Como a natureza dos dados muda, com cargas de trabalho de inteligência artificial (IA) se tornando um requisito cada vez mais comum em data centers, a conversa se volta para a refrigeração por líquido, um componente vital para que GPUs (unidades de processamento gráfico) sejam utilizadas para cargas de trabalho intensivas. Mas será esse o futuro da refrigeração? A refrigeração a ar, que tem servido bem à indústria por quarenta anos, está prestes a desaparecer?
A DCD conversou com Danielle Rossi, gerente estratégica de data centers da Trane, fabricante e fornecedora de tecnologias de refrigeração, que também oferece treinamento, consultoria e suporte aos operadores sobre como aproveitar ao máximo seus data centers. Começamos com a pergunta que não quer calar: Como você faz uma escolha bem-fundamentada sobre o que é certo para você? Rossi nos conta:
“Geralmente, isso é uma diferença de escala. Mas há muitas outras variáveis. Tudo vai depender de as pessoas quererem chillers refrigerados a ar nos telhados ou chillers refrigerados a água dentro do edifício, então, também é uma questão de espaço. Mas você não precisa fazer uma coisa ou outra. Você pode ter um design híbrido.”
“Precisamos ter mais conversas sobre planejamento, sobre quais são os objetivos futuros ou, se a instalação for de espaço compartilhado, ter essa conversa com seus clientes. Não se trata apenas do que você precisa hoje, mas do que você vai precisar daqui a 5 anos.” Danielle Rossi, Trane
Você já deve saber que, nesse momento, a refrigeração por líquido é demasiada para as suas necessidades. Mas Rossi faz questão de salientar que esse não é o momento para mentalidades de curto prazo:
“As pessoas precisam pensar em um plano para daqui a 5 a 10 anos. Precisamos ter mais conversas sobre planejamento, sobre quais são os objetivos futuros ou, se a instalação for de espaço compartilhado, ter essa conversa com seus clientes. Não se trata apenas do que você precisa hoje, mas do que você vai precisar daqui cinco anos."
Este é um ponto importante, porque afeta as decisões de projeto, que precisam ser resolvidas o mais cedo possível:
“Se você não incluir a possibilidade de usar algum tipo de refrigeração por líquido no futuro, como deixar espaços e infraestrutura nas paredes, então ou você aceita que isso não é uma opção para a instalação ou você terá que modernizá-la mais tarde, o que vai custar muito mais e pode causar um tempo de indisponibilidade, dependendo da sua situação.”
“Projetos híbridos tendem a funcionar bem se você não sabe o que quer. E então, mais tarde, você tem a flexibilidade de mudar.” Danielle Rossi, Trane
Rossi continua explicando alguns dos fatores envolvidos no processo de tomada de decisão:
“Qual é o seu objetivo principal? Projetos híbridos tendem a funcionar bem se você não sabe o que deseja. E então, mais tarde, você tem a flexibilidade de mudar. Pode custar mais caro no início, mas tudo depende da vida útil restante do data center, ou se vale a pena pagar a mais agora para que você não precise fazer alterações depois.”
A questão inevitável, no entanto, é se Rossi concorda com aqueles que acreditam que a refrigeração por líquido é o futuro e que a refrigeração a ar está chegando ao fim. A resposta é um “não” categórico.
“A refrigeração a ar não vai desaparecer tão cedo. Os data centers corporativos compõem uma grande parte da população de data centers que não precisam de um sistema de refrigeração de alta capacidade. Dizer que tudo isso vai chegar ao fim e migrar para líquido não faz sentido. Aplicações individuais com uma densidade extremamente alta, essas sim podem ser resfriadas com o uso de líquidos. Na realidade, será uma combinação.”
Os veteranos da indústria podem ter a impressão de que a refrigeração a ar estagnou. Rossi dirá que nada poderia estar mais longe da verdade. Ela lembra:
“Em uma vida passada, eu vendia refrigeração a ar, e isso foi uma grande mudança. Era a refrigeração perimetral do início dos anos de 1980. Fomos de ventiladores de correia e polia a ventiladores de acionamento direto. Mas a grande mudança foi a refrigeração em fileiras, que proporciona a capacidade de atingir densidades muito altas. Já tive racks de 40 a 50 kW que eram eficientemente refrigerados em fileiras. Então, você precisa de refrigeração por líquido? Seu projeto híbrido pode incluir unidades de contenção ou de perímetro contido?”
