O crescimento acelerado dos data centers de treinamento de inteligência artificial tem elevado a demanda por eletricidade a patamares inéditos, o que reacende, no Brasil, o debate sobre a diversificação da matriz energética. O país já se consolidou como destino atrativo para investimentos no setor, beneficiado por prazos de fornecimento competitivos e pela alta participação de fontes renováveis, cerca de 90% da eletricidade nacional, patamar comparável ao de países como Noruega e Uruguai. O desafio agora é conciliar essa expansão com os compromissos de sustentabilidade do país.
Maurício Salles, membro do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), afirma que alguns dos maiores data centers de treinamento de IA em discussão atualmente podem demandar múltiplos gigawatts de potência e compara um data center de 1 GW à capacidade de geração de uma grande usina nuclear convencional.
Nesse cenário, a energia nuclear é apontada como alternativa complementar às fontes renováveis. Apesar de depender de recursos finitos como urânio e tório, ela não está sujeita a variações climáticas e não emite gases poluentes durante a operação. Segundo Salles, ao contrário das fontes renováveis variáveis, as usinas nucleares conseguem fornecer energia firme e ininterrupta, o que ajudaria a compensar a intermitência da geração eólica e solar.
Hoje, porém, a presença nuclear no país ainda é modesta: apenas dois reatores em operação e um em construção, ambos no Rio de Janeiro, segundo o World Nuclear Industry Status Report 2025, cenário distante do observado em potências como os Estados Unidos, China e França.
Entre as inovações consideradas mais promissoras para acompanhar a expansão dos data centers estão os Reatores Modulares de Pequeno Porte (SMRs), com potência entre 20 MWe e 300 MWe e módulos pré-fabricados que facilitam a instalação. Salles destaca que alguns SMRs contam com sistemas passivos de resfriamento e menor dependência de grandes volumes de água, características desenvolvidas a partir das lições aprendidas com o acidente de Fukushima.
A expansão nuclear no Brasil, no entanto, enfrenta obstáculos relevantes: os altos investimentos exigidos pela construção de usinas, a fase ainda inicial de adoção comercial dos SMRs no mundo e a lentidão no licenciamento ambiental, o que gera incertezas para investidores. Para Salles, o desafio ultrapassa a engenharia e envolve também prioridades políticas, estruturas de mercado, incentivos regulatórios e o equilíbrio de interesses entre diferentes setores da sociedade. O avanço da energia nuclear no país dependerá, assim, do alinhamento entre tecnologia, financiamento, regulação e aceitação social.
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