O Brasil tem por natureza vocação para geração renovável de energia. Diferentemente das energias convencionais, que utilizam derivados de petróleo e outros combustíveis fósseis, hidrelétricas, usinas solares e eólicas causam menor impacto ambiental, principalmente em relação às emissões de dióxido de carbono (maior responsável pelo aquecimento global); e hoje correspondem a mais de 80% da matriz energética brasileira, enquanto a média mundial está abaixo de 30%.

Componente essencial nos sistemas de energia de alta disponibilidade para data centers e salas de gerenciamento de redes, a geração de energia é tópico número um na lista dos gestores de data centers, que buscam cada vez mais soluções de eficiência energética mais ecológicas.

"Não só no Brasil como em todo o mundo, a demanda por sustentabilidade está cada vez maior. Mas o Brasil tem uma característica importante em relação a isso, possui por natureza riquezas naturais que já estão associadas ao tema da sustentabilidade", comenta o diretor de Sistemas de Distribuição de Energia da Siemens, Fábio Koga, destacando que recentemente, a empresa fechou importantes acordos, voltados para a gestão digital de 12 usinas fotovoltaicas, que somam 60 megawatts de geração.

No último mês de novembro, a Siemens adquiriu 49% da Brasol, empresa que é especializada em geração solar distribuída. "Esses acordos realizados pela Siemens devem-se ao potencial que o Brasil tem em relação a isso. Segundo a Aneel, apesar do impacto da Covid-19 este ano, o setor de Geração Distribuída já atingiu três gigawatts de geração em 2020. E a expectativa é que esse crescimento seja multiplicado em cinco ou oito vezes para a próxima década", ressalta.

Para fazer a gestão dessas plantas, a Siemens mantém em Jundiaí (SP) um Centro de Operação Remota, que gerencia toda a operação e manutenção digital das usinas a distância. "A Siemens acredita que o investimento em energia limpa pode ser um grande atrativo para os data centers; mesmo data center não sendo uma coisa que está restrita ao Brasil, pois você pode ter um data center no Brasil servindo empresas e clientes globalmente e vice-versa. Mas seria um grande atrativo termos os data centers baseados no consumo de energia limpa e essa é uma das motivações da Siemens também, investir neste segmento no Brasil", revela o diretor executivo da Siemens, que em entrevista, traz mais detalhes sobre a estratégia da Siemens para soluções de eficiência energética para data centers. Leia, a seguir.

Tatiane Aquim: Quando falamos em data centers mais ecológicos o DCIM pode ser um grande aliado?

Fábio Koga: A Siemens acredita que sim porque ele possui um cockpit com as informações consolidadas fundamentais para a gestão eficiente do data center.

Pensando nisso, a Siemens também tem soluções para contribuir. Por exemplo, o nosso “Power Monitor”, que é uma plataforma que permite o monitoramento online da subestação de energia, obtendo informações em tempo real de todos os assets. Isso possibilita o aprofundamento de análises sobre a performance, status do equipamento, histórico de dados e suporta a tomada de decisão com melhor gerenciamento de riscos e previsibilidade dos ativos. No fim do dia, isso acaba resultando em Eficiência Energética e Redução de Emissões de CO2, por exemplo.

T. A.: Poderia contar um caso de sucesso?

F. K.: Certamente. O mercado brasileiro utiliza hoje entre sete e nove gigawatts geradores a diesel. Isso representa aproximadamente quatro bilhões de litros de diesel para reduzir o consumo de energia em horário de pico. A Siemens adquiriu 49% do controle de uma empresa chamada MPC (Micro Power Comerc), que vem como alternativa nesse tipo de aplicação, substituindo a geração a diesel por uma solução Battery as a Service, conectada em fonte de energia limpa. Essa solução vem sendo implementada, neste momento, em um projeto com a Vale, no Porto de Itaguaí (RJ), e é conhecida como “Peak Shaving”.

Então, imagina que as empresas tenham demandas contratadas com as concessionárias e que vão ficar acima do solicitado. Para evitar esse sobre preço, as empresas tipicamente se conectavam a geradores a diesel. O que a Siemens faz é ao invés de conectar esta empresa a um gerador a diesel, promover uma solução baseada em baterias, conectadas em energia limpa como solar ou eólica evitando o consumo de diesel, o que do ponto de sustentabilidade é muito bom.

