O governo do Rio Grande do Sul firmou um protocolo de intenções para viabilizar o licenciamento ambiental simplificado do que deve ser o maior data center da América do Sul, previsto para Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, informa o site Ambiental Media. O documento, assinado em setembro de 2024 pelo governador Eduardo Leite, secretários estaduais e a Scala Data Centers, prevê que a Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura agilize licenças e outorgas, desde que a empresa apresente a documentação dentro dos padrões técnicos exigidos.

O governo também se compromete a apoiar a Scala na obtenção de autorização do Ministério de Minas e Energia (MME) para conexão do empreendimento à rede elétrica nacional. O modelo de data center voltado ao treinamento de sistemas de inteligência artificial demanda alto consumo de energia. Segundo o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC), a operação plena da estrutura exigirá 5 GW a partir de 2035. Por enquanto, o MME autorizou acesso limitado a 1,8 GW — volume equivalente ao consumo de uma cidade de cerca de 6 milhões de habitantes, como o Rio de Janeiro.

O consumo de energia previsto para o data center da Scala, em Eldorado do Sul, supera em 40% a demanda média residencial atual do Rio Grande do Sul. O Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) alerta que destinar 1,8 GW ou mais ao empreendimento pode gerar restrições à rede de transmissão e repassar aos consumidores os custos de reforço da infraestrutura. Moradores da cidade relatam quedas frequentes de energia. Pelo licenciamento simplificado adotado, a empresa não é obrigada a apresentar Estudo de Impacto Ambiental e realizar audiências públicas.

Além do elevado consumo energético, data centers têm sido associados a conflitos por água e a violações de direitos humanos em diferentes regiões do país. Pesquisadores ouvidos pelo Jornal da Unesp afirmam que o Índice de Eficiência Hídrica (WUE), usado pelo ReData e pelo setor para medir a pegada hídrica, é insuficiente para avaliar riscos, pois não considera especificidades locais.

Para especialistas, a política brasileira para data centers, tratada principalmente como pauta de inovação tecnológica, precisa incorporar dimensões ambientais, hídricas e de direitos humanos. Cecília Oliveira, do ClimaInfo, disse ao O Globo que a versão atual do ReData carece de transparência sobre consumo de água e energia e não avalia impactos cumulativos nessas áreas.