No dia 3 de novembro, a Prefeitura do Rio de Janeiro e a X, The Moonshot Factory, anunciaram uma parceria com a Taara, empresa especializada em soluções de banda larga. O projeto prevê a implementação da primeira rede global em malha de links ópticos sem fio de alta velocidade. O envio dos links para o Rio e o início da instalação estavam previstos para o início de 2026, após uma fase de planejamento e identificação de locais.

A iniciativa tem como objetivo ampliar o acesso à internet na cidade, oferecendo conectividade rápida e segura a escolas, hospitais e prédios públicos. A proposta busca reduzir desigualdades digitais e garantir serviços essenciais — como educação, saúde, administração pública e resposta a emergências — com maior eficiência e acessibilidade.

Para entender mais sobre o projeto e a empresa, a DCD conversou com Mahesh Krishnaswamy, CEO e fundador da Taara e ex-líder de projetos de conectividade no Google X. A história da Taara começa em 2017, no Google X, laboratório de projetos futuristas da gigante americana. Mahesh participou do Project Loon, que usava balões para levar internet a regiões remotas. Apesar do potencial, o projeto enfrentava desafios logísticos e regulatórios.

Foi então que surgiu a ideia: trazer a tecnologia de transmissão óptica para o solo, criando uma alternativa simples e eficiente à fibra. Em março de 2025, a Taara se tornou uma empresa independente e hoje já está presente em mais de 20 países, conectando milhares de pessoas diariamente.

Mahesh Krishnaswamy
Mahesh Krishnaswamy, CEO e fundador da Taara – Taara

O sistema desenvolvido pela Taara utiliza espelhos, componentes ópticos e fotônicos, além de softwares avançados, para transmitir dados por meio de feixes de luz invisíveis e seguros, em um processo conhecido como comunicação óptica sem fio (Free Space Optics). De acordo com Mahesh, a tecnologia pode ser comparada a um laser que envia informações e a uma câmera digital que as recebe e converte em dados. A transmissão ocorre em linha reta e na velocidade da luz, o que permite reduzir a latência em até um terço em relação às conexões tradicionais de fibra óptica. Além disso, a instalação é considerada ágil, podendo ser concluída em poucas horas, o que viabiliza a rápida conexão de escolas, hospitais e comunidades inteiras. Na prática, o sistema funciona como uma fibra entre dois pontos, mas sem a necessidade de cabos físicos, utilizando espelhos, óptica, fotônica, eletrônica e software para transferir dados pelo ar de forma eficiente e segura.

O Rio foi escolhido por representar um desafio geográfico único, com morros, comunidades e infraestrutura de fibra sujeita a cortes e problemas climáticos.

A parceria com a prefeitura, que busca transformar a cidade em referência em inteligência artificial e conectividade, foi decisiva. O projeto prevê a criação de uma rede em malha, em que múltiplos pontos de transmissão se interligam, garantindo redundância e estabilidade.

Para Mahesh, a proposta da empresa é demonstrar a versatilidade e a robustez de sua tecnologia em cenários desafiadores, destacando que o Rio de Janeiro reúne características que podem transformá-lo em um modelo de referência mundial, especialmente pela abertura da administração municipal e pela disposição da população em colaborar para o sucesso da iniciativa.

A escolha da cidade foi fortalecida pela parceria com a prefeitura, que tem como meta posicionar o município como protagonista em iniciativas de inteligência artificial e conectividade. O projeto prevê a implantação de uma rede em malha óptica sem fio, na qual diversos pontos de transmissão estarão interligados, criando um sistema capaz de oferecer maior redundância e estabilidade. Essa configuração permitirá melhorar a qualidade da conexão e reduzir falhas, garantindo que serviços essenciais, como educação, saúde e administração pública, possam contar com uma infraestrutura digital mais eficiente e segura.

