A expansão acelerada dos data centers voltados para aplicações de Inteligência Artificial tem elevado a demanda por eletricidade e tornado seu comportamento mais difícil de prever, o que pressiona o planejamento dos sistemas de energia. Segundo o relatório "IA encontra a rede elétrica: moldando o cenário energético dos data centers", do Instituto de Pesquisa da Capgemini, a maioria dos executivos do setor elétrico espera picos de consumo mais intensos e irregulares, enquanto mais de três quartos relatam dificuldade crescente em projetar as necessidades futuras.

O estudo, baseado em entrevistas com mais de 600 executivos de empresas com receita superior a 500 milhões de dólares (2,5 bilhões de reais), aponta que a incerteza é hoje o principal desafio. Cerca de 67% mencionam solicitações de carga “fantasmas” feitas por data centers (pedidos que não se concretizam), e aproximadamente 19% dessas solicitações nunca se tornam demanda real. Esse descompasso distorce previsões e aumenta o risco de investimentos inadequados.

A imprevisibilidade afeta tanto as concessionárias quanto os operadores de grandes data centers. As empresas de energia precisam decidir quanto investir em capacidade e onde modernizar a rede sem criar ativos ociosos. Já os hiperescaladores enfrentam decisões de infraestrutura em um cenário de incerteza quanto à demanda, à disponibilidade da rede e aos prazos de conexão.

Mais de três quartos das empresas do setor elétrico (77%) afirmam enfrentar dificuldades crescentes para estimar a demanda futura, à medida que os padrões de consumo associados à IA se tornam mais instáveis e complexos de modelar. A expectativa é de que a variabilidade da demanda se torne um desafio central para o planejamento e a operação das redes.

O relatório também aponta que 68% dos executivos preveem escassez de energia, impulsionada pelo crescimento dos data centers em ritmo superior à expansão da oferta. A concentração geográfica dessas instalações agrava o problema: mais da metade dos entrevistados considera a concentração de carga um obstáculo relevante à confiabilidade do serviço, já que clusters de alta densidade criam gargalos locais e dificultam o planejamento de investimentos.

Segundo Claire Gauthier, diretora global de Energia e Utilities da Capgemini, a IA expõe as limitações estruturais da rede e torna a demanda mais dinâmica e difícil de prever, o que aumenta a complexidade do fornecimento confiável de energia.

O estudo indica ainda que o consumo elétrico associado ao treinamento e à inferência de IA deve crescer de 25% para 60% da demanda total dos data centers nos próximos três a cinco anos. Paralelamente, cerca de 60% dos executivos esperam que ferramentas avançadas de IA melhorem em mais de 10% indicadores como a redução de falhas, a produtividade operacional e a resposta a interrupções.

Menos da metade dos executivos do setor elétrico (45%) afirma utilizar IA para otimizar a rede, e apenas 16% das organizações adotam soluções avançadas baseadas em IA para gerenciar fluxo de energia, aumentar a resiliência e melhorar o desempenho em tempo real. O relatório aponta que os prazos de construção de infraestrutura também se tornaram um fator crítico, reforçando a necessidade de acelerar a modernização das redes por meio de IA e de tecnologias climáticas.

Com as limitações da rede e os atrasos nas conexões, data centers têm migrado de sistemas apenas de backup para soluções primárias de geração no local (behind-the-meter). Cerca de 30% já adotaram essas alternativas e 39% planejam fazê-lo nos próximos dois anos. Mais de 70% esperam reduzir significativamente a dependência da rede em cinco anos. Para 86% dos executivos, operar de forma independente da rede representa uma vantagem competitiva, alterando a relação tradicional entre concessionárias e grandes consumidores.

O estudo também destaca a importância de uma matriz energética diversificada. Executivos do setor elétrico (78%) e de data centers (73%) afirmam que fontes renováveis, isoladamente, ainda não conseguem garantir o fornecimento contínuo em larga escala para cargas de IA. Ambos relatam investimentos em sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS) para complementar a oferta. Soluções de longo prazo, como pequenos reatores nucleares modulares, ainda exigem tempo para implantação. Assim, 68% dos entrevistados veem o gás natural como alternativa de transição até que as renováveis e o armazenamento avancem, apesar do conflito com as metas de descarbonização.

Segundo Claire Gauthier, da Capgemini, o desafio atual consiste em expandir a capacidade em um cenário de incerteza e de crescente complexidade. O equilíbrio entre o investimento em infraestrutura, a disponibilidade de energia e as operações apoiadas por IA será determinante para lidar com a escala e a volatilidade da demanda, mantendo a confiabilidade, o custo e a sustentabilidade.

Metodologia do relatório

O Instituto de Pesquisa da Capgemini entrevistou 612 executivos seniores do setor elétrico (nível de diretoria ou superior) de organizações com receita anual superior a 500 milhões de dólares que atuam ativamente no setor de data centers. A Capgemini também entrevistou 175 executivos sêniores de organizações proprietárias e operadoras de data centers com receita superior a 250 milhões de dólares (1,2 bilhão de reais). Os respondentes representavam 21 países da América do Norte, Europa, Ásia-Pacífico e América Latina. A pesquisa global foi realizada em janeiro de 2026.