Conforme a demanda por inteligência artificial, computação em nuvem e soluções digitais de larga escala aumentam, o mercado de data centers no Brasil atravessa uma fase de transformação profunda, ao mesmo tempo que desponta como um dos principais destinos globais para investimentos em infraestrutura digital.
Nessa entrevista com André Busnardo, diretor comercial da Tecto, exploramos o panorama atual, assim como os desafios globais para investimento neste setor.
Como cresce o mercado de DC no Brasil? Até que ponto o setor vem sendo reconfigurado ante novas exigências da hiperescala e da IA – por exemplo, maior demanda de energia e menor demanda por proximidade (para treinamento de IA, por exemplo)?
O mercado de data centers no Brasil está em franca expansão e passa por uma reconfiguração impulsionada pelas novas demandas tecnológicas, em especial pela inteligência artificial, que exige maior capacidade computacional e densidades mais altas por rack. Esse cenário tem acelerado a necessidade por infraestrutura moderna, capaz de suportar workloads intensivos em energia e refrigeração, o que abre espaço para o país consolidar sua posição como hub para operações de larga escala.
Ao mesmo tempo, a dinâmica da hiperescala e do treinamento de modelos de IA tem deslocado parte da demanda para regiões com maior disponibilidade energética e espaço físico, reduzindo a concentração exclusiva em grandes centros urbanos. Isso abre espaço para a interiorização dos investimentos e o crescimento de regiões estratégicas, como o Nordeste brasileiro, que já se destaca em conectividade internacional e oferta de energia limpa.
Diante disso, é preciso que os data centers sejam não apenas escaláveis, mas também eficientes e sustentáveis, preparados para lidar com cargas cada vez mais complexas.
Quais devem ser os impactos da nova política para o setor que vem sendo desenhada pelo governo? O que está previsto até agora? Oportunidades e desafios.
A nova política deve contribuir para investimentos em data centers no Brasil na medida que reduz os tributos dos equipamentos que são, na sua maioria, importados e traz incentivos para promover sustentabilidade e pesquisa e desenvolvimento. O Brasil tem diversas vantagens competitivas para atrair esses investimentos globais – como energia renovável, infraestrutura de conectividade e área disponíveis – e ainda alguns desafios pela frente, mas vemos com bons olhos a medida do governo.
Quais são as principais oportunidades e vantagens do Brasil para o setor? Conectividade, espaço, energia, mão de obra?
O Brasil reúne uma combinação estratégica de fatores que o tornam altamente atrativo para o setor de data centers. Além de já abrigar mais de 50% da infraestrutura de data centers da América Latina, seu posicionamento geográfico permite conexões diretas com a América do Norte e Europa, por meio de hubs como o PTT de Fortaleza.
Soma-se a isso uma matriz energética majoritariamente composta por fontes renováveis — cerca de 85% da geração —, o que representa uma vantagem relevante para um setor com alto consumo de energia e crescente demanda por soluções mais limpas e eficientes. Por fim, o país conta com uma vasta disponibilidade de terrenos, o que facilita a expansão da infraestrutura sem as limitações de regiões densamente povoadas, além de contar com mão de obra qualificada e um mercado interno em transformação digital acelerada, impulsionado pela adoção de IA, cloud e 5G.
E as barreiras? Impostos, energia etc. Como superá-las?
Apesar do cenário favorável, o setor enfrenta desafios importantes no Brasil. A alta carga tributária, a burocracia para obtenção de licenças e a insegurança jurídica são entraves recorrentes para a construção e operação de data centers. Além disso, questões como o acesso à infraestrutura de energia e à rede de distribuição, bem como a tarifação de autoprodução, exigem atenção regulatória.
Para superar essas barreiras, é fundamental uma maior articulação entre setor público e privado, com políticas públicas que incentivem investimentos, simplifiquem processos e assegurem estabilidade jurídica. E a Tecto está sempre aberta para contribuir com as discussões acerca do setor, buscando uma melhora e crescimento contínuos.
O que faz do país um atrativo para novos investimentos?
O Brasil é uma das maiores promessas para a expansão de infraestrutura digital no mundo, principalmente pela crescente demanda por serviços em nuvem, inteligência artificial e aplicações de baixa latência que estão acelerando a procura por soluções robustas e sustentáveis.
O país possui uma posição geográfica privilegiada, conectividade nacional e internacional via cabos submarinos, energia renovável a preços competitivos e ampla disponibilidade de terrenos, o que atende diversos gargalos do setor. Além disso, o avanço de hubs regionais como Fortaleza demonstra que é possível distribuir a infraestrutura de forma eficiente, reduzindo riscos de centralização e promovendo o desenvolvimento regional.
Esses fatores fazem do Brasil um destino estratégico para empresas que buscam alta performance, escala e sustentabilidade em suas operações digitais.
Quais são os principais projetos da Tecto em curso no país?
A Tecto está executando um plano robusto de investimentos que prevê a destinação inicial de 1 bilhão de dólares (5,5 bilhões de reais) para construção e expansão de data centers edge e hiperescala em diferentes regiões do país. Dois empreendimentos se destacam nesse momento: o Mega Lobster, em Fortaleza (CE), e a nova instalação hiperescala em Santana de Parnaíba (SP).
