Um economista no comando da TI do Ceará

Daniel Bentes não é o perfil convencional de um gestor de tecnologia pública. Economista de formação, com mestrado em Administração e doutorando em Inteligência Artificial, ele acumula trajetória no mercado privado, incluindo passagens pelo setor de telecomunicações, e é professor universitário na UNIFOR. Mas há pouco mais de um ano, aceitou o desafio de assumir a Secretaria Executiva de Modernização e Governo Digital da SEPLAG (Secretaria de Planejamento e Gestão) do Estado do Ceará. No evento .NEXT Nutanix, em Chicago, Daniel falou com a imprensa especializada brasileira sobre sua experiência na gestão pública e como o Estado usa a tecnologia a favor da população.

"Eu vim do mercado privado e conhecia bem a estrutura de tecnologia do Estado", conta Bentes. "Mas quando fui convidado pelo secretário, o Dr. Alexandre, falei: Quero liberdade para poder mudar um pouco o formato em que as coisas acontecem”. Essa liberdade foi concedida e, segundo ele, os resultados estão aparecendo de forma cada vez mais concreta.

A SEPLAG ocupa uma posição estratégica no governo cearense: é um órgão que atende a todos os demais órgãos e é responsável por estabelecer as diretrizes tecnológicas do estado. Isso, porém, também representava um risco. "Não adianta criar leis mortas", afirma o secretário. "De nada serve criar regras de segurança da informação se elas não forem viáveis na prática para as secretarias."

A virada de chave: população no centro, tecnologia como meio

A primeira ação de Bentes ao chegar à SEPLAG foi ouvir. Ele percorreu as secretarias do estado, apresentou-se pessoalmente e perguntou o que cada área precisava, não o que a SEPLAG queria impor. "Fui me apresentar, falar: "O que é que vocês estão fazendo? Como é que a gente podia ajudar?" O movimento foi proposital: quebrar a barreira política entre órgãos e construir diretrizes tecnológicas de forma colaborativa.

Junto com a Casa Civil, a SEPLAG iniciou um processo de mapeamento de problemas antes de abordar a questão da tecnologia em si. "Em momento nenhum a gente falou de tecnologia. A gente falou do problema da população", ressalta. Esse princípio norteador permitiu identificar onde investir com maior retorno social e econômico.

Com financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) por meio do programa "Ceará Mais Digital", o estado passou a direcionar recursos de forma estratégica, priorizando projetos com impacto direto e mensurável para o cidadão.

Cases concretos: matrícula escolar, saúde e alimentação popular

Um dos resultados mais emblemáticos desse modelo foi a digitalização das matrículas escolares da rede estadual. Antes, famílias formavam filas desde as 2h da manhã para garantir vagas nas escolas. Em dezembro de 2025, 100% das matrículas foram realizadas por meio de uma aplicação desenvolvida internamente pela própria equipe da SEPLAG, a um custo significativamente menor do que o de soluções cotadas anteriormente no mercado. "A aplicação vai rodar na infraestrutura da Nutanix", antecipou Bentes. "E foi feita muito rápido, a um décimo do que tinham cobrado antes, o que acabou gerando um desespero real entre as famílias cearenses."

Na área da saúde, o aplicativo do governo estadual já integra o histórico completo de atendimentos de cidadãos em hospitais públicos. "A pessoa que foi atendida em hospital público tem todos os médicos por quem passou, todo o histórico de saúde na palma da mão", descreve o secretário.

Outro exemplo citado por Bentes é o sistema desenvolvido para gerenciar as mais de 1.500 cozinhas comunitárias do estado, que atendem 100 pessoas cada. A plataforma obriga ao registro fotográfico das refeições servidas, com identificação automática dos macronutrientes, garantindo que a alimentação oferecida à população carente seja a correta e rastreável.

Por que a Nutanix?

Com quase 95% dos sistemas da SEPLAG rodando na nuvem pública, como herança de decisões anteriores, os custos operacionais tornaram-se insustentáveis. Foi nesse contexto que a equipe técnica do secretário apresentou a Nutanix como alternativa.

Bentes admite que sequer conhecia a empresa antes disso. "Eu fui conhecer a Nutanix porque minha equipe me apresentou. Depois fui ouvir os outros estados da rede do programa Ceará Mais Digital. Todo mundo indicou; ninguém reclamou." A validação por pares, realizada por secretários de outros estados com realidades semelhantes, pesou fortemente na decisão.

