Com cerca de 175 anos de atuação, a Corning tem desempenhado um papel relevante no desenvolvimento industrial e social. À medida que se aproxima de seu bicentenário, a empresa — especializada em ciência dos materiais — identifica no Brasil uma oportunidade para ampliar sua receita por meio de soluções voltadas a data centers de Inteligência Artificial em fase de construção no país, informa o Brazil Economy.
Juliano Covas, gerente regional de vendas de data centers da Corning para América Latina e Central, explica que a inclusão de Inteligência Artificial nos projetos aumenta significativamente a demanda por infraestrutura de fibra óptica. Segundo ele, o número de conexões e cabos cresce de forma expressiva e, atualmente, um data center voltado à IA requer cerca de dez vezes mais fibra óptica do que um dedicado à computação em nuvem.
O executivo lidera, no Brasil, a unidade de negócios Optical Communications da empresa norte-americana, responsável por aproximadamente 30% da receita líquida global. Em 2024, essa receita totalizou 13,1 bilhões de dólares (70,5 bilhões de reais), o que representa um crescimento de 4% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2025, o faturamento foi de 7,4 bilhões de dólares (40 bilhões de reais), ritmo que pode levar a companhia a atingir 15 bilhões de dólares (80,7 bilhões de reais) até o final do ano.
A decisão de direcionar investimentos para data centers de Inteligência Artificial no Brasil foi tomada após o encerramento das atividades da unidade fabril de produção de fibra óptica para telecomunicações, em Jacarepaguá (RJ), no primeiro semestre de 2024. Essa mudança integra o plano Glassworks IA da Corning, que reflete uma adaptação estratégica diante da desaceleração observada no segmento de Internet por cabo.
Os data centers tornaram-se prioridade devido a mudanças significativas em sua infraestrutura. Embora os espaços físicos permaneçam os mesmos, a densidade de fibras por rack aumentou substancialmente. Em locais onde anteriormente eram instaladas cerca de mil fibras, atualmente são acomodadas até 64 mil.
Juliano Covas explica que o aumento no número de GPUs — unidades de processamento gráfico utilizadas para acelerar aplicações de Inteligência Artificial — está diretamente relacionado à elevação da capacidade computacional dos data centers. Esse crescimento, por sua vez, exige uma expansão significativa no número de fibras ópticas utilizadas, devido à maior necessidade de conectividade e de transferência de dados em alta velocidade.
Diante desse cenário, a Corning enfrenta desafios técnicos e estratégicos que envolvem a interconexão entre diferentes data centers, a densificação das redes ópticas e o aprimoramento da capacidade de processamento. Além disso, a empresa está empenhada em desenvolver a próxima geração de infraestrutura óptica, com foco em soluções que atendam às exigências futuras do setor.
Como parte dessa estratégia, a companhia tem promovido a renovação de seu portfólio de produtos, fabricados em unidades localizadas no México, Estados Unidos e Europa. Uma seleção desses itens está disponível na sede da operação brasileira, em São Paulo, onde foi instalado um showroom dedicado à apresentação de soluções para clientes e parceiros.
O portfólio contempla aproximadamente 10 mil SKUs (unidades de manutenção de estoque), dos quais os principais estão em exposição. Esses produtos foram desenvolvidos para atender às demandas específicas dos data centers voltados à Inteligência Artificial, com foco em atributos como agilidade na instalação, sistemas pré-conectados, escalabilidade, alta densidade de fibras e possibilidade de customização conforme o projeto.
Os serviços constituem um componente estratégico na atuação da Corning. A empresa tem reforçado seu posicionamento como parceira dos clientes na concepção e desenvolvimento de projetos, especialmente no segmento de data centers voltados à Inteligência Artificial. Segundo Juliano Covas, gerente regional de vendas de data centers da Corning para América Latina e Central, a abordagem da companhia vai além da oferta de produtos: “Acreditamos que pensar apenas no produto não é suficiente. É essencial considerar também os serviços — como planejar, projetar e implementar o data center de IA”.
A Corning acompanha de perto a expansão do mercado brasileiro, que atualmente ocupa a 10ª posição no ranking global de data centers, atrás de países como o Japão e a Holanda. Para estimular o crescimento do setor, o governo federal lançou o programa ReData, que busca atrair novos projetos por meio de incentivos fiscais, oferta de energia renovável a preços competitivos e infraestrutura de comunicações adequada ao tráfego internacional de dados, especialmente por meio de cabos submarinos.
