É fato que o mercado dá sinais de que chegamos em um tempo em que uma abordagem tradicional para gerenciar o data center já não é mais eficaz. Hoje, para que um data center seja competitivo e sua infraestrutura seja utilizada ao máximo, os gerentes de data centers têm que transpor o desafio de tornar a operação cada vez mais eficiente, em especial na questão de economia de energia. 

Dentro desse contexto, surge a Inteligência Artificial (IA) com a proposta de simplificar o gerenciamento, apresentando eficiência na distribuição de temperaturas dentro do data center de forma e a consequente diminuição de consumo de energia otimizando a refrigeração do data center.

De acordo com a AIMIRIM, empresa de base tecnológica de Uberlândia (MG), a Inteligência Artificial no contexto do mercado hoje, é uma tendência em todas as áreas. Recentemente acelerada pela Pulse Hub - Raízen, a AIMIRIM vem trabalhando sob o conceito "Digital Twin", modelo digital de processos físicos, que tem como finalidade tornar os processos industriais mais produtivos. Para falar sobre o tema, a DCD conversou com Renato Pacheco, diretor presidente da AIMIRIM. Leia, a entrevista, a seguir. 

DatacenterDynamics: Gostaria que você começasse falando sobre "Digital Twin".

Renato Pacheco: Digital Twin é um termo novo que nesse novo contexto de indústria serve pra definir quando se tem uma réplica digital (gêmeo digital) de um equipamento físico, no computador. É como se fosse um protótipo virtual. Criamos esse software capaz de virtualizar equipamentos ou processos industriais baseados na nossa expertise de mais de 15 anos em modelagem numérica e matemática. Os modelos virtuais então, abrangem qualquer problema de engenharia seja data centers, problemas de aerodinâmica, refrigeração, combustão, que envolvam fluidodinâmica que é uma das áreas da engenharia. Ele por si só não garante uma eficiência energética, mas permite que você teste diferentes configurações em um ambiente virtual (sem custo de construção física do data center, por exemplo) visando a melhor performance. Nesse cenário, temos um outro produto baseado em Inteligência Artificial que melhora a condição de refrigeração e é testado no nosso software para Digital Twin. 

DCD: O controle de refrigeração de Digital Twin já foi aplicado em algum data center?

R. P.: Na prática a solução não foi implementada em nenhum data center. Entretanto já foi simulado um data center real com condições de operação com e sem a nossa Inteligência Artificial onde foi possível observar uma redução de até 15% no consumo de energia elétrica para refrigeração.

DCD: Existe alguma demanda?

R. P.: Entendemos que existe a demanda, cabendo à AIMIRIM uma estratégia de penetração de mercado que faça sentido para todos. Hoje a AIMIRIM está focada na mesma tecnologia aplicada a processos industriais de produção de energia em termelétricas. Estamos com um esforço concentrado nessa área porque achamos uma vertical que está permitindo nosso crescimento. Mas é simplesmente uma questão de abordar outra vertical que é a de data centers.

DCD:  Inteligência Artificial é garantia de 100% de disponibilidade do data center?

R. P.: Inteligência artificial assim como o Digital Twin, é mais um termo que vem sendo amplamente utilizado para as novas soluções de mercado. Quando abordamos nossos clientes, o primeiro passo é explicar e exemplificar esses termos para que o cliente saiba exatamente sobre o que estamos falando. Sendo assim, podemos dizer que a Inteligência Artificial é um método numérico que tem a capacidade de se adaptar a variações do processo. A Inteligência Artificial por si só não garante nenhuma disponibilidade a mais para o data center. Mas a partir do momento em que ela é aplicada, os processos de engenharia (e no caso do data center o processo de refrigeração) tendem a ficar mais estáveis e mais otimizados. Se um processo está mais estável e otimizado, entende-se que o fim desse processo que é garantir a temperatura ideal nos racks do data center, fique melhor comportado. Com esse processo melhor comportado, os riscos de queda por variação de temperatura diminuem. Sob essa ótica, os data centers passam então a ter uma disponibilidade/confiabilidade maior do que a convencional.

DCD: Inteligência Artificial aplicada em data center será uma tendência? Uma abordagem tradicional para gerenciar data center já não é mais ideal?

R. P.: A Inteligência Artificial no contexto do mercado hoje, é uma tendência em todas as áreas. A avaliação entre métodos com Inteligência Artificial versus métodos convencionais é um problema que sempre precisa ser abordado com o cliente. Teoricamente se o data center está operando e atendendo as expectativas, não existe um problema a ser tratado. Mas a partir do momento em que o cliente entende que um novo método é capaz de aumentar as expectativas, então existe um fenômeno que é quando a gente “cria” um problema para o cliente. Nesse caso, criamos um problema bom. O problema que é criado é baseado no fato de que o cliente pode perceber que é possível que sua operação que já é boa, seja melhor. E aí entramos na questão: quem não quer melhorar o que já faz? É possível? É assim que entendemos a tendência de aplicação da Inteligência Artificial nos mercados em que atuamos e podemos atuar.

DCD: Para utilizar Inteligência Artificial em data center faz-se necessário a adoção de ferramentas de Machine Learning? 

R. P.: As ferramentas de Machine Learning ou aprendizado de máquinas (mais um termo moderno) se configuram como uma adição dentro da Inteligência Artificial. Imagine que como dissemos que a Inteligência Artificial faz com que seu processo entenda melhor a própria dinâmica de operação, então o seu processo é inteligente. Mas há perturbações no sistema que são quase aleatórias. Se o seu sistema dinâmico não entende quando o processo muda para um ponto de operação aleatório, então é uma Inteligência Artificial sem aprendizado. Mas se a sua Inteligência Artificial consegue dada uma determinada variação não prevista, mudar sua forma de operação e novamente ficar eficiente naquele novo ponto de operação, então significa que a sua Inteligência Artificial também tem a capacidade de aprender. Aprender não só com mudanças, mas com erros. Então temos um sistema dinâmico e adaptável. Sendo assim, não é necessário que a Inteligência Artificial tenha um aprendizado, mas quando tem, é uma Inteligência Artificial de um nível mais alto que dizemos ser uma Inteligência Artificial já com um raciocínio.

DCD: Quais são os desafios para aplicar Inteligência Artificial em data centers?

R. P.: O maior desafio é que as máquinas de refrigeração são de fabricantes que por conta de seus modelos de negócio e até por questão de confiabilidade, dificultam a atuação de sistemas terceiros acoplados aos seus equipamentos. De certa forma, o que fazemos é acessar a tecnologia do fabricante e mudar o seu ponto de operação. A aceitabilidade disso é relativa e invariavelmente vai encontrar resistência. Mas que então essa resistência possa ser vencida e que os fabricantes possam olhar soluções e empresas como a AIMIRIM como parceiras para que todos saiam ganhando ao final. Existe o outro desafio que é o tecnológico sobre como desenvolver esse tipo de tecnologia. Mas esse desafio a AIMIRIM consegue vencer com seu corpo técnico altamente especializado e experiente.

DCD: Com a Inteligência Artificial aplicada em data centers, como fica o papel do DCIM?

R. P.: Dentro da aplicação da nossa tecnologia, oferecemos também índices e métricas que podem ser acoplados ao DCIM. Essas métricas podem tanto ser alinhadas com o cliente quanto serem estabelecidas pela AIMIRIM. Usualmente o que oferecemos são análises e dashboards de performance de equipamentos industriais. É uma visão mais técnica da gestão pois envolve um conhecimento maior de engenharia. Entretanto, como temos observado, é uma grande tendência de mercado.