Daniel CE
Daniel Bentes – Nutanix

Do ponto de vista técnico, a proposta de infraestrutura hiperconvergente da Nutanix respondeu a um problema crônico do setor público: múltiplos fornecedores, cada qual responsável por uma parte diferente do ambiente, sem integração e sem clareza de responsabilidade quando surgem problemas. "Quando dá problema, todo mundo aponta pro lado", critica Bentes. "A hiperconvergência resolve isso: na mesma máquina, com a mesma solução, você resolve um bocado de coisas, tudo junto."

A modularidade da solução também foi decisiva. O secretário faz questão de deixar claro que não houve imposição às demais secretarias. "Quem já tem sua infraestrutura pode continuar nela. Só que naturalmente as outras secretarias já estão me ligando perguntando: Daniel, quando esse negócio vai estar no ar, porque eu quero entrar nesse pacote."

Soberania de dados e nuvem híbrida: o modelo cearense

A estratégia do Estado não é de ruptura com a nuvem pública. "Em momento nenhum a gente pensou: vamos tirar tudo da Google e da AWS e colocar na nossa rede privada. Isso é loucura", afirma Bentes. O modelo adotado é híbrido, com cargas de trabalho migrando progressivamente para a infraestrutura on-premise da Nutanix, especialmente as de maior sensibilidade de dados ou de custo elevado na nuvem pública.

A soberania dos dados é um ponto estratégico. "Nossos dados vão estar todos à nossa mão agora", comemora. "Isso é muito relevante do ponto de vista da segurança e da independência do Estado." A previsão é que as secretarias possam tanto comprar seus próprios equipamentos e instalá-los no data center da ETICE (Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará) quanto simplesmente aderir aos serviços compartilhados oferecidos pelas máquinas já instaladas.

O governo estadual não está sozinho nessa jornada. O Tribunal de Justiça do Ceará já utiliza infraestrutura Nutanix há mais tempo, assim como outros órgãos estaduais. A consolidação em torno da tecnologia hiperconvergente segue, portanto, uma lógica de ecossistema, não de uma iniciativa isolada.

Data Centers no Ceará

Daniel Bentes apresenta a discussão sobre data centers a partir de uma agenda de modernização da gestão pública e de estímulo ao desenvolvimento econômico do Ceará. Segundo ele, a tecnologia deve ser tratada como um instrumento para melhorar a prestação de serviços à população, e a infraestrutura de dados é um componente central desse processo.

O secretário destaca que o Ceará reúne vantagens estratégicas para a instalação de data centers. Entre os fatores mencionados estão a posição geográfica do estado, que funciona como ponto de entrada de cabos internacionais de fibra óptica; o Cinturão Digital, rede pública que conecta todos os municípios; e a elevada capacidade de geração de energia, superior ao consumo local. Bentes também cita novos empreendimentos previstos para o estado, incluindo a instalação de um grande data center do TikTok no Complexo do Pecém e o Mega Lobster da Tecto Data Centers, empresa do grupo V.tal, na Praia do Futuro, em Fortaleza, considerado o maior data center da região Nordeste. Ele afirma que estudos técnicos já foram realizados sobre o sistema de resfriamento dessas estruturas e nega que o consumo de água represente risco ao abastecimento de Fortaleza.

Em relação ao modelo de operação, o secretário defende uma estratégia de nuvem híbrida. Ele considera inviável retirar completamente os serviços das nuvens públicas, como Google ou AWS, mas reforça a necessidade de manter uma rede privada para assegurar soberania e controle sobre os dados governamentais. Atualmente, cerca de 95% dos sistemas da Secretaria do Planejamento (SEPLAG) operam na nuvem pública, o que acarreta custos elevados. Para reduzir despesas, o Estado está investindo em servidores hiperconvergentes da Nutanix, que permitem consolidar múltiplas soluções em uma única máquina e facilitam a migração de aplicações para infraestrutura própria.

Bentes também relaciona a expansão de data centers ao impacto social e ao fortalecimento do ecossistema de inovação. Ele observa que o Ceará forma muitos profissionais de tecnologia, impulsionado pelas universidades estaduais e pela chegada do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e afirma que a criação de um distrito de inovação pode gerar empregos qualificados e reduzir a saída de talentos para outros estados.

Por fim, o secretário ressalta que a tecnologia adotada pelo governo, baseada em soluções da Nutanix, é modular. Esse modelo permite que outras secretarias se integrem gradualmente à infraestrutura centralizada da ETICE, ampliando a escala, reduzindo os custos de manutenção e promovendo maior padronização dos serviços digitais do estado.

