A Vulp Air, empresa de climatização e refrigeração que atua há 55 anos no mercado brasileiro, sob o CNPJ da antiga Colortel, passou por uma mudança de marca em 2025 para refletir sua transformação nos negócios. Em entrevista à DCD, o CEO Mateus Orsini explicou que a decisão, embora estrategicamente simples, exigiu uma execução cuidadosa, já que o nome Colortel carregava peso histórico em setores como hotelaria, educação e saúde.
Segundo Orsini, a mudança se justificou porque o nome antigo já não refletia a realidade da empresa: em 2025, mais de 90% do faturamento da companhia vinha da climatização e da refrigeração de infraestrutura crítica. O novo nome, Vulp Air, foi escolhido para comunicar ao mercado a simplicidade e a conveniência do modelo de negócio baseado em assinatura de climatização, sem alterar a estrutura jurídica da empresa, que mantém o CNPJ e os 55 anos de história. Agora, a Vulp Air pretende se tornar padrão e referência no mercado brasileiro de data centers.
A empresa, diz Orsini, mantém sua matriz de origem no Rio de Janeiro, mas hoje a sede executiva está em São Paulo, cidade que é o “centro de gravidade” da companhia. Segundo o executivo, a Vulp Air mantém operações estruturadas para atender clientes em até duas horas de distância nos 27 estados brasileiros.
O modelo de cooling as a service
Ao descrever o modelo de negócio da Vulp Air para o mercado de data centers, Orsini explicou que a refrigeração é, depois da tecnologia de TI, a peça mais crítica na construção de um data center, mas, normalmente, não é o core business dos operadores ou construtoras. O processo tradicional de climatização envolve uma cadeia fragmentada de fornecedores que atuam em silos: projetista, instalador e, depois, as equipes responsáveis pela manutenção preventiva e corretiva, o que gera custos elevados e riscos à disponibilidade do sistema.
O modelo da Vulp Air verticaliza todo esse processo (projeto, instalação, automação e operação 24x7) em um único contrato, pago por meio de uma mensalidade fixa. Segundo Orsini, essa estrutura reduz o desembolso inicial do cliente em comparação a um investimento à vista e, principalmente, alinha os interesses das partes: como a Vulp Air só é remunerada enquanto entrega disponibilidade e qualidade, a empresa passa a ter interesse direto no desempenho do sistema ao longo de todo o contrato.
De acordo com o CEO, a recepção do mercado a esse modelo tem sido “acima do esperado”, já que a gestão da refrigeração é uma dor latente em setores de missão crítica, e ainda mais evidente no segmento de data centers, dada a criticidade da operação.
Questionado sobre o aquecimento do mercado brasileiro de data centers, Orsini afirmou que a Vulp Air já atendia esse segmento havia anos, ainda como Colortel, por meio de clientes com centros de processamento de dados próprios, tais como hospitais, hotéis, instituições financeiras e seguradoras. Os data centers de hiperescala atuais representam uma evolução natural desses ambientes, mas o avanço da inteligência artificial nos últimos dois anos acelerou significativamente a demanda.
O setor, diz ele, é um mercado em expansão sem um ponto final visível, cuja única certeza é que as tecnologias de amanhã exigirão capacidade de processamento e de refrigeração ainda maiores. A estratégia da Vulp Air é focar em clientes para os quais a climatização é, de fato, uma missão crítica para o negócio, e não apenas mais um equipamento entre outros.
Orsini segmentou o mercado em três perfis de clientes, com demandas distintas quanto ao nível de serviço. Os hiperescalas são players capitalizados que exigem tecnologias de ponta, como precision cooling, e toleram investimentos mais altos em troca de qualidade superior. Os operadores de colocation, embora também exijam alto nível de serviço, já que falhas afetam diretamente seus próprios clientes, costumam operar com tecnologias já consolidadas pela Vulp Air há mais de 30 anos, como as centrais de água gelada. Já os clientes tradicionais da empresa, oriundos de setores como o da saúde, têm migrado gradualmente para um padrão de exigência semelhante ao do colocation.
O CEO destacou que a experiência prévia da companhia em ambientes de missão crítica, como CTIs hospitalares, ajudou a preparar a empresa para a pressão de disponibilidade típica dos data centers.
O desafio energético e as novas tecnologias de resfriamento
Sobre o crescente consumo energético dos data centers, Orsini explicou que há uma relação direta e autoalimentada entre processamento, geração de calor e demanda por refrigeração: quanto mais dados um data center processa, mais energia consome e mais calor emite, o que exige maior capacidade de resfriamento, o que, por sua vez, consome ainda mais energia. Essa dinâmica impulsionou o desenvolvimento de tecnologias como precision cooling, liquid cooling, direct-to-chip cooling e immersion cooling ao longo da última década e meia.
O executivo afirmou que a Vulp Air já está certificada por dois grandes fabricantes internacionais de tecnologias avançadas de refrigeração e está em processo de certificação junto a um terceiro fabricante, de modo a cobrir as três principais tecnologias do mercado. Orsini explica que, no entanto, o mercado brasileiro ainda concentra a demanda em tecnologias tradicionais, como centrais de água gelada, e que a adoção de soluções mais avançadas deve ser impulsionada por fatores macroeconômicos, como a estabilização da taxa de juros. Em relação ao potencial de redução do consumo energético em ambientes críticos, Orsini citou três frentes principais de ganho: dimensionamento correto do sistema já na fase de projeto, para evitar superdimensionamento; escolha de tecnologias mais eficientes, ainda que com maior custo inicial; e monitoramento em tempo real para evitar vazamentos e operação fora da faixa ideal de temperatura, somado à manutenção preditiva e preventiva constante.
