Há quase 30 anos se celebra mundialmente o Dia da Eficiência Energética, uma data criada para nos fazer refletir sobre a importância de explorar fontes de energia renováveis ao mesmo tempo que nos incita a meditar sobre o consumo abusivo de combustíveis fósseis.

Muitos são os setores que vão somando-se e formando alianças para diminuir o impacto ambiental de seus negócios, e com os data centers não é diferente. Já são muitos os datas centers que buscam ser mais eficientes energeticamente, senão 100% verdes.

As regulamentações governamentais abrem passo a um controle mais restrito, estabelecendo obrigações aos data centers em diferentes regiões do mundo, entretanto a importância da eficiência energética nos data centers não está marcada somente pelo impacto ambiental, senão que também está conectada aos seus custos operativos.

No marco do dia da Eficiência Energética, entrevistamos Marcela Martins, diretora de Gestão Energética da Ascenty para abordar como os data centers podem ser mais sustentáveis integrando fontes de energia renováveis a necessidade de regulações, uso de energia nuclear e inteligência artificial. Uma conversa que reflexiona sobre a necessidade de evoluir a modelos energéticos mais sustentáveis e a importância de continuar promovendo a colaboração público-privada para superar os obstáculos e acelerar a transição em direção a uma matriz energética mais limpa e sustentável.

A partir da sua experiência, qual é a estratégia que os data centers deveriam adotar para integrar fontes de energia renovável como a solar, eólica e hidroelétrica? E quais são os principais desafios na transição energética rumo ao uso de energia renovável nos data centers?

A transição dos data centers para fontes de energia renovável exige uma abordagem estratégica e integrada. A combinação de diferentes fontes, como hidroelétrica, solar e eólica, permite equilibrar a oferta de energia com a demanda operacional, garantindo maior estabilidade.

O Brasil possui uma matriz energética favorável, com 53,88% de geração hídrica, 15,22% eólica e 7,2% solar, o que reforça a viabilidade do uso de energias renováveis nos data centers. Na Ascenty, por exemplo, toda a energia consumida é proveniente de fontes renováveis e certificadas, reforçando nosso compromisso com a sustentabilidade.

O principal desafio é a alta demanda energética. A partir do momento em que os data centers passam a operar com grandes densidades, como, por exemplo, com a Inteligência Artificial, já não é tão simples a facilitação frente à distribuidora de energia.

Há 10 ou 12 anos, um data center operava com cerca de 5 MW. Hoje, algumas instalações demandam 70 MW, o equivalente ao consumo de uma cidade de 100 mil habitantes — porém, com um único ponto de conexão. Já os data centers voltados para IA podem chegar a 150 MW, comparáveis ao consumo de 200 mil habitantes. Esse crescimento acelerado reflete a adoção exponencial da IA pelas empresas, tornando essencial a expansão da infraestrutura para suportar essa demanda.

Essa é a maior dificuldade do setor hoje, afinal, o processo regulatório para atender uma demanda deste calibre, de uma infraestrutura tão robusta, pode demorar muitos anos, especialmente dando prioridade à energia renovável, como deve ser. A energia nuclear é o futuro dos data centers em termos de eficiência energética e sustentabilidade?

Diferente de fontes como a solar e a eólica, que são intermitentes, a energia nuclear possui estabilidade e baixo impacto de carbono, podendo ser, em alguns cenários, utilizada por estes motivos.

No Brasil, a disponibilidade hídrica favorece essa tecnologia, mas desafios como segurança, gestão de resíduos e altos custos de implantação ainda dificultam sua adoção em larga escala. No futuro, avanços na fusão nuclear podem tornar essa alternativa mais viável e acessível para garantir eficiência energética contínua.

Qual é o papel da Inteligência Artificial na redução da pegada de carbono e como contribui na redução do consumo de energia nos data centers? E quais os avanços e inovações tecnológicos recentes que você considera relevantes para melhorar a sustentabilidade na indústria de data centers?

À medida que a Inteligência Artificial passa a ser utilizada em soluções para gestão e automação, ela pode passar a se apoiar neste fator. Segundo a McKinsey, a IA pode melhorar a eficiência em 40% e reduzir o consumo em até 15%, ajustando dinamicamente a demanda energética de acordo com as cargas de trabalho, por exemplo. Além disso, tecnologias como sistemas de resfriamento inteligente e chips otimizados para IA são inovações que impulsionam a sustentabilidade, pois reduzem o consumo de energia e aumentam a eficiência dos data centers.