Interoperabilidade real e o "Cidadão 360"

Um dos projetos mais ambiciosos em curso na SEPLAG é o que Bentes denomina "Cidadão 360". A iniciativa já cruzou dados de 500 mil CPFs de cidadãos cearenses, consolidando informações de bases estaduais e federais (benefícios, programas sociais, saúde, educação) para identificar quem tem direito a determinado serviço, mas ainda não o acessa.

A visão de longo prazo é que o aplicativo do governo estadual se torne proativo: ao abrir o app, o cidadão seria informado: "Senhor Daniel, o senhor tem direito ao benefício X e não está recebendo. Clique aqui para se inscrever." O sistema ainda deverá se adaptar ao perfil de cada usuário, apresentando interfaces distintas para um jovem de 14 anos interessado em esportes e para um adulto de 50 anos com outras necessidades.

Suportando tudo isso, há uma rede de interoperabilidade que o secretário descreve como real e funcional. "Nossa interoperabilidade está funcionando e traz benefícios reais pro estado." Para garantir sua expansão, a SEPLAG deve publicar, nos próximos dias, um padrão mínimo de desenvolvimento de software, obrigando todos os sistemas, desenvolvidos tanto por equipes internas quanto por fábricas de software contratadas, a expor APIs compatíveis com a plataforma de interoperabilidade.

IA com sotaque cearense: o projeto CEIA

As máquinas Nutanix adquiridas pelo Estado virão equipadas com oito GPUs, e o uso para inteligência artificial já está em fase de planejamento. A SEPLAG tem um conjunto de soluções de IA desenvolvidas internamente que nunca puderam ser colocadas em produção devido à falta de infraestrutura adequada na nuvem privada. Com a chegada dos servidores hiperconvergentes, esse gargalo deve ser eliminado.

Um dos projetos mais simbólicos é a CEIA, a IA do Ceará. Desenvolvida em parceria com universidades por meio do programa Cientista Chefe, trata-se de um modelo de linguagem treinado com informações públicas estaduais e adaptado à cultura e ao vocabulário cearense, incluindo expressões regionais. "A ideia é ter uma IA treinada, capaz de ajudar o pessoal, bem específica para as coisas do Estado, até com cearensês", brinca Bentes. O objetivo é reduzir a distância entre o cidadão e os serviços públicos, tornando a comunicação mais empática.

O ecossistema de inovação e os data centers internacionais

O Ceará dispõe de vantagens competitivas únicas para se tornar um hub tecnológico nacional e internacional. É o principal ponto de chegada de cabos submarinos de fibra óptica no Brasil: toda a conectividade internacional que entra no país passa pela Praia do Futuro, em Fortaleza. O estado também possui a maior rede pública de fibra óptica do país, o Cinturão Digital, que conecta todos os municípios cearenses.

Esses fatores atraíram investimentos expressivos, incluindo um grande data center do TikTok no estado. O secretário destaca que as preocupações com resfriamento e sustentabilidade ambiental foram objeto de estudos específicos conduzidos pela ETICE e que o impacto hídrico sobre Fortaleza, tema de boatos, não corresponde à realidade do projeto.

Para que esses data centers se conectem ao desenvolvimento local, o estado planeja um Distrito de Inovação que leve formação tecnológica para além da capital. O Ceará conta com três universidades estaduais e tem o ITA inaugurando operações na região. "A gente forma muita gente de TI, mas muita gente vai embora do Ceará", lamenta Bentes. O objetivo é criar condições para que esse talento permaneça e trabalhe localmente.

Gestão sem interferência política e documentação para o futuro

Em um ambiente em que decisões técnicas frequentemente são capturadas por interesses políticos, Bentes faz questão de sublinhar a autonomia de que tem desfrutado. "Nós não temos nenhuma interferência política nas decisões que a gente toma. Isso é muito legal." O secretário tem comunicação direta com o governador e com o secretário da Casa Civil, mas dentro de uma relação baseada na transparência, não em subordinação técnica.

Consciente de que os ocupantes de cargos públicos são temporários, o secretário tem como prática sistematizar e documentar tudo o que é construído. "Eu digo que sou o Daniel da vez. Daqui a pouco vai ter outro Daniel sentado na minha cadeira. Então, estou documentando tudo, deixando o mais mastigado possível para quem vier depois de mim." A abordagem reflete uma maturidade de gestão que o gestor herdou do setor privado e adaptou ao ambiente público.

"A parte viciante do serviço público é quando você começa a construir, a ver as coisas dando certo, a ver o prontuário do cidadão no celular", conclui Bentes. "É muito legal." Para um economista que aprendeu a programar aos 44 anos, o governo digital não é um fim em si mesmo, e sim o meio mais eficaz para garantir que cada real investido pelo Estado chegue de fato à população que mais precisa.