“Quando a Rússia decidiu invadir, os ucranianos não imaginavam a situação, nem as grandes empresas tinham um plano B”, lembra Dmytro Iolkin.
Como chefe de tecnologia do fornecedor ucraniano Wise Infotec, Iolkin teve que se certificar que a sua empresa continuasse com os serviços críticos durante a guerra.
Não se tratava apenas de manter os clientes online. Era preciso garantir as aplicações vitais, como uma aplicação de controle de segurança, cargas de trabalho governamentais e hospitais. Todas funcionavam em um Data Center em Kiev, que naquele momento muitos pensavam que cairia rapidamente. “Não tínhamos para onde ir”, disse Iolkin.
Para conseguir a rápida migração de dados em uma área de conflito, o chefe de tecnologia se amparou em uma rede de técnicos informáticos e trabalhadores de Data Centers de todo o mundo para manter a Wise online.
Entre as pessoas envolvidas nesse trabalho, estava Zac Smith, da Equinix Metal, o serviço de bare metal do gigante do colocation. "Conhecia Smith da época que era diretor geral da Packet, que a Equinix comprou em 2020 para formar Metal”, explica Iolkin.
Até então, o gestor só tinha conversado com Smith para um pequeno projeto que não foi adiante, mas aquela parecia ser a melhor oportunidade para encontrar ajuda em uma crise.
“Sabia que ele não se dedicava ao colocation, embora fosse o único contato que eu tinha. Então perguntei para ele. O nosso primeiro pensamento foi mover fisicamente todo o nosso hardware”, destaca Iolkin, apesar da dificuldade que implica deslocar um grande número de servidores durante a guerra, e o fato dos homens em idade militar estarem proibidos de sair da Ucrânia.
Esse artigo apareceu na última edição da revista DCD, em inglês Leia aqui.
“Quando tudo começou era difícil refletir bem sobre o que estava acontecendo, a gente fazia o que era possível. A preocupação era como chegar ao dia seguinte, não em como as coisas seriam feitas realmente. Não tínhamos um plano”, admitiu o chefe de tecnologia.
Zac Smith teve uma ideia melhor: “Ele me perguntou: Por que não usamos o serviço da Metal de maneira gratuita?”.
"Wise hospeda infraestruturas críticas. Queríamos ajudar", disse Smith a DCD. A empresa tinha decidido oferecer serviços gratuitos aos clientes ucranianos que havia e que lutavam para continuar diante do ataque russo, mas agora via que outras empresas novas pediam ajuda.
A empresa adotou uma abordagem ad hoc, caso por caso, para as novas solicitações. Algumas receberam apoio completo de forma gratuita, outras ganharam bons descontos. “É muito parecido ao que faríamos com qualquer novo cliente, mas de forma mais generosa”, explicou Smith.
A empresa ainda está tentando verificar até que ponto os descontos e serviços gratuitos podem ser estendidos, especialmente diante da permanência do conflito. “Para ser honesto, é bastante caro proporcionar essa infraestrutura. Não é que estamos garantindo um gabinete de colo de 2.000 dólares ao mês, estamos proporcionando um par de 100.000 dólares ao mês de infraestrutura física", disse Smith.
Para Wise, a intervenção foi um salva-vidas crítico que chegou poucos dias depois da invasão. Mas as empresas geralmente precisam de meses ou anos para planejar as transições, e não foi um ajuste rápido e simples.
De acordo com Iolkin, no setor do metal, se há um servidor que deixa de funcionar por algum motivo, o natural é conseguir outro servidor e começar a usá-lo. Mas se os dados estão no servidor e este morre, os dados morrem com ele.
A empresa viu que precisava de um armazenamento dedicado ou distribuído: servidores apenas para o armazenamento ou armazenamento redundante nos servidores existentes. "Compreendemos que não havia espaço suficiente nos discos duros dos servidores que Metal tinha proporcionado”, disse Iolkin. "Não facilitaram todas as opções possíveis da Metal, apenas as do seu serviço On Demand, e estas não tinham espaço suficiente”, afirmou.
Informaram a Metal sobre o problema, e esta empresa entrou em contato com o seu sócio Pure Storage, que instala servidores de armazenamento persistente próximo aos servidores do Metal. E desta vez ofereceram o serviço de maneira gratuita, utilizando equipamentos do seu parque de demonstração. Mas o produto da Pure estava nos Estados Unidos e a Wise mudava uma instalação da Equinix em Frankfurt.
"Não sabia quanto tempo ia demorar", disse, lembrando da urgência da situação. “Podiam acontecer várias coisas durante o transporte: que o sistema quebrasse, fosse perdido ou ficasse bloqueado em algum lugar por tempo indeterminado”.
Mais uma vez, Iolkin recorreu à comunidade em busca de ajuda. Há muito tempo ele usava os serviços híbridos de dados e software de gestão de dados da NetApp, e fazia parte de um grupo conhecido como "NetApp A-Team", composto por vários clientes que evangelizavam o produto e se ajudavam mutuamente com problemas complicados.
Iolkin sabia que a NetApp ia funcionar, já que era a que a Wise utilizava para o seu sistema de armazenamento em Kyiv, e confiava nas suas capacidades de transferência e compressão de dados. Procurou a ajuda do A-Team: "A minha ideia era instalar o sistema da NetApp ao lado de Frankfurt e depois replicar alguns ou todos os dados para, posteriormente, migrar de maneira gradual da NetApp a Pure, quando estiver disponível".
