Um prédio de 1940, tombado no campus da Universidade de São Paulo, ganhou, na quarta-feira, 27 de junho, uma nova função: abrigar o segundo Centro de Engenharia do Google no Brasil e o primeiro Google Safety Engineering Center (GSEC) da América Latina. A inauguração do complexo, instalado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na Cidade Universitária, marcou a entrada de São Paulo em uma rede global de polos dedicados à cibersegurança que até então existia apenas em Munique, Málaga e Dublin. Com capacidade para até 400 engenheiros, o espaço começa a operar efetivamente em julho de 2026.
O acordo entre o Google, o IPT e o Governo do Estado de São Paulo foi firmado em fevereiro de 2024, no âmbito do programa IPT Open, uma iniciativa criada para aproximar a pesquisa pública da iniciativa privada. O Google assumiu a responsabilidade pela reforma e revitalização do Edifício Adriano Marchini, construído originalmente na década de 1940, preservando sua estrutura histórica. O imóvel, no entanto, continua sendo propriedade do instituto.
Além da restauração do próprio prédio, a empresa também entregou melhorias em outras áreas do complexo do IPT, incluindo a biblioteca, o espaço maker e o acervo técnico. Como contrapartida, o Google assume a manutenção e conservação do edifício durante o período de uso.
O complexo inaugurado em São Paulo vai muito além de um escritório convencional. Ele reúne quatro estruturas distintas, cada uma com missão específica:
Google Safety Engineering Center (GSEC): a primeira unidade da América Latina, voltada ao desenvolvimento de tecnologias de segurança digital, privacidade e inteligência artificial. As equipes brasileiras atuarão em projetos de alcance global, trabalhando na proteção de plataformas como Gmail, Search, Maps e YouTube. Entre as soluções em desenvolvimento está o bloqueio automático de celulares roubados, tecnologia criada a partir da demanda brasileira e já adotada em outros países.
Centro de Engenharia: operará de forma integrada com a unidade de Belo Horizonte, inaugurada há cerca de 20 anos e considerada o primeiro centro de engenharia do Google na América Latina. A nova unidade será multidisciplinar, reunindo profissionais de inteligência artificial, engenharia de software, gestão de produtos, UX, design, cibersegurança e dados.
Accessibility Discovery Center (ADC): laboratório inédito na região, dedicado ao desenvolvimento de tecnologias assistivas em parceria direta com pessoas com deficiência. O foco está em testar, criar e disseminar recursos de acessibilidade com impacto real para usuários de todo o mundo.
Google Campus: o tradicional programa de aceleração de startups ganha uma nova fase no complexo, agora com foco exclusivo em empresas AI-First, com a inteligência artificial como elemento central do modelo de negócios. O espaço terá capacidade para receber até 120 pessoas por semana.
A inauguração ocorre em um momento crítico para a segurança digital no Brasil. Segundo dados da ONG SaferNet Brasil, os crimes cibernéticos cresceram em quase 30% em 2025. Levantamento do Datafolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que o prejuízo com golpes digitais e roubos de celulares no país chegou a 71 bilhões de reais no último ano.
Para Eduardo Tejada, vice-presidente global de privacidade e segurança do Google, o Brasil reúne condições únicas para esse tipo de investimento. “O lançamento deste novo centro de engenharia ocorre em um momento em que a cibersegurança se tornou um desafio crítico em escala global. A inteligência artificial está se tornando nossa principal aliada para combater ameaças, permitindo identificar e processar sinais a uma velocidade e escala que não seriam possíveis manualmente”, afirmou durante a cerimônia de inauguração.
O presidente do Google no Brasil, Fábio Coelho, destacou que o país possui mão de obra altamente qualificada, mas ainda carece de espaços capazes de desenvolver plenamente esse potencial. Segundo ele, projetos desenvolvidos em São Paulo poderão alcançar o alcance internacional.
Um dos momentos simbólicos da inauguração foi o batismo de uma praça interna do complexo com o nome de Luiz André Barroso, engenheiro brasileiro considerado um dos principais nomes da computação em nuvem no Google. Barroso morreu em 2023 e teve papel fundamental na expansão da engenharia da empresa no Brasil e no mundo, sendo amplamente reconhecido como um dos arquitetos da infraestrutura de data centers que sustenta os serviços globais do Google.
A cerimônia contou com a presença do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e do secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, que já foi reitor da USP. Nunes aproveitou o evento para criticar empresas que têm migrado para países como o Paraguai em busca de incentivos fiscais e para celebrar o investimento do Google como um sinal positivo para a capital paulista.
O movimento do Google ocorre em um cenário de acirrada disputa global por talentos em inteligência artificial. Grandes empresas de tecnologia vêm investindo pesado em centros de pesquisa e inovação para não ficarem para trás na corrida tecnológica. Com o novo polo em São Paulo, o Google aposta que o Brasil pode se tornar um ator mais relevante nesse ecossistema, tanto na produção de tecnologia quanto na formação e na retenção de especialistas.
O novo centro trabalhará de forma colaborativa com universidades, startups e pesquisadores independentes, seguindo o modelo já adotado pelos demais GSECs ao redor do mundo. A expectativa da empresa é que as soluções desenvolvidas em São Paulo não apenas respondam às demandas locais, mas também alimentem a infraestrutura de segurança digital de bilhões de usuários em todo o mundo.
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