Como uma das economias protagonistas no cenário nacional, o Rio de Janeiro também desempenha um papel relevante no setor de Data Centers. No entanto, o estado possui potencial para se consolidar como um ator ainda mais expressivo no processo de transformação digital do Brasil.

Essa capacidade de crescimento é evidenciada com os recentes anúncios de investimentos e com o planejamento de novos espaços voltados para atrair essas infraestruturas estratégicas.

Segundo Bruno Porto, gerente de negócios imobiliários logísticos, imobiliários e data center da JLL, embora o Rio de Janeiro não tenha registrado novas instalações em 2024, as projeções apontam para uma retomada do crescimento em 2025:

“Depois de dobrar sua capacidade em 2023, não ocorreram novas entregas em 2024. Após um crescimento tão vertiginoso, é normal que exista uma certa acomodação no ano seguinte, mas a expectativa é que a taxa de crescimento volte a acelerar já em 2025. Para o ano que vem, prevemos um crescimento próximo de 20%. Considerando o que já está em construção, o estado tem o potencial para aumentar em 2,5 vezes sua capacidade atual nos próximos anos.

Um dos principais fatores que impulsionam o desenvolvimento do setor no Rio de Janeiro é sua posição estratégica como um hub de cabos submarinos e de interconexão no Brasil. Segundo Rogério Mariano, Global Head de Edge Network Planning da Azion, a cidade já abriga cabos submarinos de relevância como JUNIOR, BRUSA, MALBEC, SAM-1, SAC, GLOBENET, AMX-1 e Brasil Festoon, consolidando sua importância no cenário global de conectividade.

“No momento, não há previsão de chegada de novos cabos ao Rio de Janeiro. No entanto, os órgãos governamentais envolvidos na indústria de cabos consideram que as recentes recomendações do ICPC (Comitê Internacional de Proteção de Cabos), que sugerem evitar a concentração de grupos de cabos, tendem a tornar outros pontos de chegada, como Praia Grande, em Santos, e, especialmente, o Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, atraentes para novos projetos. O Recreio dos Bandeirantes já recebe sete cabos submarinos, conta com um ecossistema de interconexão robusto, boas redes de long-haul e um ambiente de data centers maduro”, afirma Rogério Mariano.

Para Bruno Porto, entre os principais fatores que favorecem o crescimento do setor no Rio de Janeiro estão “a grande demanda atual por processamento e armazenamento de dados e o tamanho do mercado consumidor desses dados, sejam pessoas ou empresas”.

“Os principais desafios são relacionados a segurança e infraestrutura. Em 2023, observamos um crescimento significativo de projetos concentrados em São João do Meriti, resultado das limitações dessas condições em outras regiões”, acrescenta.

Projetos esperados a partir de 2025

A Equinix espera iniciar, no primeiro semestre de 2025, as operações de seu terceiro data center no Rio de Janeiro. Localizada em São João de Meriti, a estrutura envolverá um investimento de US$ 94 milhões.

“O Rio de Janeiro é um dos maiores mercados consumidores do país e um hub para setores estratégicos, como energia e mineração. Portanto, expandir nossa presença local foi o caminho natural. Com nosso investimento no RJ3, o maior já feito por uma empresa de data center no estado, poderemos apoiar ainda mais empresas em sua infraestrutura digital”, disse Victor Arnaud, presidente da Equinix Brasil, ao anunciar a novidade.

Em agosto, a Cirion Technologies confirmou a aquisição de uma área de 15.000 metros quadrados para apoiar a expansão de sua presença na região. Localizado no bairro de São Cristóvão, o terreno suportará uma nova instalação de data center carrier-neutral de até 60 megawatts (RIO2).

"O RIO2 será um data center de última geração, neutro para operadora e eficiente em termos de energia, com conectividade direta de fibra para o ecossistema existente da Cirion desde o dia 1, fornecendo capacidade de colocation orientada para interconexão para o mercado de data center em rápido crescimento da região", afirmou Nelson Fonseca, presidente da unidade de negócios de data center da Cirion, ao divulgar o investimento.

