O Governo Federal pretende utilizar uma blindagem para garantir a inviolabilidade de suas comunicações estratégicas. Dessa forma, toda a comunicação realizada entre os órgãos da administração federal será feita por meio do satélite geoestacionário.
"Os dados ficam expostos e à mercê de políticas de vigilância dos países por onde passam", explica o diretor do Departamento de Banda Larga do Ministério das Comunicações, Artur Coimbra.
Segundo ele, essa vulnerabilidade, prejudicial para a soberania brasileira, está com os dias contados. A previsão é de que o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), que está em construção, garanta mais segurança às comunicações do país. "Todo esse tráfego de dados será feito por uma rede própria, o que garante o controle da rota que essa informação fará", explica Coimbra.
PNBL
Além de servir como canal para as comunicações sensíveis do governo, a Banda Ka do SGDC – que corresponde a 75% da sua capacidade - será usada também para ampliar a oferta de internet no programa Banda Larga para Todos. A previsão é de que todo o território brasileiro seja coberto pelo satélite e, assim, seja possível levar internet de alta performance para 150 municípios brasileiros, onde não há nenhuma forma de acesso. "São municípios da chamada Amazônia Legal e também no arquipélago de Fernando de Noronha", detalha.
Além disso, o satélite permitirá ampliar a oferta de internet em mais de mil cidades onde a rede terrestre da Telebras – rádio e fibra ótica - não é suficiente para atender toda a população. "A Telebras vai usar o satélite para cobrir essas regiões mais remotas, onde há alguma barreira geográfica que gera uma carência de Infraestrutura", acrescenta.
Uso militar
Coimbra conta que o satélite estará equipado com a X, uma faixa de frequência destinada ao uso militar, que corresponderá a 25% da sua capacidade. O satélite permitirá uma cobertura regional (América Central e do Sul, Atlântico Norte e Sul, e costa oriental da África), uma plena cobertura do território nacional e contará com um feixe de cobertura móvel, capaz de iluminar qualquer ponto do globo visível pelo satélite de sua posição orbital. "Dessa forma, você consegue uma boa interligação com qualquer tropa, aeronave ou navio que esteja nessa área de cobertura do satélite", enfatiza o assessor da Sub-chefia de Comando e Controle do Ministério da Defesa, Coronel Edwin Pinheiro da Costa.
Atualmente, as comunicações militares são realizadas por meio do aluguel da banda X em dois satélites da Embratel. Quando o satélite geoestacionário for lançado, o satélite privado será usado apenas como backup.
Transferência de Tecnologia
O SGDC está sendo construído em Cannes, na França, pela Thales Alenia Space (TAS), empresa franco-italiana. Os trabalhos estão sendo supervisionados pela Visiona Tecnologia Espacial, joint-venture composta pela fusão de duas empresas brasileiras: Embraer (51%) e Telebras (49%). Essa empresa integradora é responsável por toda a parte gerencial de aquisição do sistema e absorção de tecnologia.
Desde o início da construção do artefato, técnicos do Ministério das Comunicações, Defesa, Agência Espacial Brasileira, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, da empresa Visiona e da Telebras estão fazendo cursos e atuando na TAS. "Eles estão aprendendo e dando contribuições", assinala o diretor do MiniCom.
De acordo com o portal do Ministério das Comunicações, a absorção de tecnologia permitirá que esses profissionais estejam aptos para assumir atividades de controle do satélite, já que esse processo acontecerá, pela primeira vez, em território brasileiro, em centros de controle que estão sendo construídos no Rio de Janeiro e em Brasília. Ao final do processo, os técnicos poderão atuar no desenvolvimento de outros projetos espaciais.
O SGDC
Esse será o primeiro satélite totalmente controlado pelo governo brasileiro e o projeto envolve os Ministérios da Defesa, das Comunicações e da Ciência e Tecnologia. Ele começou a ser construído em janeiro de 2014. Quando for lançado, no segundo semestre de 2016, ficará posicionado a uma distância de 35.786 km da superfície da Terra. Após o encaixe na posição orbital e alguns meses de testes, deverá entrar em operação no primeiro trimestre de 2017.
O artefato terá cinco transponders – equipamento que recebe o sinal em determinada frequência, realiza a conversão e transmite o sinal recebido em uma nova frequência - em Banda X (militar) e 40 em Banda Ka (civil) e pesará cerca de 5,6 toneladas. A capacidade total de transmissão de dados será de 50 a 60 Gbps; sua vida útil mínima é de 15 anos.
O investimento total do processo foi de R$ 1,7 bilhão, oriundos do orçamento do Governo Federal. De acordo com o engenheiro de telecomunicações, Waldo Russo, esses recursos terão um retorno imediato para o país, seja na melhoria da infraestrutura, nos desdobramentos que a construção de um equipamento deste porte proporcionam em outras áreas da ciência ou no impacto geopolítico de um projeto como este. "Todo o país com características semelhantes ao Brasil, seja de população, PIB, território tem investimentos nessa área, que movimenta US$ 300 bilhões por ano", informa.
Comments