O aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor tem alterado o padrão de consumo de energia elétrica no Brasil. Temperaturas mais altas aumentam o uso de sistemas de refrigeração e climatização e pressionam os picos de demanda do sistema. No verão de 2025, a demanda instantânea bateu sucessivos recordes em diversas regiões do país, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Ao mesmo tempo, o sistema se prepara para receber cargas eletrointensivas de grande porte, com os data centers à frente. Estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), publicado em 2026, identificou 30 projetos de data centers no Nordeste, com potencial de 8,3 GW até 2038. O mesmo levantamento mapeou 21 projetos da cadeia do hidrogênio, que somam 26,7 GW de potência instalada no mesmo horizonte.
A dimensão desse movimento fica mais clara quando comparada à base atual do setor. Segundo a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), o país tem hoje cerca de 1 GW de capacidade de TI em operação, e a expectativa da entidade é que esse volume chegue a 4 GW ou 5 GW, o que poderia atrair entre R$ 1,2 trilhão e R$ 1,5 trilhão em investimentos. A consultoria JLL contabiliza 660 MW em construção no país, equivalentes a cerca de 17,4 bilhões de dólares (90,3 bilhões de reais), além de outros 4.621 MW em projetos futuros, e projeta que o mercado nacional dobre de tamanho até 2030. A vacância está em 4%, e 56% da capacidade em obras já está pré-locada, segundo a consultoria.
O deslocamento geográfico também chama a atenção. São Paulo concentra 38% da capacidade instalada, mas Fortaleza, ponto de chegada de cabos submarinos internacionais, tem 227 MW em construção, o que representará um salto de 1.179,7% na capacidade local, segundo a JLL.
Em termos agregados, o peso dos data centers no consumo nacional ainda é limitado. O Brasil consumiu cerca de 561,6 TWh em 2024, segundo a EPE, enquanto a Organização Latino-Americana de Energia (Olade) estima que todos os data centers da América Latina consumam entre 23 e 30 TWh por ano. Para a ABDC, o desafio não está na disponibilidade total de energia, mas na capacidade de fornecer grandes blocos de potência em locais específicos, com confiabilidade e redundância. A entidade aponta ainda um descompasso de cronograma: um data center pode ser implantado em cerca de três anos, enquanto alguns reforços de transmissão podem levar cinco anos.
Nesse contexto, a gestão do consumo passa a ser vista como uma alternativa de curto prazo. Estudo divulgado pela EPE em 21 de setembro estima o potencial de resposta da demanda no Brasil em 8,8 GW, com faixa entre 5,9 GW e 13,1 GW. Nesse mecanismo, os consumidores ajustam o uso de energia em troca de sinais econômicos. A capacidade efetivamente contratada, porém, corresponde a apenas 0,3% do pico do sistema. Segundo a EPE, reduzir e modular o consumo pode ser mais rápido e econômico do que contratar ou despachar nova geração.
O país parte de uma matriz elétrica majoritariamente limpa. Em 2025, 86,8% da oferta interna de energia elétrica veio de fontes renováveis, segundo o Balanço Energético Nacional 2026, da EPE. Na matriz energética como um todo, que inclui combustíveis usados no transporte e na indústria, a participação das fontes renováveis foi de 49,5%. A predominância de fontes renováveis na geração de eletricidade, no entanto, não elimina os desafios relacionados a picos de demanda, custos e infraestrutura.
O tema também ganhou dimensão regulatória. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (ReData), instituído pela Lei 15.504/2026 e sancionado em 15 de setembro, condiciona os benefícios fiscais ao atendimento, por fontes renováveis ou de baixa emissão, de toda a demanda elétrica dos empreendimentos e ao cumprimento de um índice de eficiência hídrica de, no máximo, 0,05 litros por kWh. A regulamentação, porém, segue pendente. Segundo o presidente executivo da Brasscom, Affonso Nina, o decreto está travado pela indefinição sobre quais fontes se enquadram como de baixa emissão, e a entidade propôs ao governo publicar os pontos já acordados e tratar da questão energética em uma etapa posterior.
No plano global, a pressão sobre a oferta se reflete no volume de investimentos. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima investimentos de US$ 3,4 trilhões (17,6 trilhões de reais) no setor energético em 2026. Desse total, cerca de US$ 2,2 trilhões (11,4 trilhões de reais) devem ir para renováveis, nuclear, redes, armazenamento, combustíveis de baixa emissão, eficiência e eletrificação, quase o dobro dos US$ 1,2 trilhão (6,2 trilhões de reais) previstos para petróleo, gás natural e carvão.
Para a Danfoss, a eficiência energética deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a envolver competitividade, previsibilidade de custos e resiliência operacional. A empresa avalia que tecnologias já disponíveis permitem reduzir o consumo sem comprometer a produtividade, sobretudo em sistemas de HVAC, motores, bombas, compressores e automação, aplicações que têm peso relevante na operação de data centers, nos quais a climatização responde por uma parte significativa do consumo.
No segmento de edifícios, estudo da Danfoss aponta um potencial médio de economia de energia de 30% com a otimização de sistemas técnicos, com retorno do investimento em cerca de dois anos. A companhia também cita uma estimativa da IEA segundo a qual a aceleração das medidas de eficiência poderia reduzir os custos globais de energia em até US$ 2 trilhões (10,4 trilhões de reais) e gerar cerca de 10 milhões de empregos até 2030.
Fabricantes que atuam no mercado de data centers relatam ganhos na mesma direção. Segundo Eryck El-Jaick, COO da Fibracem, soluções de fluxo de ar para ambientes de alta densidade, desenvolvidas em parceria com a Vertiv, podem reduzir em até 10% o consumo total de energia de um data center, com ganhos de até 20% no sistema central de refrigeração e de até 50% no consumo dos ventiladores.
O cenário indica que, diante de temperaturas extremas, de picos de demanda mais frequentes e da chegada de cargas como os data centers, a discussão sobre energia no Brasil tende a envolver não apenas a expansão da geração e da transmissão, mas também a forma como a energia é consumida. O próprio planejamento energético do país já reconhece que ajustar o consumo pode ser uma resposta mais rápida e barata do que ampliar a oferta.
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