O mercado está percebendo que é cada vez mais importante entender e saber lidar com o que há por trás dos dados, os metadados. Eles podem ser vistos como o "DNA dos dados", pela definição de Carlos Coneglian, CEO da CyberStorage. São eles que fornecem contexto, origem, ciclo de vida e regras de uso — elementos fundamentais para garantir segurança, governança, interoperabilidade e inteligência operacional.
Em uma outra analogia, Anderson Miguel, arquiteto de soluções de dados na GFT Technologies, explica que eles funcionam como o “sistema nervoso” de qualquer arquitetura de dados moderna. Descrevem os dados e são o alicerce para catalogação, rastreabilidade (linhagem de dados), conformidade regulatória e automação de políticas de segurança e governança.
Segundo a descrição de Cesar Gomes Gonçalves, vice-presidente da Cloudera para o Brasil, “metadados são os detalhes pertinentes e práticos sobre os ativos de dados: o que são, para que servem, com o que devem ser usados, como estão sendo utilizados, onde estão, quando foram criados e atualizados pela última vez, se são confiáveis etc”.
O protagonismo dos metadados em tempos de nuvem e IA
Não é por acaso que os metadados têm ganhado destaque na era da nuvem e da inteligência artificial. Eles deixaram de ser apenas uma documentação técnica, agora são a base para ecossistemas de dados e IA confiáveis e escaláveis. Eles desempenham um papel essencial para garantir transparência, rastreabilidade e conformidade regulatória no uso de modelos de IA em ambientes em nuvem.
Nesse contexto, Kevin Cochrane, Chief Marketing Officer da Vultr, considera que eles são “a espinha dorsal” que possibilita documentar e compreender todo o ciclo de vida de um modelo de inteligência artificial — desde a origem e as características dos dados utilizados, passando pelos parâmetros de treinamento e versões do modelo, até os contextos de sua implementação.
“Hoje, metadados não apenas descrevem os dados — eles governam, protegem e habilitam os dados. A ascensão de modelos como data fabric, data mesh e ambientes zero-trust consolidou os metadados como o componente mais estratégico da arquitetura de dados moderna”, afirma Carlos Coneglian.
A Gartner prevê que, até 2027, organizações que adotarem práticas proativas de gerenciamento de metadados reduzirão o tempo de entrega de novos ativos de dados em até 70%.
“Graças a uma gestão adequada de metadados, as organizações podem auditar como e por que um modelo tomou determinada decisão, identificar possíveis vieses ou desvios e garantir que os modelos estejam em conformidade com os padrões éticos e regulatórios vigentes. Isso é especialmente importante em setores sensíveis ou altamente regulados, como o financeiro, o de saúde e o setor público”, explica Kevin Cochrane.
Especialmente nos ambientes híbridos e distribuídos de hoje, a gestão de metadados também é indispensável para apoiar a soberania da informação.
“No setor público brasileiro, por exemplo, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), por meio da Instrução Normativa nº 5/2021 (IN 05/21), estabelece que, para utilização de soluções de computação em nuvem, não apenas os dados, mas também os metadados devem obrigatoriamente ser armazenados em território nacional. Essa exigência reforça a importância dos metadados como elemento de soberania informacional, assegurando que o governo mantenha controle e governança sobre informações estratégicas”, comenta Rafael Oneda, diretor de Tecnologia da Approach.
Os riscos de ignorar os metadados
Uma pesquisa conduzida pela Oomnitza em 2024 revelou que cerca de 46% das empresas enfrentaram um aumento significativo (10% ou mais) nos custos e atrasos em auditorias devido à má qualidade dos dados de inventário tecnológico. Além disso, 47% das organizações gastaram pelo menos 10% a mais do que o orçamento planejado para auditorias por conta de dados imprecisos e falta de automação nos processos. Empresas com 1.000 a 5.000 funcionários foram 27% mais propensas a experimentar esse aumento nos custos e atrasos.
“Operacionalmente, a falta de uma gestão adequada dificulta o rastreamento, a consistência e a interoperabilidade entre sistemas. Legalmente, aumenta o risco de não conformidade com regulamentações de privacidade e proteção de dados. Do ponto de vista estratégico, impede a geração de valor a partir dos dados, prejudicando a inovação e a competitividade. Sem metadados bem definidos, a confiabilidade da informação fica comprometida”, ressalta Eduardo Terzariol, Diretor de Cloud e Data Analytics da Logicalis Brasil.
O mau uso dos metadados pode acarretar riscos significativos, como silos de dados e baixa qualidade das informações. Sem uma governança adequada, as organizações podem perder a visibilidade sobre a linhagem dos dados, levando a análises e tomadas de decisão pouco confiáveis. “Estrategicamente, essa falta de confiança nos dados pode desacelerar a inovação e dificultar a adoção de iniciativas de IA e análises avançadas”, alerta Cesar Gomes Gonçalves.
“Uma gestão deficiente impede uma visão holística dos dados, afeta a confiabilidade da informação e compromete iniciativas de IA, BI (Business Intelligence) e automação, tornando a solução menos competitiva e confiável”, acrescenta Anderson Miguel.
Um estudo do IDC aponta que incidentes relacionados à má gestão de dados geram prejuízos de até US$ 3,1 trilhões por ano somente no mercado norte-americano, afetando gravemente a reputação, a confiança do mercado e os resultados financeiros das empresas.
