O avanço acelerado da inteligência artificial trouxe consigo uma demanda crescente por infraestrutura de data centers e, com ela, uma série de desafios ambientais que o setor de tecnologia ainda enfrenta com desconforto. O consumo de energia elétrica e de água está no centro do debate, mas pouco se fala sobre soluções concretas, sobre o papel do poder público e sobre a capacidade do Brasil de transformar sua abundância de recursos naturais em vantagem sustentável. A DCD está presente no evento .NEXT Nutanix, de 06 a 09 de abril, em Chicago e, já no primeiro dia, fez uma entrevista muito interessante com Marlon Menezes, Adviser System Engineer da Nutanix, sobre o cenário do mercado de data centers do Brasil. Em conversa exclusiva com a imprensa especializada brasileira, Menezes diz que houve irresponsabilidade na corrida pela IA e a hora de mudar é agora.

Menezes critica o período de euforia que marcou a adoção maciça da inteligência artificial nos últimos anos. "A corrida da IA não teve controle”, afirma. Ele aponta que as grandes empresas de tecnologia compraram GPUs em escala descomunal, inflacionando o mercado e tornando difícil para outros players adquirir os componentes necessários. "As Big Techs foram lá e compraram milhares e milhares de GPUs. Foi uma irresponsabilidade", avalia.

Marlon Menezes, Nutanix
Marlon Menezes – Divulgação

O especialista também mira no hype: a pressão para implementar inteligência artificial "a qualquer custo", sem avaliar o retorno real para o negócio, gerou projetos que simplesmente não se sustentaram. Para Menezes, a tendência agora é fracionar: soluções mais precisas, mais inteligentes, mais cirúrgicas.

Água, energia e o desafio ambiental dos data centers

Um dos temas que mais tem gerado debate é o consumo de água pelos data centers e a percepção de que o problema está sendo subnotificado ou mal comunicado. Menezes reconhece a crítica, mas a transforma em solução: um dos maiores projetos recentes da Nutanix envolve justamente o uso da água como alternativa de refrigeração. "Em vez de ter um rack refrigerado por ar-condicionado, vou refrigerar a água", diz. O resultado? Uma redução de até 60% no consumo de energia.

Mas o executivo explica que a refrigeração a água é muito mais complexa do que pode parecer. "Tem que ter o chiller e uma infraestrutura voltada para isso. É investimento", esclarece. E é justamente aí que está um dos nós do problema no Brasil: o mercado brasileiro ainda tem dificuldade em pensar no retorno de longo prazo. "A gente é mais imediatista", reconhece o especialista, que, ainda assim, defende que é possível demonstrar o retorno desse investimento em poucos anos.

Brasil: vantagens naturais que podem virar descaso

O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com geração hidrelétrica, solar e eólica em abundância. Para Menezes, isso é uma enorme vantagem competitiva, mas também um risco. "A abundância traz falta de cuidado. Enquanto tenho em mãos, não me preocupo. Mas, com o crescimento do modo como está, a falta vai acontecer, sim ou sim", adverte.

O especialista destaca que a matriz elétrica nacional, embora predominantemente renovável, já enfrenta pressões. O crescimento dos data centers exige um planejamento que vai muito além das paredes dos galpões tecnológicos. "Tem que ter um estudo de impacto sobre como aquele data center vai afetar o entorno da cidade", defende.

Um dos pontos mais críticos levantados por Menezes é a desconexão entre os setores de tecnologia e de energia. Para ele, não basta jogar essa responsabilidade apenas nas empresas privadas. "É até injusto você jogar isso só para o setor privado. Deveríamos ter, no mínimo, debates a nível de parceria público-privada para chegar a uma solução. Como você tem a aprovação de tantos prédios em São Paulo sem prever esse impacto?", questiona. Para o especialista, um plano diretor robusto que contemple tanto o crescimento dos data centers quanto a capacidade da rede elétrica local é fundamental.

Quando questionado sobre como justificar o investimento em sustentabilidade no universo dos data centers, Menezes é categórico: "A gente vai ser obrigado a encaixar a sustentabilidade. Não tem como excluir nenhum tipo de negócio dessa conversa." E vai além: o setor precisa comprovar esse retorno não apenas em termos ambientais, mas também financeiros.

Imprensa e educação: os dois pilares que ainda faltam

Ao final da conversa, Menezes toca num ponto que vai além da tecnologia: a necessidade de que a imprensa e o sistema educacional assumam um papel ativo nessa equação. Para ele, a grande mídia tende a destacar apenas o lado negativo dos data centers — o consumo de água e o gasto de energia — sem traduzir para o público as soluções que vêm sendo desenvolvidas e o caminho para um crescimento mais responsável.

"Notícia ruim vende mais do que notícia boa. Mas o papel da mídia é trazer o assunto público-privado como pauta de discussão, traduzido para o grande público", cobra. E vai mais longe: defende que a sustentabilidade tecnológica deve integrar os currículos universitários. "Eu fiz engenharia e não era uma pauta que a gente levava. É preciso sair da faculdade educado e doutrinado a defender esse tipo de tema", afirma.