Orsini falou sobre o software de monitoramento remoto desenvolvido internamente pela Vulp Air, que monitora temperatura, pressão e consumo elétrico dos sistemas. Tanto o software quanto os equipamentos de hardware da empresa utilizam protocolos abertos, o que permite a integração com outras tecnologias já presentes no mercado e funciona, inclusive, como camada de redundância em caso de falha dos sistemas de terceiros. Essa tecnologia permite que operadores de data center deleguem à Vulp Air o acompanhamento contínuo da refrigeração, sem necessidade de manter equipe própria dedicada ao tema.7
Sobre o modelo comercial, Orsini afirmou que os contratos da Vulp Air variam entre 3 e 15 anos, com média próxima a dez anos no caso de projetos de data center. A empresa está disposta a assumir o risco de longo prazo justamente porque considera a demanda por infraestrutura digital estrutural e duradoura, diferentemente de setores mais suscetíveis a ciclos econômicos, como o varejo. O executivo destacou que, quanto mais longo o contrato, maior o risco assumido pela Vulp Air, já que o retorno do investimento também se estende no tempo, o que reforça o alinhamento de interesses entre as partes.
O mercado brasileiro de refrigeração e climatização movimentou 50,15 bilhões de reais no último ano fechado (2025), dos quais aproximadamente 35 bilhões corresponderam ao segmento B2B, segundo dados da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), com projeção de 55 bilhões para 2026. A Vulp Air é hoje a maior compradora de equipamentos de ar-condicionado para balanço próprio no país e, em 2026, o investimento da empresa nesse quesito será de 100 milhões de reais. Orsini estimou que a fatia desse investimento direcionada a projetos de infraestrutura digital pode chegar a representar até 40% do total nos próximos três a quatro anos, ante uma parcela menor atualmente, ressalvando que a projeção depende do ritmo de novos projetos e de fatores regulatórios que, segundo ele, hoje mantêm parte do mercado em compasso de espera. Uma projeção da Mordor Intelligence estima que a capacidade de carga de TI dos data centers no Brasil passe de 950 MW em 2025 para 1,46 GW em 2030, um crescimento de aproximadamente 54% no período, o que equivale a 8,9% ao ano (CAGR). Em valor de mercado, a estimativa é de 2,95 bilhões de dólares (15,3 bilhões de reais) em 2025 e de 6,67 bilhões de dólares (34,6 bilhões de reais) em 2031, o que representa um crescimento anual composto de 14,6%.
Quando falamos sobre resfriamento, energia e data centers, o problema da sustentabilidade e do meio ambiente não pode ficar de fora. Em relação à transição de gases refrigerantes exigida pelo Protocolo de Montreal até 2030, Orsini afirmou que a Vulp Air já segue integralmente as diretrizes, incluindo o trabalho de reciclagem e o descarte de gases em âmbito nacional. A empresa, explica, oferece aos clientes a possibilidade de retrofit de equipamentos antigos, com substituição de gases mais nocivos por meio de um modelo de leaseback, sem aumento de CAPEX ou OPEX para o cliente, o que também facilita o acesso a financiamento no setor de infraestrutura digital, cujas exigências de conformidade ambiental costumam ser mais rígidas.
Atuação restrita ao Brasil, por enquanto
Orsini confirmou que a Vulp Air opera exclusivamente no mercado brasileiro. Eventuais movimentos de expansão para a América Latina têm sido provocados por clientes próprios, mas a decisão ainda depende de avaliação do conselho e da diretoria da empresa. Ele afirmou que, no momento, a Vulp Air mantém o compromisso de priorizar o crescimento no Brasil, dado o que descreveu como um “gap de infraestrutura” relevante no país.
Para os próximos dois a três anos, Orsini afirmou que a ambição da Vulp Air é tornar-se a referência em climatização no Brasil, especialmente no setor de data centers, de modo que o mercado associe automaticamente o termo “cooling” à marca. A empresa reconhece a atuação de outros players do setor, com os quais eventualmente colabora, mas defende que seu modelo de negócio oferece vantagens em conveniência, não imobilização de capital, segurança e confiabilidade.
Por fim, questionado sobre o impacto do fenômeno El Niño no negócio, Orsini afirmou que o evento climático tende a acelerar naturalmente a demanda por refrigeração, mas alertou para um possível cenário de escassez de equipamentos para empresas que não se anteciparem. Segundo ele, fatores como a estiagem do Rio Amazonas, que afeta a cabotagem e a logística de importação via Manaus, somados ao aumento da demanda, podem gerar gargalos de produção nos próximos meses. O executivo recomendou que operadores de data center, clientes da Vulp Air ou não, antecipem manutenções, reduzam os intervalos entre revisões, façam estoque de peças e testem os sistemas principais e as redundâncias diante desse cenário.
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