A intensificação das tensões no Oriente Médio, com ataques a infraestruturas críticas e instabilidade no Estreito de Ormuz, acendeu um alerta na indústria global de tecnologia. O que antes era uma disputa comercial impulsionada pelo avanço da Inteligência Artificial começa a se transformar em uma corrida por resiliência energética e soberania de dados.
Pela primeira vez, grandes regiões de nuvem pública — as chamadas Availability Zones — operam próximas a áreas de conflito ativo. O ataque com drones a instalações de data centers de hiperescala na primeira semana do confronto reforçou a avaliação de analistas de que essas estruturas deixaram de ser ativos neutros e passaram a ser tratadas como infraestruturas estratégicas.
“A localização física de um data center agora importa tanto quanto o código que ele executa”, afirma Eduardo Menossi, sócio-fundador do Grupo EBM, especializado na construção de data centers na América Latina. Segundo ele, a guerra no Irã eleva os custos de energia e provoca uma reconfiguração da geografia digital global.
Esse novo contexto já começa a afetar três frentes consideradas críticas para a indústria tecnológica mundial.
A volatilidade dos preços do petróleo e as ameaças ao fluxo de gás natural liquefeito no Golfo elevaram os custos operacionais de data centers voltados à inteligência artificial em mercados dependentes de energia importada. Estimativas indicam que essas estruturas já representam cerca de 3% do consumo global de eletricidade, proporção que deve aumentar com a expansão dos modelos de IA de larga escala.
Com esse cenário, projetos bilionários previstos para o Oriente Médio passaram a ser reavaliados. Empresas de tecnologia e investidores têm priorizado regiões consideradas mais estáveis do ponto de vista geopolítico e energético. Países como Brasil, Canadá e nações nórdicas despontam como alternativas, combinando oferta de energia renovável e menor exposição a conflitos.
A mudança também se reflete no desenho de novos data centers. Critérios de segurança física e redundância energética ganham peso, e arquiteturas com múltiplas zonas de disponibilidade e sistemas de contingência reforçados deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos de continuidade operacional.
Além dos impactos diretos na infraestrutura digital, a crise exerce pressão na cadeia global de tecnologia. Tensões geopolíticas e gargalos logísticos têm ampliado os prazos de entrega de componentes estratégicos, como GPUs de alto desempenho usadas no treinamento de modelos de IA.
Para Hudson Mendonça, vice-presidente de Energia e Sustentabilidade da MIT Technology Review no Brasil, o conflito no Oriente Médio também deve ser analisado sob a perspectiva do equilíbrio energético global. Ele destaca que a escalada envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel ameaça uma das principais rotas de abastecimento do mundo: o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente. Qualquer instabilidade na região, afirma, afeta diretamente setores altamente dependentes de energia, como data centers e aplicações de inteligência artificial.
Mendonça observa que o impacto tende a ser mais significativo em economias com forte crescimento da demanda por energia elétrica. A China consumiu mais de 10 mil TWh em 2025, com projeções de crescimento elevado impulsionadas pela expansão de data centers e da indústria tecnológica. Nos Estados Unidos, a corrida por infraestrutura de IA também acelera o aumento do consumo.
Segundo ele, energia, tecnologia e geopolítica estão cada vez mais interligadas, e a evolução da inteligência artificial dependerá da estabilidade das cadeias energéticas globais.
Diante desse cenário, especialistas apontam três possíveis desdobramentos: a redistribuição da infraestrutura global de data centers, o fortalecimento de estratégias nacionais de soberania digital e a busca por novas fontes de energia capazes de sustentar o avanço da IA.
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