Já em outubro, a De-CIX anunciou a sua chegada ao Brasil com novos pontos de troca de tráfego em São Paulo e no Rio de Janeiro. A empresa iniciará suas operações no país pela capital fluminense, atuando nas instalações RJ01, da Elea Data Centers, e RJ2, da Equinix. O objetivo é oferecer soluções que atendam à crescente demanda por redundância e resiliência.

Outro projeto a se concretizar em 2025 no estado é a segunda instalação da CloudHQ no Brasil, com previsão para começar a operar em setembro. Com um investimento de R$ 1,7 bilhão, o data center ficará localizado em São João de Meriti e terá 36 MW de capacidade de TI.

Dois planos foram divulgados recentemente com o mesmo objetivo em zonas distintas: atrair investimentos para aproveitar o potencial de crescimento do setor no estado. Uma dessas iniciativas pretende desenvolver projetos de data center no complexo portuário do Açu. A outra envolve a intenção de criar um distrito de data centers no Centro Metropolitano, em Jacarepaguá.

Centro Metropolitano, a aposta da Prefeitura

A Prefeitura do Rio de Janeiro pretende aproveitar o espaço do Centro Metropolitano, em Jacarepaguá, para atrair mais investimentos do setor. A área, que já abriga a Elea Data Centers, foi destacada pela administração municipal como um local estratégico para a instalação de novos empreendimentos.

Em entrevista à DCD, Chicão Bulhões, ex-secretário municipal de desenvolvimento urbano e econômico, antes de sua saída do cargo, revelou que a prefeitura acredita no potencial local para a formação de talentos e na presença de centros de pesquisa como fatores-chave para impulsionar o crescimento do setor. Ele também ressaltou a proximidade da região com importantes sistemas de cabos submarinos e destacou o momento favorável pelo qual o Rio de Janeiro passa, com a cidade se tornando um hub de eventos voltados à transformação digital:

“O tema dos data centers surgiu dentro de uma agenda em que o Rio passa a ser a capital do G20, tornando-se um ponto central para ampliar a presença de empresas e investimentos, somando-se aos grandes eventos de tecnologia, como o Web Summit”, disse o então secretário.

Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico, já ocorreram encontros com grandes players da indústria, como Microsoft e Amazon, com o objetivo de despertar o interesse de empresas de renome global em se estabelecer no Rio.

Chicão Bulhões ainda destacou “a recente redução de impostos para empresas de tecnologia, principalmente na área do Porto” como uma importante medida para atrair novos investimentos.

Além disso, afirmou que está sendo elaborado um plano de incentivos para a zona do Centro Metropolitano e que a prefeitura pretende firmar um acordo com a empresa responsável pelo fornecimento de energia para expandir a rede elétrica e criar as condições necessárias para abrigar novos data centers na região.

Na avaliação da JLL, trata-se de uma iniciativa ainda distante de se concretizar: “O distrito de data centers anunciado no Centro Metropolitano, em Jacarepaguá, parece ser ainda embrionário para uma avaliação. Existe um desejo da prefeitura, mas ainda não há clareza de quais incentivos vão ser aplicados ali nem estudos mais concretos de quais áreas dentro do Centro Metropolitano seriam mais adequadas a esse uso”, comenta Bruno Porto.

Porto do Açu, um projeto com infraestrutura energética sólida

Porto do Açu
– Porto do Açu

Em contraste, o plano para atrair investimentos para o Porto do Açu está mais avançado. Já foi firmado um acordo entre as partes envolvidas, iniciando os estudos de viabilidade para a instalação de data centers de até 1 GW no complexo, localizado no norte do estado. A iniciativa conta com a parceria do Porto do Açu, a Consag Engenharia, do Grupo Andrade Gutierrez, e a Vertin, controlada pela Consag.

