Com o consumo de energia cada vez maior e metas ambientais mais rigorosas, os data centers estão em busca de soluções mais limpas e inteligentes para garantir continuidade operacional. Nesse cenário, o BESS (Battery Energy Storage System, ou Sistema de Armazenamento de Energia por Bateria) desponta como uma solução para substituir, complementar ou reduzir o uso dos tradicionais geradores a diesel.

Muito mais do que uma simples bateria, o BESS integra baterias de íons de lítio, inversores, sistemas de gestão térmica e software de controle para armazenar energia elétrica, gerenciá-la de forma inteligente e facilitar sua integração com fontes de energia renovável, como a solar e a eólica.

O uso dessa solução nesses ambientes críticos abre caminho para uma mudança promissora. Hoje, a maioria dos data centers depende de geradores a diesel como backup em caso de falha na rede elétrica. Com o BESS, essa resposta pode ser instantânea, silenciosa e limpa. Sem emissões. Sem tempo de partida. Sem combustível fóssil.

A DCD ouviu especialistas do setor de data center para entender quais são os benefícios e desafios reais da implementação desses sistemas. Sobretudo, a intenção é conhecer o potencial do BESS para reduzir o uso de diesel em data centers.

Quais são os principais benefícios da adoção do BESS em data centers?

Juan Pérez-Tinao, Business Development, CEN Solutions

O uso do BESS já está amplamente difundido em países com políticas energéticas voltadas para o desenvolvimento da geração renovável, pois contribuem para a integração dessas fontes ao sistema elétrico.

Exemplos disso são os Estados Unidos e a Austrália, onde foram instalados sistemas de grande porte, acoplados diretamente a usinas fotovoltaicas ou como sistemas independentes (stand-alone), com o objetivo de reforçar a integridade da rede elétrica. Ao melhorar a penetração da geração renovável, esses sistemas auxiliam na descarbonização e na redução das emissões de CO₂.

Por outro lado, existem sistemas de armazenamento com tempos de resposta mais curtos, que permitem uma conexão rápida à instalação, evitando quedas de energia e, assim, cumprindo a mesma função que um gerador a diesel — com a vantagem adicional de reduzir as emissões e o consumo de combustíveis fósseis.

No caso dos data centers, os casos de uso mencionados são de grande importância para sua descarbonização e, consequentemente, para a redução das emissões de CO₂ da instalação.

Huawei Espanha

O uso do BESS em centros de dados traz diversos benefícios. Principalmente, oferecem modularidade e escalabilidade ao elemento de backup de energia, que tradicionalmente tem sido fornecido por geradores a diesel.

À medida que os data centers aumentam sua capacidade — impulsionados pela crescente demanda gerada por ambientes de inteligência artificial — operar dezenas ou até centenas de megawatts com geradores a diesel torna-se um verdadeiro desafio. Os sistemas BESS proporcionam modularidade, simplicidade nas operações e redução dos custos operacionais.

Além disso, se a carga dos sistemas BESS for proveniente de geração renovável, contribui-se para a eliminação da pegada de carbono e para a redução da poluição atmosférica nos centros de dados, já que se evita a queima de diesel como fonte de energia de backup. Também se elimina a necessidade de armazenar grandes quantidades de diesel e todos os riscos e exigências associados a isso.

Na situação atual, é provável que os sistemas BESS ainda não possam fornecer 100% do backup necessário, sendo assim, um ambiente híbrido pode representar um primeiro passo na sua adoção.

Fernando Leamari, Electrical Engineer da Deerns Brasil

Os principais benefícios são os seguintes:

  • Redução ou substituição da utilização dos geradores a diesel, eliminando a necessidade de grandes áreas de armazenamento de óleo diesel;
  • Durante o fornecimento de energia pelo sistema BESS não há emissão de CO₂ no ambiente;
  • Utilizar fontes renováveis para realizar e/ou contribuir para o carregamento das baterias, assim reduz o custo kWh para carregar as baterias;
  • O sistema BESS trabalhando em conjunto com fornecimento de energia da concessionária pode evitar distúrbios no fornecimento para cargas que não estão conectadas a no-breaks;
  • É um sistema modular que pode aumentar ou diminuir a potência conforme a demanda, além de facilitar a substituição de seus componentes.

Philippe Coura Vivia, diretor de operações da Elea Data Centers

A Elea Data Centers acompanha, de forma estratégica e contínua, as inovações que promovem a sustentabilidade e a resiliência da infraestrutura digital no Brasil. Entre elas, o BESS vem se destacando, especialmente na transição energética global e da crescente integração de fontes renováveis.

A adoção de BESS nos data centers permite maior independência em relação a geradores a diesel, possibilitando uma operação mais limpa e alinhada às metas de descarbonização e ESG. Além disso, tecnologias de armazenamento como o BESS viabilizam práticas como o peak shaving, otimizam o uso da energia e aumentam a resiliência frente a instabilidades da rede elétrica ou em picos de demanda — aspectos cada vez mais relevantes frente aos desafios climáticos.

