A trajetória profissional de Nelson Leoni até se tornar o CEO da empresa brasileira de inteligência artificial WideLabs é marcada por recomeços, resiliência e busca constante por impacto social. Em entrevista à DCD, o executivo detalhou sua história pessoal, a evolução da empresa e sua visão sobre o desenvolvimento da inteligência artificial no Brasil — especialmente no setor público.

A relação de Leoni com a tecnologia surgiu de modo bem sui generis. Formado como oficial do Exército pela Academia Militar das Agulhas Negras, ele participou da missão de paz brasileira no Haiti. Durante a operação, acabou ferido em combate por um disparo de fuzil AK-47, o que mudou drasticamente sua trajetória.

Nelson Leoni, CEO da WideLabs
Nelson Leoni, CEO da WideLabs – Divulgação

Após um longo processo de reabilitação, que durou cerca de dois anos e meio, Leoni precisou redefinir seu caminho profissional ainda jovem. “Eu tinha 29 anos e precisava recomeçar. Naquele momento, as redes sociais estavam começando a ganhar força e eu entendi que, se estudasse e entrasse nessa área, poderia competir em pé de igualdade com qualquer pessoa”, relembra.

A decisão o levou ao mercado de comunicação digital, onde construiu carreira na área de publicidade e marketing. O passo seguinte foi assumir, em 2015, o cargo de chefe de comunicação digital do UNICEF no Brasil. Posteriormente, foi promovido a chefe global de engajamento digital da organização em Nova York. Nesse período, teve contato mais direto com inteligência artificial. Um dos projetos conduzidos pelo executivo utilizou ferramentas de machine learning e chatbots no Facebook Messenger para apoiar jovens vítimas de violência sexual online. A iniciativa impactou cerca de 1,5 milhão de jovens.

Do impacto social ao empreendedorismo em IA

Mesmo com uma carreira consolidada no exterior, Leoni decidiu deixar o cargo internacional e voltar ao Brasil para empreender. A decisão foi tomada pouco antes da pandemia de Covid-19. Nessa época, surgiu o projeto Pigrapher, uma solução baseada em IA voltada a pacientes com Alzheimer. A tecnologia entrevistava o paciente e seus familiares, reunia histórias de vida e as reescrevia em primeira pessoa, além de sintetizar digitalmente a voz do próprio paciente.

Embora inicialmente tenha sido considerado inviável por muitos especialistas, o projeto ganhou forma após a parceria com os futuros sócios da empresa. A iniciativa acabou recebendo reconhecimento internacional, incluindo um Leão no Festival de Cannes, além de chamar a atenção da fabricante de chips de IA, a NVIDIA.

O projeto serviu de base para a criação da WideLabs, empresa focada no desenvolvimento de soluções avançadas de inteligência artificial.

IA no Brasil: maturidade crescente

Na avaliação de Leoni, o Brasil não está tão atrasado na adoção de inteligência artificial quanto se costuma imaginar. “Temos um complexo de inferioridade tecnológico muito forte, mas o Brasil está no primeiro pelotão global. Nos Estados Unidos, na China e em alguns países europeus, o avanço é maior, mas não estamos distantes”, afirma.

Ele destaca que o país se tornou referência em IA na América Latina e aponta uma mudança recente na forma como empresas e governos lidam com a tecnologia. Segundo Leoni, há cerca de dois anos, muitas organizações buscavam IA apenas por pressão corporativa ou por tendência de mercado. Hoje, no entanto, a adoção tem sido mais estratégica.

Setor público como grande oportunidade

Um dos principais focos da WideLabs atualmente é o desenvolvimento de soluções para o setor público. Leoni afirma que a maturidade de alguns órgãos é surpreendente. Ele cita como exemplo a estatal de tecnologia previdenciária Dataprev, que, em sua avaliação, demonstra alto grau de profissionalização e clareza em relação às suas demandas tecnológicas.

Para Nelson Leoni, a inteligência artificial tem potencial para transformar processos administrativos marcados pela burocracia e pela análise manual de documentos. “Grande parte do trabalho no setor público envolve a análise de dados e processos. Hoje isso ainda é feito manualmente. Com IA, o sistema pode analisar centenas de casos automaticamente e deixar apenas as decisões finais para o ser humano”, explica.

Esse modelo, afirma, permite que os servidores atuem mais como tomadores de decisão do que como executores de tarefas repetitivas.

Soberania de dados e infraestrutura local

Outro ponto considerado crítico por Leoni é a soberania tecnológica. Para ele, os governos precisam evitar a dependência excessiva de modelos de IA hospedados em outros países. “O mundo não vive um momento geopolítico estável. Se um país depende de um modelo estrangeiro e esse serviço é interrompido, isso pode afetar sistemas críticos”, afirma.