O Mega Lobster está em construção na Praia do Futuro e terá 20 MW de potência total, 13 mil m² de área construída, uso de 100% de energia renovável e conexão direta à estação de cabos submarinos e ao PTT de Fortaleza — um dos principais pontos de troca de tráfego
do país. Já em Santana de Parnaíba, a Tecto adquiriu um terreno para a construção de um data center hiperescala com potência total de 200 MW. A instalação terá localização estratégica e será projetada para atender à crescente demanda por aplicações de IA, machine learning e cloud. Ambos os projetos reforçam o compromisso da Tecto com o avanço da infraestrutura digital pelo país e com a oferta de soluções escaláveis.
Como você imagina que os incentivos fiscais do Brasil para data centers impactarão o cenário competitivo do setor, tanto nacional quanto internacionalmente?
Os incentivos fiscais planejados para o setor de data centers no Brasil têm potencial para reposicionar o país de forma mais competitiva no cenário global. A desoneração da cadeia, especialmente sobre equipamentos importados, é um passo importante para viabilizar economicamente projetos de grande porte e reduzir o custo de entrada de novos players no mercado. Isso tende a aumentar a atratividade do país frente a outros destinos da América Latina e até de mercados mais consolidados, como EUA e Europa, que enfrentam hoje desafios de custo, espaço e energia.
Internamente, a medida pode acelerar a descentralização da infraestrutura, fomentando o surgimento de novos polos digitais além dos grandes centros urbanos. Isso amplia a competitividade local e fortalece o ecossistema digital nacional. Se acompanhada de avanços regulatórios e investimentos em energia limpa e conectividade, a política fiscal pode ser o ponto de virada para consolidar o Brasil como um hub estratégico de infraestrutura digital para a próxima década.
Considerando que 84% da matriz energética brasileira é proveniente de fontes renováveis, como sua empresa planeja alavancar essa vantagem em termos de sustentabilidade e eficiência operacional?
A Tecto tem como pilar estratégico a sustentabilidade, e a matriz energética brasileira, majoritariamente composta por fontes renováveis, é um diferencial competitivo que buscamos potencializar em toda nossa operação. Temos projetos de autoprodução de energia 100% renovável. Além disso, nossa equipe de engenharia avalia constantemente a instalação de equipamentos que possam melhorar a eficiência do consumo de energia e água, pois a sustentabilidade é uma das principais prioridades no desenvolvimento de instalações preparadas não apenas para o presente, mas também para um futuro mais verde.
Como diretor da Tecto, como você planeja competir ou colaborar com grandes empresas internacionais de tecnologia que podem ser atraídas por esses incentivos, e qual proposta de valor única que vocês podem oferecer?
Na Tecto, enxergamos as big techs, provedores de nuvem, plataformas de streaming e demais empresas globais de tecnologia como parceiras estratégicas, não como concorrentes. Nosso modelo de negócio é carrier-neutral e voltado justamente para atender essas companhias com infraestrutura de ponta neutra e escalável, alto desempenho e soluções sob medida.
Temos algumas fortalezas que nos diferenciam dos demais players do setor, como nossa capacidade de investimento e solidez; o crescimento do nosso parque de data centers em edge e hiperescala; infraestrutura robusta, resiliente e inovadora que contempla não só a oferta de serviços de data center, mas também com a possibilidade de contratação de serviços de conectividade terrestre e submarina no Brasil e mais 6 países – Argentina, Bermudas, Chile, Colômbia, Estados Unidos e Venezuela oferecidos pela V.tal. Tudo isso acrescido de escalabilidade e agilidade para atender as demandas de negócio dos nossos clientes de forma rápida e confiável.
Vocês anunciaram recentemente a parceria da V.tal e Meta para construção de cabo submarino em Porto Alegre que estará conectado a um novo data center da Tecto. Qual a importância desse projeto para atrair investimentos internacionais?
O projeto do novo cabo submarino em Porto Alegre, fruto da parceria entre a V.tal e a Meta, é estratégico para reforçar a posição do Brasil como um hub global de conectividade. Ele ampliará a capacidade de tráfego de dados entre América Latina, América do Norte e outras regiões do mundo, criando uma rota internacional de baixa latência.
Esse cabo estará conectado ao data center da Tecto que será construído na região e à rede de alta capilaridade da V.tal, criando um diferencial competitivo para atrair investimentos nacionais e internacionais — especialmente de empresas que demandam soluções robustas, neutras e com conectividade global, como big techs, plataformas de conteúdo e nuvem.
A região Sul deve se tornar um polo estratégico de conectividade e data centers assim como acontece hoje com Fortaleza/Ceará na região Nordeste?
Sim! A região Sul tem todas as condições para se consolidar como um novo polo estratégico de conectividade e data centers, assim como o Nordeste, com Fortaleza. Porto Alegre, em especial, passa a ganhar protagonismo com a chegada do novo cabo submarino da V.tal em parceria com a Meta, que abrirá uma nova rota internacional de dados e posicionará a cidade como um hub de conectividade global. Vamos também construir em breve um novo data center na cidade que estará conectado com o cabo da V.tal permitindo armazenamento e processamento de alto volume de dados.
Será uma infraestrutura única que vai atrair o interesse das operadoras, big techs, OTTs e provedores de internet, além de outras empresas de cabos submarinos. Todos os países do Cone Sul serão beneficiados com esse novo ecossistema, sem falar nos usuários finais e empresas que terão uma melhor experiência no uso da internet e aplicações digitais.
A combinação entre conectividade internacional, demanda crescente por soluções digitais e atração de empresas de conteúdo torna a região altamente atrativa para investimentos — e abre caminho para a descentralização da infraestrutura, promovendo inovação, geração de empregos e crescimento econômico local.
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