O Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, vinculado ao Instituto de Computação da Unicamp, colocou em operação uma das mais avançadas infraestruturas de computação voltadas à Inteligência Artificial já instaladas na universidade. O novo cluster foi adquirido com recursos da Shell Brasil, por meio da cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Agência Nacional do Petróleo (ANP), no contexto das atividades do Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO/Unicamp).

Denominado Abaporu — em referência à obra de Tarsila do Amaral e reinterpretado pelo grupo como um “devorador de dados” —, o sistema é composto por 28 unidades gráficas NVIDIA H200 e L40s, reconhecidas como as mais rápidas do mercado para aplicações em IA. O investimento inicial foi de aproximadamente 1 milhão de dólares (5,3 milhões de reais). Instalado no datacenter do Instituto de Computação, o cluster será utilizado principalmente em projetos que integram IA e engenharia de petróleo, com foco na otimização de decisões operacionais em áreas do pré-sal. Quando disponível, também poderá ser empregado em outras iniciativas de pesquisa conduzidas pelo Recod.ai e pelo Instituto de Computação.

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Ana Maria Frattini Fileti, da Unicamp, e Olivier Wambersie, da Shell Brasil. – Record.ai

O Abaporu é atualmente considerado o maior cluster de inteligência artificial da Unicamp e um dos mais avançados voltados à pesquisa universitária no Brasil, segundo a coordenação do Recod.ai, liderada pelo professor Anderson Rocha. Um dos objetivos da área de Pesquisa e Desenvolvimento da Shell é acelerar a adoção de tecnologias de ponta. Iniciativas como essa fortalecem a capacidade de promover a digitalização e de aplicar inteligência artificial a desafios complexos do setor de energia, integrando ciência, dados e inovação, com impactos positivos para os negócios, conforme destaca Olivier Wambersie, diretor-geral de Tecnologia da Shell Brasil.

A cerimônia de lançamento, realizada em 3 de novembro, contou com a participação de Olivier Wambersie, acompanhado por três outros representantes da empresa. Também estiveram presentes o professor Anderson Rocha; a professora Ana Maria Frattini Fileti, pró-reitora de Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Alessandra Davólio Gomes, vice-diretora associada do Centro de Estudos de Petróleo (CEPETRO); e o professor Denis José Schiozer, que lidera o Grupo de Pesquisa em Simulação e Gerenciamento de Reservatórios (UNISIM), vinculado ao CEPETRO.

O Recod.ai e a Shell Brasil mantêm uma parceria de mais de seis anos, com foco na aplicação de inteligência artificial e de aprendizado de máquina para enfrentar os desafios da indústria de energia. Atualmente, essa colaboração avança para um novo ciclo de pesquisa, com duração prevista até 2028, voltado ao desenvolvimento de modelos de linguagem generativa aplicados à simulação e ao gerenciamento de reservatórios de petróleo.

Esses modelos têm como objetivo permitir que profissionais das áreas de engenharia e geociências interajam com sistemas de simulação complexos por meio de linguagem natural. A proposta é transformar comandos técnicos tradicionais em instruções conversacionais, facilitando o uso das ferramentas. Segundo Anderson Rocha, coordenador do Recod.ai, “a meta é criar uma interface que permita ao engenheiro conversar literalmente com o reservatório e, futuramente, com os simuladores de petróleo”. Ele acrescenta que, atualmente, a realização de uma simulação de produção exige domínio de diversos parâmetros e elaboração de scripts extensos. Com o uso de inteligência artificial generativa, essa interação se torna mais acessível e eficiente — um exemplo do conceito de inteligência aumentada, que busca reduzir a distância entre o conhecimento técnico do especialista e o problema a ser resolvido.

Na prática, isso significa que profissionais poderão interagir com o sistema utilizando linguagem natural, com comandos como: “simule os próximos 12 anos de produção do campo X, considerando os poços Y e Z e variação de injeção de água”. A partir dessa solicitação, a tecnologia será capaz de interpretar e converter automaticamente o pedido para os formatos técnicos exigidos, acionando simuladores tradicionais de reservatórios. Caso informações adicionais sejam necessárias, a própria inteligência artificial poderá solicitar esclarecimentos — por exemplo, perguntando “qual regime de injeção deve ser adotado?” —, tornando a interação mais fluida, responsiva e baseada em diálogo.

Além da interface conversacional, os algoritmos em desenvolvimento têm potencial para integrar e processar grandes volumes de dados sísmicos, geológicos e operacionais. Com isso, será possível identificar padrões complexos e anomalias que poderiam passar despercebidos nas análises convencionais. O objetivo é fornecer suporte à tomada de decisão em tempo quase real, contribuindo para a otimização de estratégias de injeção e extração, bem como para a previsão de desempenho de poços — com aplicação direta aos desafios dos campos do pré-sal brasileiro.

A equipe envolvida nos diferentes projetos relacionados ao cluster é composta por pelo menos 35 pessoas, entre pesquisadoras, pesquisadores, pós-doutorandas, pós-doutorandos, doutorandas, doutorandos e profissionais de programação. “Trata-se de um grupo interdisciplinar, que reúne conhecimentos em ciência da computação, geofísica e engenharia de petróleo”, ressalta o professor Anderson Rocha.

No dia 5 de dezembro, a Unicamp realizará uma segunda cerimônia de lançamento do cluster, desta vez com foco no público estudantil. A atividade será organizada em parceria com a NVIDIA e a Supermicro/Scherm — empresas responsáveis pela fabricação dos componentes do sistema — e contará com apresentações técnicas, além de ações interativas com distribuição de brindes temáticos relacionados ao Abaporu.