Por isso, ele defende que soluções estratégicas sejam executadas em infraestrutura controlada localmente, seja em nuvens nacionais ou em data centers próprios.

A proposta da “fábrica de IA”

Para atender esse tipo de demanda, a WideLabs desenvolveu o conceito de fábrica de IA soberana. A proposta é oferecer às organizações uma estrutura completa para desenvolvimento, treinamento e operação de modelos. Nesse modelo, os clientes não precisam lidar diretamente com múltiplas APIs ou fornecedores de tecnologia. A empresa desenvolve modelos proprietários, cria sistemas de governança e mantém a evolução contínua das soluções.

Amazônia e Patagônia: modelos regionais de IA

Entre os projetos mais conhecidos da empresa está o Amazônia, um conjunto de modelos de linguagem voltado ao português e ao contexto cultural brasileiro.

Diferentemente de grandes LLMs globais, o Amazônia foi desenvolvido com foco em dados locais, na cultura e na linguagem do país. Segundo Leoni, o projeto evoluiu para um ecossistema com mais de 20 modelos, incluindo sistemas de transcrição de áudio em português que, segundo ele, estão entre os mais avançados do mundo no idioma.

A experiência também inspirou iniciativas semelhantes em outros países. No Chile, por exemplo, a empresa colaborou no desenvolvimento do modelo Patagônia, criado com dados e referências culturais chilenas em parceria com instituições locais, como a Universidad de Chile. “Cada país precisa de soluções que representem sua própria cultura e linguagem”, afirma.

Para o executivo, um dos princípios centrais da empresa é “humanizar” a inteligência artificial. Isso significa desenvolver tecnologia com foco direto nos usuários finais, especialmente nos cidadãos que dependem de serviços públicos ou de sistemas sociais.

Impacto no mercado de trabalho

Sobre os efeitos da IA no emprego, Leoni reconhece que as transformações são inevitáveis, mas rejeita visões apocalípticas. Ele compara o momento atual às revoluções industriais anteriores, nas quais algumas profissões desapareceram enquanto outras surgiram.

“A IA não vai substituir médicos, mas o médico que não souber usar IA pode ficar para trás”, afirma. Para ele, profissionais de praticamente todas as áreas precisarão aprender a trabalhar com essas ferramentas para aumentar a produtividade e competitividade.

Ao refletir sobre sua própria trajetória, Leoni aponta a resiliência como uma característica essencial para empreendedores. Ele lembra que, nos primeiros anos da empresa, houve momentos em que apenas ele acreditava que o projeto daria certo. “Empreender é seguir acreditando mesmo quando as coisas parecem impossíveis”.

Personas Brasil e a criação de 6 milhões de perfis sintéticos

Um dos projetos recentes da WideLabs é o Personas Brasil, um conjunto de 6 milhões de personas sintéticas criado para representar a diversidade da população brasileira e ajudar no desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial mais contextualizadas.

Segundo Leoni, a ferramenta permite que empresas e desenvolvedores adaptem modelos de IA ao contexto social e cultural do país. O projeto foi desenvolvido em parceria com a fabricante de chips e de tecnologias de IA, a NVIDIA. “Ele permite captar a diversidade e a riqueza da população brasileira. Cada persona tem mais de 20 atributos, como gênero, idade, escolaridade, estado civil e histórico social”, explica o executivo.

O conjunto de dados também ganhou destaque internacional. De acordo com Leoni, o Personas Brasil já ultrapassou 7.800 downloads robustos, superando outras versões da mesma iniciativa lançadas em países como Estados Unidos, Japão, Índia e Singapura.

A iniciativa faz parte da plataforma Nemotron Personas, da Nvidia, e representa o primeiro caso em que a empresa norte-americana desenvolveu o projeto em parceria com um agente externo.

Aplicações vão de treinamento de modelos a testes de mercado

Na prática, o Personas Brasil pode ser utilizado em diferentes camadas de desenvolvimento de inteligência artificial. A primeira aplicação é ajudar a adaptar modelos open source estrangeiros ao contexto brasileiro, incorporando características sociais, linguísticas e culturais do país. “Ele permite dar uma ‘cara de Brasil’ a modelos treinados em outros contextos”, afirma Leoni.

Outra aplicação relevante está no treinamento de sistemas de atendimento automatizado, como chatbots e assistentes digitais. Segundo o executivo, muitos sistemas conversacionais reproduzem um padrão cultural limitado.