A paisagem do Rio de Janeiro, marcada por colinas e comunidades localizadas em áreas de morro, apresenta desafios significativos para a infraestrutura tradicional de telecomunicações, que a Taara pretende complementar com sua tecnologia óptica sem fio. A topografia complexa dificulta a instalação de cabos de fibra, que precisam atravessar, subir e descer montanhas, enquanto fatores climáticos, como chuvas intensas e inundações, agravam os problemas de manutenção e continuidade do serviço. A escolha da cidade também foi motivada pela necessidade de melhorar a qualidade da internet. Mahesh Krishnaswamy explica que muitas áreas apresentam velocidades insatisfatórias e uma infraestrutura de fibra vulnerável a cortes frequentes, resultando em baixa qualidade para os usuários finais. Além disso, questões de segurança e furto representam obstáculos adicionais, especialmente em comunidades onde a instalação e manutenção dos equipamentos podem ser mais delicadas.

A empresa destaca que seus dispositivos não têm valor de revenda, diferentemente do cobre presente na fibra tradicional, e têm aparência semelhante à de câmeras, o que reduz o risco de roubo. Para garantir o sucesso da operação, a Taara reconhece a importância de superar barreiras linguísticas e culturais e planeja contratar profissionais no Brasil que atuem como representantes locais, bilíngues e familiarizados com as especificidades da cidade. A companhia enxerga esses desafios como uma oportunidade de criar um modelo replicável em outras metrópoles congestionadas e em rápida urbanização, transformando a complexa realidade carioca em uma vitrine da robustez de sua solução.

Um dos principais diferenciais da tecnologia desenvolvida pela Taara está na segurança. Os feixes de luz utilizados para a transmissão de dados são extremamente difíceis de interceptar, o que garante maior proteção às informações trafegadas. Mahesh Krishnaswamy compara o processo a “apontar um laser do tamanho de um palito para um grão de arroz a quilômetros de distância”, destacando a precisão e a baixa probabilidade de interferência externa. Além disso, a companhia não armazena os dados transmitidos, limitando-se apenas a coletar informações sobre o desempenho dos links, que podem ser mantidas localmente pelas autoridades responsáveis. Mahesh também ressaltou que o futuro da inteligência artificial depende diretamente de conexões mais rápidas, com menor latência e maior abundância de dados, fatores que tornam a tecnologia da Taara estratégica para atender às crescentes demandas digitais.

Diferente da radiofrequência, que se espalha em diversas direções, o sistema da Taara opera com um feixe muito concentrado, exigindo que qualquer tentativa de interferência ocorra exatamente na trajetória da luz — característica que explica sua adoção por forças armadas como meio de comunicação seguro, já que não deixa assinatura perceptível. Além disso, a solução garante privacidade de dados, funcionando como uma linha de fibra física: o conteúdo é inserido em um ponto e transmitido integralmente para o outro, sem que a empresa visualize, monitore ou registre o fluxo de informações. Por essas razões, a tecnologia é considerada um complemento estratégico à infraestrutura de dados existente, contribuindo para ampliar a velocidade, a acessibilidade e a qualidade da conexão, sobretudo em regiões de difícil alcance ou em áreas onde há congestionamento de rede.

Um dos diferenciais da tecnologia desenvolvida pela Taara está no consumo de energia. Enquanto rádios tradicionais utilizam centenas de watts para transmitir apenas alguns gigabits de dados, o sistema da empresa já é capaz de alcançar velocidades de até 40 Gbps consumindo menos energia do que uma lâmpada comum. Esse desempenho evidencia um caminho sustentável para a expansão da internet em escala global, conciliando alta capacidade de transmissão com baixo impacto energético. Após o anúncio da parceria no Rio de Janeiro, a companhia recebeu manifestações de interesse de governos e organizações internacionais que avaliam a adoção da mesma solução em seus territórios. Para Mahesh, o projeto tem potencial de se tornar um modelo replicável em outras cidades.

A chegada da Taara ao Rio de Janeiro representa um marco significativo na evolução da conectividade urbana. A empresa aposta em uma tecnologia capaz de unir simplicidade de instalação, alta velocidade de transmissão, segurança avançada e baixo consumo energético. O projeto tem como objetivo posicionar a capital fluminense como referência internacional em inovação digital, ao mesmo tempo em que abre caminho para um futuro em que o acesso à internet de qualidade seja ampliado e democratizado. A iniciativa busca atender tanto às demandas de serviços essenciais — como educação, saúde e administração pública — quanto às necessidades da população em geral, oferecendo uma infraestrutura robusta e sustentável que pode servir de modelo para outras cidades ao redor do mundo.