermitentes como solar e vento.

Sistemas de gerenciamento de energia EMS podem ser usados tanto em data centers quanto em microgrids para otimizar a utilização de fontes renováveis e garantir que a energia seja usada de forma eficiente.

O EMS ajusta a carga de consumo, armazena energia em momentos de baixa demanda e libera quando necessário, mantendo a operação estável e sustentável.

Com o EMS é possível combinar fontes diferentes, como energia solar, com uma rede de backup, com baterias ou geradores, garantindo alta disponibilidade e baixo impacto ambiental.