“Muitas vezes, a linguagem desses sistemas parece a de uma pessoa branca, de classe média, de São Paulo, com cerca de 30 anos. Isso não representa a diversidade do Brasil”, explica. Com as personas sintéticas, os desenvolvedores podem treinar sistemas capazes de interagir com usuários de diferentes regiões e perfis sociais, aumentando a sensação de identificação e pertencimento.

IA personalizada por região e perfil

O conceito de personalização tende a se tornar cada vez mais central no desenvolvimento de inteligência artificial, avalia Leoni. Os sistemas do futuro serão capazes de adaptar sua comunicação e funcionamento a contextos extremamente específicos — não apenas entre estados ou regiões, mas até dentro de uma mesma cidade.

Essa capacidade de segmentação também pode ser utilizada por empresas para testar produtos e serviços em ambientes simulados, com públicos sintéticos que reproduzem características demográficas reais.

Parceria com universidades e formação de talentos

Outro ponto destacado pelo CEO é a relação da empresa com instituições acadêmicas. A WideLabs mantém parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), considerada por Leoni uma das referências em pesquisa de inteligência artificial na América Latina. A colaboração envolve programas de estágio, projetos de pesquisa conjuntos e a participação de pesquisadores em iniciativas da empresa.

“Grande parte dos nossos talentos vem da universidade. Temos, inclusive, estágios em nível de PhD”, diz Leoni. Segundo o executivo, a interação entre pesquisadores acadêmicos e engenheiros de tecnologia é essencial para inovação. Enquanto os pesquisadores contribuem com conhecimento teórico e desenvolvimento de novas técnicas, as equipes de engenharia garantem velocidade de implementação e entrega de soluções no mercado.

Escassez global de especialistas em IA

Apesar do crescimento da formação de profissionais no país, Leoni afirma que a demanda por especialistas em inteligência artificial permanece maior do que a oferta.

A WideLabs, por exemplo, está em expansão e abriu cerca de 20 novas vagas recentemente. “Temos muitos talentos bons saindo das universidades, mas ainda vai faltar gente. Isso não é um problema só do Brasil; é global”.

Para lidar com esse cenário, a empresa aposta na formação interna de profissionais, recrutando talentos promissores e desenvolvendo suas habilidades na organização. Segundo Leoni, o modelo também contribui para a retenção de profissionais. Antes de buscar alguém no mercado, a ideia é sempre olhar primeiro para dentro da própria empresa.

Propósito e cultura como estratégia de retenção

A retenção de talentos é um dos desafios mais debatidos no setor de tecnologia. No caso da WideLabs, o executivo afirma que a cultura organizacional tem sido um diferencial. Além de remuneração competitiva, a empresa busca envolver os funcionários em projetos com impacto social e relevância pública.

Não é possível reter talento apenas com salário. O propósito da empresa, o ambiente de trabalho e o protagonismo que as pessoas têm nos projetos fazem muita diferença. Segundo ele, o turnover da empresa ainda é baixo, e muitas saídas ocorrem por oportunidades acadêmicas internacionais, como pós-doutorados.

Setor público como motor de adoção

Na visão de Leoni, o setor público possui uma vantagem importante em relação à iniciativa privada na aplicação de inteligência artificial: o conhecimento claro de seus problemas estruturais. Muitos dos desafios enfrentados pela administração pública — como análise de documentos, filas administrativas e processos burocráticos — são conhecidos há décadas.

O que faltava, segundo ele, era tecnologia capaz de resolver esses problemas em escala. Agora, existe uma fórmula que permite aumentar a eficiência, reduzir custos e ainda melhorar o serviço à população.

Brasil como exportador de IA

Com projetos já em operação no exterior, a WideLabs aposta no Brasil como futuro exportador de tecnologia em inteligência artificial. Um exemplo é o modelo Patagônia, desenvolvido no Chile com base na experiência adquirida no projeto Amazônia, o ecossistema de modelos de linguagem da empresa voltado ao português e ao contexto brasileiro. Para Leoni, a expansão internacional da empresa deve concentrar-se inicialmente na América Latina.

O Brasil consolidou-se como referência na região, impulsionado por seu amplo mercado consumidor, pelo grande volume de dados disponíveis e pela experiência acumulada na execução de projetos de alta complexidade. E Nelson Leoni afirma que o objetivo estratégico da WideLabs é ser referência em IA soberana na América Latina e no Hemisfério Sul.

Motivação e visão de futuro

Por fim, Leoni destacou que sua principal motivação como empreendedor continua sendo o impacto social da tecnologia. Ele afirma que a inteligência artificial oferece uma oportunidade rara de desenvolver soluções capazes de transformar serviços públicos e melhorar a vida de milhões de pessoas.

Para o executivo, a jornada da WideLabs ainda está apenas começando — e o maior desafio será continuar a expandir a tecnologia brasileira para o mundo.