“Em setores regulados ou no âmbito governamental, o risco é ainda mais crítico: a não observância de requisitos como a guarda adequada dos metadados pode comprometer a soberania da informação, gerar penalidades regulatórias severas e afetar a confiança pública”, diz Rafael Oneda.
O principal desafio está em lidar com arquiteturas distribuídas: “Em ambientes on-premise e cloud, a complexidade operacional aumenta. Apesar disso, o modelo híbrido é o mais adotado por permitir flexibilidade. O grande desafio está em manter o ambiente centralizado em termos de governança: com dados classificados, controlados e com acesso hierarquizado”, observa Thiago Spósito, sócio da Add Value.
Um exemplo do efeito prático da gestão de metadados vem da Healthesystems, uma provedora de gestão de benefícios farmacêuticos e auxiliares. A organização enfrentava uma crescente complexidade em seu ecossistema de dados, com pipelines distribuídos por diversas ferramentas e plataformas. “Entender a linhagem dos dados, rastrear mudanças e manter a conformidade era algo demorado e sujeito a erros — frequentemente levando dias ou até semanas para completar uma única tarefa”, destaca Cesar Gomes Gonçalves.
A Healthesystems implementou uma solução de inteligência orientada por metadados, que centralizou essas informações e proporcionou visibilidade total de seu ambiente de dados. Isso permitiu que suas equipes rastreassem instantaneamente a linhagem, entendessem dependências e realizassem alterações com confiança.
Como resultado, a empresa registrou uma redução de mais de 80% no tempo gasto com tarefas relacionadas a dados, além de melhorias significativas na acessibilidade, qualidade e conformidade regulatória. “Tarefas como identificar o impacto de uma alteração no esquema, que antes levavam dias, agora podiam ser feitas em minutos, liberando a equipe para se concentrar em iniciativas de maior valor”, completa Cesar.
E como devemos lidar com os metadados?
Thiago deixa claro o primeiro passo: “Muitas empresas ainda não classificaram adequadamente seus dados — o que impede a criação de políticas eficazes de backup, segurança e uso. Independentemente do tipo de dado, o primeiro passo é sempre entender o volume, classificar e, a partir disso, estabelecer políticas. Com a diversidade e o volume atual de dados, a ausência de soluções como tracking e DLP (Data Loss Prevention) expõe as organizações a riscos. Também é fundamental definir níveis de acesso, garantindo que apenas quem precisa tenha visibilidade sobre determinados dados”.
No entanto, a maioria das empresas ainda está longe de implementar capacidades avançadas na gestão de metadados. Estima-se que apenas entre 5% e 20% das organizações estejam automatizando esse processo, e menos de 5% adicionando inteligência a essa função.
A tendência, porém, é de que haja uma conscientização cada vez maior sobre esses cuidados:
“Muitos de nossos clientes estão priorizando os metadados como pilar central de suas estratégias de governança de dados e nuvem híbrida. Vemos um aumento no investimento em catálogos de dados, ferramentas de linhagem e soluções automatizadas de governança. Os clientes também estão formando equipes dedicadas à governança de dados, focadas em maximizar o valor dos dados ao mesmo tempo em que garantem a conformidade”, relata Cesar Gomes Gonçalves.
Estes são os pilares de uma boa estratégia de gestão de metadados em ambientes híbridos, segundo Carlos Coneglian, CEO da CyberStorage:
- Catalogação inteligente e contínua, com descoberta automatizada de ativos de dados.
- Governança federada, com políticas unificadas, mas flexíveis para múltiplas fontes.
- Segurança integrada e auditável, garantindo acesso baseado em perfil e rastreabilidade completa.
- Interoperabilidade com ecossistemas diversos, suportando APIs abertas e integração com ferramentas de backup, analytics, AI e compliance.
- Imutabilidade e rastreabilidade de blocos, algo que oferecemos como diferencial através de nossa arquitetura descentralizada e criptografada.
A gestão adequada dos metadados foi determinante para o êxito do processo pelo qual a Algar passou em março do ano passado, com a implementação de um sistema de hiperautomação com o uso de IA Generativa e RPA (automação robótica de processos) para revolucionar a gestão do ciclo de receita da empresa.
“Ter as informações organizadas e estruturadas com governança e segurança foi fundamental para poder desenvolver o projeto e ter sucesso na execução em produção. A Logicalis fez uma consultoria prévia referente ao ambiente dos dados da Algar e com isso ela pode se preparar para que o ambiente atendesse este projeto”, conta Eduardo Terzariol, Diretor de Cloud e Data Analytics da Logicalis Brasil.
O projeto impactou positivamente os segmentos corporativo e atacado ao reduzir o tempo de análise de faturas em 96%, passando de 31 minutos para apenas um minuto por fatura. Nos primeiros meses, foram gerados R$ 2 milhões em ganhos de Opex (despesas operacionais da organização).
Uma boa gestão dos metadados se tornou uma necessidade estratégica, não apenas para evitar riscos legais e de conformidade, mas também para garantir eficiência operacional, apoiar a tomada de decisões assertivas e fortalecer a competitividade das empresas ao explorar todo o potencial da nuvem e da inteligência artificial.
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