A evolução das baterias também reforça o potencial do BESS. Novos produtos químicos para baterias que não sejam de lítio estão sendo desenvolvidos. Por exemplo, as químicas de íons de sódio e de metal-ar que utilizam materiais abundantes, como alumínio, ferro e zinco. Essas soluções oferecem caminhos promissores para ganhos de densidade energética, redução de custos e sustentabilidade de longo prazo.

Qual é o potencial de impacto do uso do BESS na receita de data centers?

Alex Sasaki, vice-presidente de vendas da Vertiv para a América Latina

Os sistemas BESS têm diferentes modos de uso, e desses modos dependerão os retornos de investimento e seu impacto na receita do data center. Por exemplo, um sistema BESS pode ser usado como energia de backup para reduzir ou eliminar o uso de geradores. Pode, também, ser usado como estratégia para suportar picos no consumo de energia.

Outra possibilidade é seu papel em um sistema integrado em uma microrrede para uso prolongado (várias horas). Há um grande potencial de monetização por venda de energia disponível, podendo ser utilizado em aplicações após o ponto de medição de energia do cliente (Behind the Meter - BTM) ou antes do ponto de medição de energia do cliente (Front of the Meter - FTM).

Considerando corretamente essas variáveis na análise técnico-econômica, os sistemas BESS são soluções que não só melhoram os retornos de investimento, mas também a receita dos data centers, além de contribuir para os objetivos de redução de emissões de CO2e.

Huawei Espanha

Se integrarmos o sistema BESS juntamente com um sistema de alimentação ininterrupta em média tensão, conseguiremos simplificar a arquitetura de potência, reduzindo perdas, facilitando a operação e a manutenção, ao mesmo tempo em que reduzimos os custos de investimento inicial.

Além disso, os sistemas BESS permitem a aplicação de políticas inteligentes de consumo de energia, possibilitando o uso da energia armazenada para reduzir os custos operacionais — escolhendo quando carregar as baterias a partir da rede (em horários de autogeração ou com tarifa mais baixa) e quando descarregá-las (em horários de tarifa mais alta) —, contribuindo não só para a economia na conta de energia, mas também fornecendo backup energético.

Fernando Leamari, Electrical Engineer da Deerns Brasil

O primeiro impacto está relacionado à redução de custos com sistemas de armazenamento, filtragem e manutenção de diesel para os geradores. Isso também se reflete em menor necessidade de investimentos em projetos, licenças e cuidados ambientais.

Outro ponto relevante é que, ao utilizar energia solar para carregar o BESS durante o dia, é possível fornecer energia no horário de ponta, reduzindo significativamente os custos com eletricidade e, consequentemente, aumentando a receita do data center.

Juan Pérez-Tinao, Business Development, CEN Solutions

No caso da substituição de um gerador a diesel, o sistema de armazenamento, por si só, contribui para a estabilidade e a segurança do fornecimento de energia. Assim, a principal melhoria não está tanto nos lucros diretos do data center, mas sim na própria eficiência energética, com a redução de emissões, complementada pela segurança no fornecimento que o sistema pode proporcionar.

No caso de sistemas associados à geração renovável, a situação é semelhante em termos de ganho de eficiência pela redução das emissões de CO₂.

Philippe Coura Vivia, diretor de operações da Elea Data Centers

Em termos de investimento, o custo de implantação de sistemas BESS ainda pode ser elevado, especialmente quando comparado a soluções amplamente utilizadas em diferentes mercados, testadas e otimizadas. O retorno financeiro depende diretamente do modelo de operação adotado, do perfil de carga, da regulamentação do setor elétrico e da possibilidade de participação em mercados de energia.

Como você avalia a adoção do BESS em data centers nos últimos anos? Já é uma tecnologia que está ganhando espaço no mercado?

Alex Sasaki, vice-presidente de vendas da Vertiv para a América Latina

O mercado de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) para data centers foi avaliado em USD 1.630 milhões em 2024. De acordo com estudo da Zion Market Research, projeta-se que alcance USD 2.650 milhões em 2031, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 6,91%. Essa tecnologia está claramente ganhando espaço no mercado de maneira geral, e também nos projetos de data centers: é cada vez mais difícil encontrar capacidades disponíveis nos sistemas elétricos interconectados nacionais.

Grandes operadores de hiperescala como Google, Microsoft e Meta, além de provedores de colocation como Equinix estão incorporando progressivamente essa tecnologia em alguns de seus projetos de data centers. Espera-se que mais adoções sigam ocorrendo nos próximos meses e anos.

Na Vertiv, estamos trabalhando em parceria com vários clientes de data centers de grande porte, atuando desde as fases iniciais de especificações e modelagens. A meta é ajudá-los a articular os esforços com entidades de energia e/ou projetos de energias renováveis. Esperamos uma demanda crescente e a utilização desses sistemas não só na indústria de data centers, mas também em outras indústrias.

