Com uma vasta experiência na vanguarda das soluções arquitetônicas e tecnológicas, Boris Kuszka, Diretor de Arquitetura de Soluções da Red Hat, na nova edição do Connect São Paulo, maior evento do setor de data centers no Brasil, oferecerá uma visão sobre como a inteligência artificial está transformando as operações dos data centers corporativos.
Nesta entrevista, o executivo compartilha insights que serão explorados ao longo das discussões com outros profissionais e empresas do setor. Confira!
Que potenciais aplicações da Inteligência Artificial você identifica para otimizar a operação dos data centers?
A introdução de recursos de Inteligência Artificial e Machine Learning (IA/ML) não é uma novidade para a maioria dos Data Centers corporativos. No entanto, após a popularização de ferramentas generativas como o Bard, Bing IA e até o ChatGPT, especialistas reforçam seu uso e aceleraram a implementação dessas ferramentas por meio de melhorias constantes a ecossistemas.
A primeira delas foi identificar padrões dentro de servidores e produzir respostas automáticas para ocorrências, o que geralmente chamamos de automação. Para além disso, Data Centers com treinamento específico em IA/ML podem se tornar mais autônomos e, em alguns casos, até alterar a estrutura de sistemas sem a intervenção de um programador ou técnico da estrutura de TI.
Durante o Summit global da Red Hat, lançamos o Red Hat Ansible Lightspeed, que possibilita a integração da ferramenta Watson Code Assistant IA, da IBM, dentro de Data Centers para automatizar tarefas, alterar estruturas simples em servidores e, sobretudo, e ter uma visão 360º de todos os processos em servidores, da nuvem até a edge computing (computação de borba).
Em resumo, à medida que a IA/ML se consolidarem como ferramentas essenciais para empresas de diversas culturas e tamanhos, avalio que novas aplicações como a integração à Internet da Coisas (IoT) e a sugestão de novos serviços inteligentes potencializarão a performance de servidores.
Quais desafios técnicos podem ser enfrentados ao integrar sistemas de Inteligência Artificial em data centers existentes?
O primeiro, e talvez o mais claro desafio para empresas, será dispor de Data Centers com uma capacidade suficiente de armazenamento e movimentação de dados. À primeira vista, poderia parecer que essas aplicações funcionam apenas como add-ups, mas não é bem assim. Como sublinha um estudo recente da IBM, até 2030, servidores terão um consumo energético 12% maior do que atualmente, devido à ampliação de tamanhos e sobreposição de atividades dentro desses ambientes. Ou seja, expandir atividades não é algo simples para organizações.
Para além de espaço, Data Centers precisam de potência para operar ferramentas de IA/ML. Servidores mais antigos ou com protocolos defasados podem não se adaptar à nova dinâmica disruptiva e, no pior dos casos, simplesmente não funcionam mais. Dessa forma, equipes de TI devem deixar de só pensar em Software e também voltar às atenções para Hardware, ao Baremetal, enfim, ao Computing Power, que antes fora tão definidoras da TI nos anos 90 e 2000.
Por fim, a segurança de dados sensíveis e protocolos de ciberproteção também devem ser revistos. Afinal, a chegada da IA não é apenas uma solução de enablement, como também uma poderosa ferramenta de criação e transformação tecnológica. Todo cuidado é pouco.
Como a automação está influenciando a concepção e o planejamento de novos data centers, levando em consideração os requisitos de escalabilidade e eficiência operacional?
Certamente, hoje quando empresas pensam em modernizar sua infraestrutura de TI, a solução de automação é uma das primeiras coisas que passam em suas mentes. Segundo um levantamento da IDC, a complexidade dentro de ecossistemas de cloud, público, privado ou híbrido vai crescer de 77% para 82% nos próximos três anos, o que significa que para escalar processos e garantir eficiência em entregas, a automação será cada dia mais indispensável.
A união da automação com a inteligência artificial permite desbloquear uma tecnologia que chamamos de hyperautomation. Com ela podemos analisar grandes quantidades de dados de maneira ágil e efetiva, oferecendo importantes insights para os tomadores de decisão. Além disso, essa solução nos possibilita personificar a interface dos softwares e singularizar a experiência do usuário, tornando-a mais imersiva e alinhada com os valores corporativos.
Para se ter uma ideia a urgência dessa feature, um estudo global da consultoria Gartner, aponta que hoje quase metade das companhias possuem algum tipo de ferramenta de automação e nos próximos dois anos, 70% das empresas alinharão processos de automation para alavancar a produtividade e oferecer serviços mais imersivos e valorosos a consumidores.
Quais são as perspectivas de longo prazo para o papel da IA e da automação na evolução contínua dos data centers, considerando o rápido avanço tecnológico e as mudanças nas demandas do mercado?
No meu entender, soluções de IA/ML, automação e hyperautomation bem como estruturas de 5G e OpenRan serão cada vez mais utilizadas por empresas e companhias de todos os tamanhos. Seja para otimizar e ampliar a capacidade de DataCenters, seja para oferecer novos insights de negócios e diminuir o time to market de produtos, serviços e, principalmente, e metodologias disruptivas.
Para isso, no entanto, companhias devem estar abertas a rever valores e investir na transformação cultural de seus ecossistemas. Se hoje o software é decisivo para o sucesso de uma organização no mercado, a maneira como processos, relacionamentos e, mais do que isso, lideranças são construídas por meio da tecnologia é igualmente fundamental. Afinal, a metodologia Agile em DataCenters só pode ser acompanhada por uma empresa disposta a modernizar suas bases e ressignificar qualidades corporativas.
Assim, em um primeiro momento, a introdução de novas ferramentas de performance e análise de dados terá um grande impacto técnico na maneira como equipe e ambiente de TI pensam e escalam processos. Mais à frente, essas transformações impactarão todo o ecossistema corporativo, eliminando postos improdutivos, capacitando colaboradores e permitindo que exista mais interação entre profissionais, fortalecendo habilidades inter-relacionais e aproximando setores.
Em síntese, a evolução de DataCenters é o primeiro passo para uma transformação mais profunda na maneira como trabalhamos processos e desenvolvemos boas práticas em todo tipo de organização, desde aquelas diretamente ligadas à tecnologia àquelas de outros setores da economia.
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