Em entrevista a Datacenter Dynamics, o Diretor do Departamento de Engenharia e Aplicação das Indústrias Tosi, Marcos Santamaria, fala sobre as tendências em refrigeração que estão sendo adotadas no Brasil. O Diretor de Engenharia tem mais de 23 anos de experiência em desenvolvimento de projetos, instalação e manutenção de sistemas de ar condicionado; é graduado em Engenharia Mecânica pela Escola de Engenharia Mauá e possui especializações em Qualidade de Ar pelo PECE - USP e em Climatização de Data Centers pela DCD.
O executivo também ministra cursos pela Datacenter Dynamics. No próximo dia 25, Santamaria ministrará o "Data Center Cooling Professional" na cidade de São Paulo.
DCD: As empresas preferem soluções de refrigeração por ar ou por água?
M.S.: Para sistemas de menor porte, que são normalmente de expansão direta predomina o sistema de condensação a ar, já para os sistemas de maior porte que são normalmente de expansão indireta (água gelada) predomina o sistema de condensação a água.
DCD: Por que?
M.S.: Nos sistemas de pequeno porte, de expansão direta, é por conta do menor custo de implantação e simplicidade da instalação, já para os sistemas de grande porte, de expansão indireta (água gelada), a razão é porque ainda prevalece um mito no mercado, de que instalações de grande porte, com condensação a água, tem custo operacional mais baixo do que instalações com condensação a ar. Contudo, este conceito que já foi verdade no passado já não é mais válido, em função da evolução dos equipamentos, principalmente dos compressores. No passado, condensação a ar só era possível com compressores alternativos de baixa eficiência, enquanto que a condensação a água utilizava compressores centrífugos mais eficientes. Hoje já existem equipamentos com compressores centrífugos e condensação a ar, bem como compressores scroll, scroll inverter, parafuso e parafuso inverter, tanto para condensação a ar como para condensação a água. Quando comparados sistemas de condensação a ar e a água com a mesma tecnologia de compressão, principalmente em operações 24 horas, o menor custo operacional dependerá das tarifas de energia e água da respectiva localidade da instalação. Posso afirmar que por conta das absurdas tarifas de água e esgoto cobradas no Brasil, na maioria dos casos a condensação a ar terá custos operacionais (energia + água + tratamento químico de água + manutenção) mais baixos do que a condensação a água. Contudo, deve-se também levar em conta a degradação mais rápida das unidades de condensação a ar quando instaladas na orla marítima sujeita a maresia agressiva.
DCD: As empresas brasileiras estão utilizando free cooling?
M.S.: Ainda muito pouco.
DCD: Qual é o grau de penetração das novas soluções de free cooling no Brasil?
M.S.: Que eu tenha conhecimento, a única preparada para free cooling é o novo Data Center do Banco Santander em Campinas.
DCD: O free cooling pode ser utilizado em qualquer região do Brasil?
M.S.: Não são todas as regiões do Brasil que tem viabilidade econômica para utilização de free cooling. São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro são as cidades que detém quase a totalidade dos data centers do Brasil. Tanto São Paulo como Brasília tem plenas condições de utilização de ciclos economizadores (free cooling).
DCD: Qual é a preferência das Indústrias Tosi: free cooling direto ou indireto?
M.S.: As indústrias Tosi não têm razão de preferência por tipo de free cooling. Eu, como especialista em climatização de Data Centers, entendo que o ciclo economizador indireto com resfriamento evaporativo incorporado seja o modelo mais adequado para Data Center de grande porte no Brasil.
DCD: Como garantir alta densidade no ambiente de free cooling?
M.S.: Este é um estudo que precisa ser feito caso a caso, não há como apresentar uma “receita de bolo” para adoção de ciclos economizadores, independente da densidade de carga do ambiente.
DCD: As empresas estão solicitando soluções de refrigeração adiabática?
M.S.: Para Data Center, no exterior tenho visto alguns casos, mas aqui no Brasil ainda não. Somente para conforto e aplicações específicas.
A refrigeração é um dos pontos mais críticos na operação e responsável por uma parcela considerável do custo de operação de um data center.
DCD: Quais soluções vão se impor no mercado nos próximos anos ?
M.S.: A adoção de compressores inverter, sejam eles de pequeno porte do tipo scroll, sejam eles de maior porte como parafuso e centrífugo. A utilização de ventiladores EC, o controle de umidade pelo ar externo de renovação/ pressurização. Menos controle de umidade de uma forma geral, adoção gradual de sistemas com ciclos economizadores ( “free cooling” ).
DCD: Como a refrigeração pode contribuir para a eficiência energética no data center? Como se pode fazer uma refrigeração mais eficiente?
M.S.: A primeira e mais importante medida para se ter uma refrigeração mais eficiente é a completa segregação dos ar frio de entrada dos servidores do ar quente de descarga dos mesmos. A distribuição do ar é fundamental para a eficiência energética do sistema de refrigeração. Somente depois de bem equacionada a distribuição de ar é que se pode tirar proveito das outras ações para melhoria da eficiência dos sistemas de refrigeração, como aumento de “setpoints”, redução da vazão de ar total, automatização dos controles para maior eficiência, utilização de equipamentos de refrigeração mais eficientes e etc.
DCD: As empresas brasileiras utilizam medidas sustentáveis como a separação de corredor frio/quente e contenção de corredor?
M.S.: O mercado de Data Centers de maior porte como os de bancos, e servidores de internet já está mais maduro e utiliza o conceito de sustentabilidade, já o mercado de data center de menor porte ainda não está tão maduro e a adoção deste conceito ainda não está 100% disseminada.
DCD: As empresas têm consciência da necessidade de buscar soluções mais eficientes de refrigeração?
M.S.: Consciência as empresas têm, o que vejo é que ainda faltam no mercado profissionais bem qualificados para mostrar para estas empresas quais são as soluções mais eficientes em refrigeração. Ainda existe no mercado a visão de que Data Center tem que ser gelado (temperatura abaixo de 22ºC), se isso não ocorrer, os servidores não operam adequadamente. Ainda são poucos os profissionais no mercado que conhecem os parâmetros da TC 9.9 da ASHRAE, que estabelece temperatura recomendável do ar de entrada nos servidores entre 18ºC e 27ºC com umidade variando entre 5,5ºC de ponto de orvalho a 15ºC de ponto de orvalho.