Fernando Leamari, Electrical Engineer da Deerns Brasil

Essa tecnologia já vem sendo adotada globalmente. No Brasil, inclusive, algumas concessionárias de energia já utilizam o sistema BESS como auxílio para horas de picos de demanda de consumo de energia e amortizando alguns distúrbios de energia e diminuindo perdas nas listas de distribuição.

Os data centers não devem ficar de fora dessa prática devido ao aumento do consumo de energia pela ascensão da IA e outras tecnologias. Será primordial ter novos sistema que possam contribuir com o fornecimento de energia limpa.

A meu ver, os principais players que sairão na frente são os data centers do tipo colocation, cuja receita está ligada à locação de espaço. Ao reduzir gastos com energia elétrica ou diesel para os geradores, esses operadores conseguem aumentar sua receita e ainda oferecer um diferencial competitivo com energia mais limpa.

Huawei España

A adoção dos sistemas BESS ainda está em uma fase inicial. A proliferação de usinas de geração de energia renovável abre caminho para a industrialização do armazenamento, com o objetivo de compor uma rede mais estável e gerir os recursos de forma mais eficiente.

O próximo passo é integrar indústrias eletrointensivas, como a dos centros de dados, para aproveitar a economia de escala e o consumo constante e garantido da produção. Além disso, os data centers se beneficiarão de custos mais baixos.

Juan Pérez-Tinao, Business Development, CEN Solutions

A adoção tem sido mais limitada do que em outros setores, pois atualmente os fabricantes de baterias estão mais focados em sistemas de longa duração, enquanto as necessidades dos data centers estão mais associadas a durações curtas ou médias.

É necessário um maior conhecimento e colaboração entre todas as partes envolvidas (colocation, engenharia e fornecedores) para promover projetos que substituam a geração a diesel — ainda que parcialmente — nos data centers em construção, permitindo uma maior penetração desses sistemas nesse tipo de instalação.

No caso da CEN Solutions, temos experiência em outros setores de fornecimento crítico, como o farmacêutico, e em países com redes muito instáveis, onde foram instalados sistemas substitutivos de grupos geradores a diesel que estão operando satisfatoriamente há um ano.

Philippe Coura Vivia, diretor de operações da Elea Data Centers

Para operações de missão crítica com alta densidade energética, como as que sustentam cargas de inteligência artificial, ainda é necessário equacionar alguns aspectos para que o uso em larga escala do BESS seja amplamente viável. Isso inclui a maturidade técnica das soluções atuais, a complexidade de descarte das baterias de íons de lítio, a volatilidade no custo das matérias-primas e a necessidade de comprovação de desempenho em ambientes de alta disponibilidade.

Na sua opinião, qual é o potencial do BESS para substituir ou reduzir o uso de geradores a diesel nos data centers?

Alex Sasaki, vice-presidente de vendas da Vertiv para a América Latina

Vemos que este modelo tem grande potencial, dependendo das variáveis e do contexto de cada projeto. A substituição ou a redução de geradores a diesel estão especialmente relacionadas ao tempo de backup esperado (estudo da Zion Market Research).

Vemos que inicialmente serão mais adotados sistemas mistos, onde o BESS reduziria o uso dos geradores. Somente mais tarde aumentarão os casos em que o BESS substituiria completamente os sistemas de backup a diesel.

Quanto maior o tempo de backup desejado, maior será a diferença nos custos CAPEX da solução BESS em relação aos geradores a diesel.

Fernando Leamari, Electrical Engineer da Deerns Brasil

Acredito que a implementação de um sistema híbrido, com o BESS operando em conjunto com os geradores a diesel, seja o primeiro passo para reduzir o consumo de combustíveis fósseis e a emissão de CO₂.

A substituição completa dos geradores a diesel ainda é complexa. Por exemplo, data centers com certificação Tier 3 precisam garantir 72 horas de autonomia com diesel, conforme exigido pelas normas. Para que o BESS atenda a esse tempo e capacidade, seria necessário um grande espaço físico para a instalação dos containers.

Ainda assim, o BESS representa um avanço importante rumo à substituição dos combustíveis fósseis na indústria de data centers.

Juan Pérez-Tinao, Business Development, CEN Solutions

O potencial de uso é muito elevado e consideramos que esta é a aplicação direta mais adequada para contribuir com a descarbonização dessas instalações.

Philippe Coura Vivia, diretor de operações da Elea Data Centers

Acreditamos no potencial transformador do BESS, desde que sua adoção esteja alinhada à maturidade tecnológica, consistência nos resultados e aos nossos compromissos com desempenho, sustentabilidade e alta disponibilidade.

Huawei Espanha

No futuro, o uso de grandes geradores a diesel em infraestruturas industriais pode ser restringido. Assim, os sistemas BESS permitem antecipar-se a um cenário de incerteza e risco.