Quais os benefícios econômicos e operacionais que os data centers podem obter a longo prazo com o uso de energia renovável em comparação com fontes tradicionais de energia?

O uso de energia renovável permite uma redução de até 30% nos custos operacionais, diminuindo a dependência de combustíveis fósseis e aumentando a previsibilidade dos gastos. Além disso, a resiliência energética é aprimorada, especialmente quando integrada a sistemas de armazenamento. Na Ascenty, contamos com um sistema de monitoramento avançado (BMS) para otimizar o desempenho operacional, garantindo eficiência e sustentabilidade. São gerenciadas, por exemplo, as condições elétricas, de ar-condicionado e sistemas de detecção e combate ao incêndio. O PUE (Power Usage Effectiveness) é medido instantaneamente, permitindo a gestão eficiente e sustentável.

Como o consumo energético de um data center pode ser otimizado para maximizar o aproveitamento de energia renovável?

A eficiência começa na infraestrutura. Tecnologias como resfriamento adiabático, ventilação natural e servidores otimizados são fundamentais. A Ascenty investe em soluções de refrigeração, reduzindo significativamente o consumo de energia. Nossa infraestrutura elétrica inclui subestações próprias e um sistema Tri-bus, garantindo estabilidade mesmo em picos de demanda.

Quais são as mudanças esperadas a curto e longo prazo em energia renovável nos data centers? Estamos perto de um futuro de data centers verdes?

No curto prazo, espera-se um aumento na adoção de fontes renováveis, impulsionado por infraestrutura já existente e demandas regulatórias. A longo prazo, a tendência é a autossuficiência energética, com armazenamento em larga escala e integração de múltiplas fontes.

A Ascenty já está alinhada com esse futuro, sendo reconhecida pelo Selo Ouro do Programa GHG Protocol e como a única empresa latino-americana de data centers signatária do Pacto Global da ONU.

Qual a situação do Brasil a respeito ado uso da energia renovável? O Brasil avança no mesmo ritmo dos demais países ou há muitos desafios que enfrentar na corrida pela transição energética?

O país lidera em energia renovável, com investimentos crescentes em fontes solares e eólicas. Segundo o Global Energy Monitor, a capacidade delas deve crescer 460% até 2030.

Além disso, o país possui um ambiente favorável em termos de segurança estrutural, uma vez que não enfrenta desastres naturais como terremotos ou tsunamis. Isso contribui para a estabilidade das redes de abastecimento. As empresas brasileiras podem oferecer energia aos clientes por meio de Purchased Power Agreements (PPAs), ou contratos de compra e venda de energia de longo prazo, beneficiando-se de uma rede elétrica totalmente interligada.

Por fim, há crédito de carbono em abundância, afinal, com uma emissão média de apenas 20 g CO2 eq/kWh, a matriz brasileira se destaca como uma das menos poluentes do mundo, tornando-se um diferencial para empresas comprometidas com metas ambientais.

Para que o país se destaque ainda mais no atendimento a essas demandas urgentes e necessárias, é fundamental que os órgãos regulatórios, em colaboração com grandes empresas de data centers e fornecedores de energia, atuem em conjunto.

Quais tendências regulatórias e de mercado estão impulsionando a transição para data centers mais sustentáveis?

A regulamentação ambiental está cada vez mais rigorosa, incentivando a adoção de práticas sustentáveis. Políticas de neutralidade de carbono, incentivos fiscais e certificações ambientais, como a ISO 14001, são fatores que impulsionam essa mudança.

Na Ascenty, além de sermos certificados com o ISO 14001, somos uma empresa carbono neutro, compensando 100% das emissões de CO2 e por meio da compra de iREC e projetos de créditos de carbono.

Nesse caminho em direção à transição energética, qual análise você faria das colaborações ou iniciativas governamentais para acelerar a adoção destas fontes nos data centers?

Governos ao redor do mundo estão implementando incentivos fiscais e políticas públicas para fomentar o uso de energias renováveis nos data centers. No Brasil, a ampliação de metas climáticas pode acelerar esse processo, estimulando a construção de infraestruturas mais eficientes e sustentáveis a médio e longo prazo.

A parceria entre setor público e privado, aliada a investimentos em tecnologia e inovação, é essencial para impulsionar a transição energética e garantir um futuro mais sustentável para os data centers.