De acordo com Frederico Moura, executivo de desenvolvimento de negócios do Porto do Açu, já foram confirmados os recursos necessários, como energia, água, conectividade e espaço, além de incentivos fiscais. Também foi estabelecido um acordo com uma grande operadora de energia renovável para calcular o custo esperado da energia (LCOE) para data centers, considerando as alternativas de fornecimento e os benefícios tributários disponíveis.

“Os principais operadores de data center avalizaram o potencial do Porto do Açu e estão evoluindo suas análises. Atualmente, estamos determinando o prazo de implantação, incluindo autorizações, licenciamento e construção, e acreditamos que esse processo será significativamente mais rápido do que em outras localidades no Brasil. Além disso, realizamos uma avaliação dos riscos de eventos climáticos extremos com o apoio de uma consultoria externa independente, que concluiu que a localização do Açu é favorável nesse aspecto, com variações limitadas nas próximas décadas, tanto em relação ao aumento do nível do mar, quanto a vento, ondas ou chuvas”, garante Frederico Moura.

Porto do Açu
– Porto do Açu

Outro fator que torna o Porto do Açu um local propício para a instalação de data centers é sua proximidade com os cabos submarinos da estação de aterragem da Embratel, em Atafona, no distrito de São João da Barra (RJ).

“Os investidores procuraram a gente, e já estamos em negociações com três possíveis investidores, pois se interessaram pelo projeto. 1 GW é uma capacidade significativa, então não deverá ser apenas uma empresa. A ideia é criar um condomínio de data centers, um campus”, revela Guilherme Odaguiri, Managing Director da Vertin.

A administração do porto afirma que já há “boas sinalizações de investimentos para 2025” e acredita que essa procura está sendo impulsionada pela crescente demanda por capacidade computacional voltada para inteligência artificial, além das condições favoráveis de infraestrutura e dos aceleradores de implementação que o porto oferece.

O complexo, único porto-indústria privado do Brasil, foi projetado para abrigar grandes instalações, muitas delas consideradas eletrointensivas. Suas condições energéticas, em particular, são um dos principais atrativos que o tornam um local estratégico para receber data centers.

Usina termelétrica UTE GNA I 1,3 GW
Usina termelétrica UTE GNA I, com 3,1 GW de capacidade – Porto do Açu

O Porto do Açu inclui a maior termelétrica a gás natural da América Latina, que tem 3,1 GW de capacidade já contratada, está interligada ao grid nacional e é responsável por dar segurança elétrica ao Brasil. O navio FRSU (Floating Storage Regasification Unit), que abastece essa usina, tem capacidade adicional de fornecimento de gás natural, que pode ser usada para alimentar geradores de data centers e, no futuro, será conectado ao Sistema Nacional de Gás para garantir fornecimento contínuo.

Além disso, existem projetos avançados de usinas solar e eólicas com capacidade de geração de até 3 GW.

Do ponto de vista da JLL, conforme Bruno Porto, esse projeto está mais próximo de se tornar realidade: “Avaliamos que o Porto do Açu dispõe de infraestrutura adequada para esse segmento, além de já contar com processos avançados em termos de licenciamento, instalação e incentivos. No entanto, atualmente, a região ainda não é o foco dos principais operadores, sendo apenas uma questão de tempo para que isso mude”.

Como explica Rogério Mariano, para que o Rio de Janeiro se posicione como um local atrativo para instalação de novos empreendimentos de data center, “é essencial estabelecer uma parceria público-privada sólida com foco na redução do custo da energia (megawatt), na oferta de incentivos fiscais — como o ato Cotepe do ICMS — e na criação de uma cadeia de valor capaz de atrair investimentos”.

Criar um ambiente favorável, juridicamente seguro e com baixa carga tributária permitirá ao Rio de Janeiro atrair projetos relevantes de data centers e iniciativas de cabos submarinos. Assim, o estado poderá consolidar o cenário ideal para aproveitar seu potencial e acompanhar o ritmo global da transformação digital.