Na segunda parte da nossa entrevista com Danielle Rossi, analisamos mais profundamente as questões de sustentabilidade que envolvem a refrigeração. Contudo, como ela ressalta, são vários os fatores em jogo, como o TCO (custo total de propriedade):
“A refrigeração a ar não vai desaparecer tão cedo. Os data centers corporativos compõem uma grande parte da população de data centers que não precisam de um sistema de refrigeração de alta capacidade. Dizer que tudo isso vai chegar ao fim e migrar para líquido não faz sentido.” Danielle Rossi, Trane
“Não é uma comparação realmente justa. Com a refrigeração em fileiras, usando VLANs (redes locais virtuais), um rack pode ser de 40 kW enquanto outro pode ser de 20. A única comparação direta é a quantidade de energia gasta em relação à refrigeração fornecida, e os líquidos provavelmente vencerão sempre. Mas, e quanto aos custos de construção envolvidos na mudança completa da disposição do seu data center?”
Em geral, a conversa atual gira em torno da suposição de que a refrigeração por líquido sempre estará um nível acima. Tendo isso em mente, perguntamos a Rossi se há alguma vantagem em investir em uma refrigeração a ar moderna. Novamente, ela nos avisa que não há uma resposta direta:
“Depende do que você está fazendo. Pode ser mais barato, mas também pode ser mais caro, o que é confuso. Depende da disponibilidade de carga em relação ao espaço, das cargas com as quais você vai trabalhar e até mesmo da demanda futura prevista. Existem muitos fatores a considerar.”
No entanto, como ela ressalta, um dos maiores fatores é a velha questão de como realizar a manutenção de um data center sem causar tempo de indisponibilidade e, nesse ponto, ela ilustra o lado negativo desse novo mundo de refrigeração a líquido.
"Para manter um rack imerso em um sistema refrigerado de uma única fase, é necessário lidar com fluido de base oleosa, o que faz a tarefa ser bastante frustrante. Em um sistema de duas fases, ele é fechado hermeticamente. É necessário retirar e inserir, e então se preocupar com a potencial perda de fluido.”
Isso representa outro equívoco na lista sobre refrigeração líquida de Rossi:
“As pessoas tendem a pensar que é igual a operar um data center normal, mas há muito mais a se pensar. Pense em como você quer que seu data center funcione. A refrigeração Direct-to-chip (direto no chip) tem a mesma disposição de um data center padrão, mas você ainda precisa desconectar servidores ou acessar CPUs e bombas, então considere a diferença de custo.”
Cada país tem uma legislação diferente, principalmente na era da sustentabilidade. Essa diferença nos mostra que uma só abordagem está definitivamente fora de questão e, com novas leis sendo aprovadas o tempo todo, o mantra do planejamento antecipado entra em jogo novamente. Rossi nos conta:
“Parte disso se deve ao fato de que há uma falta de regulamentação no momento. Não só não existe um padrão industrial, como também não existe um padrão empresarial único. Os fabricantes de sistemas de refrigeração não sabem o que oferecer e, de repente, as pessoas começam a dizer que já estão decidindo o que querem, mas ninguém está fabricando isso, porque elas não tomaram essa decisão no ano anterior. É aí que o planejamento ajuda a todos.”
Em resumo, Rossi enfatiza mais uma vez que o segredo está no planejamento:
“O mundo atual é interessante, porque todo mundo acha que vai usar refrigeração líquida. Quando? Você sabe o que é isso? Para fazer o quê? Que tipo você quer?”, ela brinca.
“Há muito o que falar sobre refrigeração por líquido nesse momento. As pessoas precisam se concentrar mais nas suas necessidades futuras. Muitas pessoas estão falando sobre isso, mas não estão fazendo planos. Essa é provavelmente a minha maior questão: do que você precisa para tornar isso real? Que medidas você está tomando para alcançar os requisitos ou garantir que terá as especificações corretas no futuro? Essa é uma grande e importante lacuna neste momento.”
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