Empresas como a Ascenty, Elea Data Centers, Equinix e Scala Data Centers estão entre os principais investidores no país, com aportes bilionários voltados à ampliação da capacidade de processamento e armazenamento de dados. De acordo com o Data Center Map, o Brasil abriga atualmente 188 data centers voltados à computação em nuvem, em um universo global estimado em cerca de 12 mil unidades.
Atualmente, estão em fase de planejamento quatro unidades de data centers voltadas à Inteligência Artificial nas cidades do Rio de Janeiro (RJ), Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) e Uberlândia (MG). Um quinto projeto, liderado pela ByteDance — empresa controladora do TikTok — em parceria com a Casa dos Ventos, está previsto para iniciar no próximo ano no Complexo Portuário do Pecém, no Ceará, com investimento estimado em 50 bilhões de reais.
De acordo com a consultoria McKinsey, as empresas devem investir globalmente cerca de 7 trilhões de dólares (37,6 trilhões de reais) em infraestrutura de data centers até o final da década, impulsionadas pela crescente demanda por processamento de dados e aplicações de IA.
No Brasil, os chamados hiperescalas — data centers de grande porte e alta capacidade — predominam no mercado. No entanto, outros segmentos também têm desenvolvido suas próprias estruturas de dados ou expandido suas operações, por meio de projetos de menor escala. Entre eles, destaca-se o setor financeiro, que inclui bancos, fintechs e seguradoras.
Juliano Covas afirma que a empresa tem direcionado esforços para atender esse segmento, com uma proposta voltada às suas necessidades específicas. Para isso, a companhia tem ampliado sua equipe técnica com especialistas e investido em programas de capacitação para instaladores, visando garantir qualidade e eficiência na implementação das soluções.
Entre os projetos recentes da Corning no Brasil, destaca-se a atuação em um data center que exigia a distribuição de cabeamento entre as fileiras de racks do MDA (Main Distribution Area) e do data hall, ambos localizados em salas separadas. O principal desafio envolvia a interconexão de 46 mil fibras ópticas, o que, em uma configuração convencional, exigiria aproximadamente 320 cabos de 144 fibras — o que tornaria o processo complexo devido ao volume de cabos e à distância entre os ambientes.
Para atender a essa demanda, foi adotada a solução Edge Rapid Connect, voltada à conectividade de alta densidade. “Em vez de utilizar 320 cabos de 144 fibras, lançamos apenas 16 cabos pré-conectorizados de 2.880 fibras, o que reduziu significativamente a complexidade do cabeamento e acelerou a implantação”, explicou Covas.
Em outro projeto, a empresa realizou a interligação entre o MDA e o data hall em prédios distintos de um cliente, utilizando 10 mil fibras distribuídas por bandejas aéreas e dutos subterrâneos. A aplicação de cabos de alta densidade com 2.880 fibras, semiconectorizados e com tecnologia Ribbon, contribuiu para a agilidade na passagem e nas emendas, otimizando o processo de instalação.
O executivo da Corning observa uma tendência de crescimento acelerado na demanda por fibra óptica de alta densidade no Brasil, impulsionada pela perspectiva de regulamentação definitiva do programa ReData. Atualmente, o ReData é uma medida provisória que aguarda aprovação pelo Congresso Nacional para ser convertida em lei. Caso isso se concretize, a expectativa é de que haja uma intensificação significativa nos investimentos em infraestrutura de data centers no país.
Diante desse cenário, a Corning projeta uma aceleração de projetos voltados à construção e expansão de data centers, especialmente aqueles com foco em aplicações de Inteligência Artificial. No entanto, a empresa também identifica um possível gargalo na capacidade de entrega e implantação dessas soluções em larga escala.
Juliano Covas destaca que, uma vez iniciada essa nova fase de expansão, a demanda deverá crescer rapidamente e haverá elevada pressão por prazos curtos e soluções escaláveis. Por isso, a preparação antecipada e o investimento em tecnologias de rápida implementação são estratégicos para atender às exigências futuras do mercado.
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