Outro tipo de solução que a Siemens tem nesse sentido, é a de subestações unitárias, que é a única do mercado que tem Classificação de Eficiência Energética P. Todos os nossos concorrentes são C ou D. Isso garante 20% a menos de perdas na solução da subestação, ou seja, se eu tenho 20% de perdas a menos, eu tenho menos energia sendo jogada fora. Eu consigo ser energeticamente mais eficiente; aproveitando melhor a energia sou mais sustentável.

T. A.: Gestores de TI com visão de longo prazo já notaram o retorno de investimento associado a se adquirir equipamentos mais eficientes em consumo?

F. K.: A Siemens acredita que sim. A gestão efetiva de um data center demanda tentar todas as disciplinas do empreendimento, ou seja, exigências de aplicação de missão crítica, requisitadas para os racks e servidores de TI se tornaram as mesmas para todos os equipamentos, principalmente por aqueles que são responsáveis por garantir a disponibilidade de energia, que é o principal insumo do data center.

Entretanto, garantir disponibilidade para missão crítica hoje em dia já nem é mais um diferencial, é condição básica. Os gestores estão interessados mesmo, em como a gente consegue reduzir custo de Capex e Opex. Nesse contexto, um exemplo de aplicação nossa, é em um data center em São Paulo onde a Siemens realizou o fornecimento integrado da subestação de baixa e média tensão, de acordo com a certificação de Eficiência Energética Peak Shaving.

T. A.: Data centers mais verdes não só economizam energia, mas também reduzem a necessidade de expansões na infraestrutura. É isso mesmo?

F. K.: Se pararmos para pensar os data centers mais verdes são fundamentalmente caracterizados pela redução no consumo de energia e pela redução no impacto no meio ambiente, trazendo uma maior eficiência energética. Tudo isso deve ser atendido desde a fase de planejamento do projeto, do empreendimento que precisa se atentar não só ao tipo de tecnologia, mas também a organização, disposição de forma a otimizar o espaço físico necessário.

Nesse cenário, o consumo de energia se torna protagonista, setores como iluminação, distribuição, climatização devem ser projetados para operar com baixo consumo e de maneira a extrair o máximo potencial de cada aplicação. A gente sabe que lidar com todas essas disciplinas não é uma tarefa tão fácil.

Então, pensando nisso a Siemens disponibiliza uma gama de especialistas em distribuição de energia em conjunto com o nosso centro de competência em data center global. Isso visa auxiliar e suportar, durante todo o ciclo do empreendimento, começando lá na etapa de designer do projeto, contribuindo com o know-how dos nossos especialistas em infraestrutura elétrica para aplicações de missão crítica, mantendo o foco no desempenho da TI e no data center como um todo.

T. A.: Qual deve ser a estratégia para os pontos quentes do data center?

F. K.: Usualmente no data center, a concentração nos pontos quentes está ali no piso branco, onde estão os servidores de TI e os equipamentos auxiliares. Mas quando a gente pensa em ponto quente é necessário fazer uma abordagem mais holística da solução integrada, que engloba não só os equipamentos de TI, mas o site como um todo.

Para isso, é necessário ter em mente que fatores como filosofia do sistema elétrico, conceito de redundância e soluções de engenharia se tornam cada vez mais importantes para atingir o maior grau de nível de performance e desempenho do data center.

T. A.: Na Europa a Siemens conta com um Eagle Data Center, no Brasil a empresa conta com data centers?

F. K.: Não. No Brasil a Siemens possui contratos. Atualmente, nosso contrato é com a Atos para prestação de serviços de hosting.

T. A.: Qual é a importância do mercado brasileiro para os negócios da Siemens na região?

F. K.: No Brasil a Siemens iniciou suas atividades em 1967. Foi responsável pela instalação da primeira linha telegráfica entre Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Atualmente a empresa possui seis fábricas e centros de Pesquisa & Desenvolvimento distribuídos em território nacional.

Sendo uma das maiores economias do mundo, o Brasil sempre vai ser um mercado estratégico para a Siemens e para as empresas globais. Seja em relação ao desenvolvimento de novos produtos ou no lançamento de soluções inovadoras, que vão gerar benefícios para os clientes e parceiros.

Hoje todos os painéis de distribuição de média e baixa tensão pra servir todo mercado LATAM são feitos no Brasil, isso mostra que país tem uma maior relevância para a Siemens.

Na América Latina a Siemens está estruturada da seguinte forma: o Brasil como um “cluster”, um foco de negócios e o outro a gente chama de Austral Andina, que pega a Argentina e todos os outros países de língua hispânica.