André Unterberg, um membro da equipe, colocou Iolkin em contato com uma empresa que vende sistemas NetApp de segunda mão na Alemanha, Miller Anlagen. Ao comentar sobre o problema, eles cederam de forma gratuita os sistemas a Wise pelo tempo que precisassem.
"Garantiram o hardware e o sistema, e André, Alex Scholz -ambos da Bechtle- e outros engenheiros instalaram o sistema". Todo o processo durou menos de três dias, e os sistemas Pure Storage chegaram uma semana depois.
A migração dos dados foi realizada por etapas, primeiro com a maioria dos dados mais “frios” replicados em Frankfurt, antes de passar aos dados “vivos”. Só foram necessários poucos minutos de inatividade "porque o fizemos de forma granular, máquina virtual por máquina virtual", explicou Iolkin.
O engenheiro de redes da Wise também teve que configurar novamente a rede à nova arquitetura do Data Center, tudo isso com a maior rapidez possível.
No total, foram transferidos 182 terabytes. Não foi fácil.
"Enquanto transferíamos todos esses dados, Kiev estava sendo atacada. Os russos quebraram um dos três cabos que usávamos para a conexão à internet, e tudo ficou muito lento”, disse Iolkin.
Finalmente o cabo foi reparado, como parte de um esforço transcendental dos engenheiros da rede ucraniana para manter o país online em meio aos ataques das forças russas. O seu trabalho ajudou o mundo a ver as atrocidades cometidas e permitiu que os ucranianos se comunicassem e planejassem suas fugas no meio do horror.
Entre os que puderam usar essa conectividade estava a própria família de Iolkin, que demorou a abandonar a região de Kherson, desejando permanecer com a sua comunidade, na casa que construíram e que viveram toda a sua vida.
Depois que as tropas russas tomaram a região, não se sabia nada deles, nem mesmo nas semanas seguintes. E logo, finalmente, graças aos esforços nas redes de telecomunicações, foi possível ter notícia deles. “Queriam ir embora, mas não havia possibilidade. Mas faz uma semana encontraram a forma, e se mudaram para o meu apartamento em Kiev”, lembra Iolkin.
Para o gestor, que teve a sorte de se mudar aos Estados Unidos a trabalho antes do conflito, ver como a sua pátria, a sua família e a casa da sua infância estavam em perigo foi uma experiência extremamente tensa. "Era impossível dormir. Dediquei meu tempo à migração de dados. Porque isso era o que eu podia fazer. Era a minha profissão. O que mais eu poderia fazer? Era difícil”, lembra.
Mesmo o seu trabalho servindo de distração do horror, também teve benefícios concretos: o apoio às ferramentas online que são utilizadas atualmente na Ucrânia. Também ajudará na recuperação do país.
No começo do conflito, ele teve contato com o alma matter, a Universidade de Severodonetsk, para transferir as cargas de trabalho ao Data Center da Wise, e logo para Frankfurt. "Não consegui falar com eles a tempo para alcançar tudo, mas transferiram parte dos dados. E agora temos a universidade funcionando com a Metal. Agora não existe Severodonetsk".
Depois de uma longa batalha, as forças ucranianas foram expulsas da cidade oriental. Os russos bombardearam a cidade todos os dias, de fevereiro até o final de junho, transformando-a em ruínas.
Iolkin também conseguiu deslocar a maioria dos dados da Universidade Estatal de Kherson, que está sob a ocupação russa. Ele, como muitos ucranianos, espera que o conflito termine, mas é realista sobre o longo caminho que lhe espera.
Voltando a paz, e o território continuando independente, é otimista sobre a sua reconstrução. O setor tecnológico poderia se distanciar da Ucrânia ou - segundo ele - poderia ser crucial para ajudar o país a voltar a prosperar, demonstrando que a Rússia não tem o poder de destruir uma civilização. “Como exemplo, temos a Coréia do Sul que continua com o conflito com a Coreia do Norte. Ou Israel, onde há muitos problemas de estabilidade, mas tem algumas das maiores empresas tecnológicas e startups”.
Iolkin acrescenta: “Pode ir em ambas direções, e isso depende de nós, de todos no mundo para que vá em uma direção e não na outra. Infelizmente, esse futuro ainda está longe. Não deveríamos esperar até lá, e deixar que os horrores estampados nas páginas de notícias sejam esquecidos”.
De acordo com o chefe de tecnologia, "as pessoas estão perdendo o interesse na guerra, e temos que falar, temos que mostrar o que está acontecendo". Ressaltando que a vigilância é crucial não apenas para a população da Ucrânia, como também para evitar que Putin se expanda ainda mais, com a proliferação das armas nucleares, e que a China invada também Taiwán.
Durante o conflito, Wise continuou operando o seu Data Center em Kiev, com alguns clientes que não querem -ou não podem legalmente- abandonar o país. O pessoal continua trabalhando, entrando e saindo da parte ocidental do país, a mais segura.
Os bombardeios continuam em Kiev. "Felizmente, não alcançaram o Data Center da Ucrânia. Atacaram muitos lugares, mas não o Data Center: não caiu nenhuma vez", ressalta com orgulho.
Por Sebastian Moss, DataCenterDynamics
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